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Alícia Madrid

Somos todos universos ambulantes com almas metamórficas.

The Purge: Uma Noite De Crime

Em uma sociedade não tão distante, no ano de 2022, os EUA conseguiu anular o índice de criminalidade ao tomar uma medida radical: "The Purge", um período anual de 12 horas em que qualquer crime cometido não é passível de punição.


O filme lançado este ano propõe uma discussão acerca de várias facetas da natureza humana, através dos infortúnios acometidos à família de James Sandin: um homem bem-sucedido que cresceu no ramo de proteção residencial (o mercado mais lucrativo desde que as pessoas passaram a viver na iminência de invasores mutilarem seus entes queridos livremente).

A noite de terror começa quando seu filho mais novo atende a um pedido desesperado de um homem de aspecto miserável, ele clama por ajuda acaba abrigado pela compaixão do menino. Este é o estopim de uma série de acontecimentos trágicos provocados por um grupo de jovens ricos que foram à caça. No desenrolar da trama, vemos que "o expurgo" se tornou a oportunidade das classes sociais mais abastadas extirparem da sociedade as camadas menos favorecidas. É uma época em que o poderio de uma casa é medido por sua capacidade de adquirir armas e lacrar com eficiência suas entradas.

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Dentro desta atmosfera, existe a crueldade pura contraposta ao instinto de sobrevivência, e a questão fundamental levantada é: a violência é uma necessidade inerente ao ser humano? "The Purge" é uma doutrina adotada e defendida pelos cidadãos americanos que veem as mortes e abominações ocorridas neste período como um sacrifício indispensável para que a ordem reine nos outros 364 dias do ano.

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Será que o temor que possuímos perante as consequências legais é a única coisa que nos priva de exteriorizar os sentimentos mais obscuros que vivem dentro de nós? E seria suficiente que um ato de violência tivesse respaldo na premissa de que toda dor e sangue são para um bem maior? Será que qualquer remorso ou culpa seria encoberto pela louca sensação de justiça, em forma de opressão dos mais fracos, ou de vingança por revidar um mal que nos foi causado anteriormente? Quem será real, o humano ou o monstro?

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O filme tem uma vaga semelhança com "Laranja Mecânica" quando se compara a profundidade do nível de sociopatia dos personagens, ou a comicidade doentia que torna as cenas de tensão ainda mais incômodas. Apesar da temática ser extremamente interessante, acredito que a roteiro não explorou inteiramente as possibilidades existentes. O fato da história girar um torno de uma única família, a meu ver, limitou um pouco algo que poderia ser de uma complexidade ainda maior.

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A produção traz o ator Ethan Hawke e a bela Lena Headey (a Cersei de Game of Thrones), um casal que é vítima de seus próprios valores, uma ironia que, no final das contas, prova que um sistema só é moralmente aceito até que uma gangue psicopata bata à sua porta.


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