Ágora

Construções verbais de colunas abstrativas

Alícia Madrid

Somos todos universos ambulantes com almas metamórficas.

Te encontro no quilômetro 44

Às vezes penso que, hoje em dia, a gente já nasce com o coração partido: ou tem aquela ânsia incontrolável de amar desesperadamente, ou se torna apático a qualquer possibilidade de envolvimento afetivo... Achamos que numa relação, ou se joga de cabeça, com os olhos fechados e as mãos às costas, ou não se molha nem o dedinho do pé.


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A gente acha que amar é abrir mão de si mesmo, dos próprios desejos, da própria identidade; que é uma via de mão dupla que leva à aversão contumaz ou à submissão cega. Acha que extremista é só aquele homem-bomba do Oriente Médio, porém, vê por todos os lados a condenação da passionalidade, mesmo que branda, como se fosse uma bruxa nos tempos da Inquisição, ou, em contrapartida, vê a dependência simbiótica a alguém que, em tese, deveria ser seu país vizinho, não seu continente.

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No lado dos descrentes, sentimento é fraqueza, é vulnerabilidade, porque ninguém vai macular meus planos, minhas metas, ninguém vai me desviar do caminho que tracei pra mim mesmo, e que não inclui ninguém mais além de mim. A definição de amor vira “sacrifício”, ser independente é sinônimo de ser solteiro, individualismo se torna a antítese de empatia. Quantas vezes eu mesma me peguei pensando “espero que o cara com quem eu vá me casar não apareça agora, senão estou ferrada!”.

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E por outro lado, quer-se tanto ter companhia, que quando alguém especial enfim aparece, pensa-se que amar é dividir o mesmo perfil no Facebook, é tatuar o nome na pele, é usar alianças que pesam meio quilo... Pensa-se que amar é fundir e não complementar. E aí, nos casos em que o sufocamento deliberado pressiona de tal forma que se torna insuportável, demanda-se liberdade, aquela que quando é de bom-grado concedida, não vem com manual de instruções. E por fim, as amarras que ficaram no chão são pegas de volta e se refazem os nós nos próprios punhos; na mente, ficam as constatações: “se não sente ciúmes, não se importa comigo”, “se não encrenca quando eu saio sozinho (a), tá me traindo”, “se quer que eu aceite aquele emprego em outra cidade, não me ama de verdade”.

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Observando tais comportamentos, penso que amar não tem que ser tudo ou nada. Por mais que a adrenalina e a euforia gravem as lembranças mais profundas na memória, é no equilíbrio que se cria o respeito, a cumplicidade e todas aquelas outras coisas que a gente tende a subestimar quando se resguarda de qualquer fagulha de afeição ou rasteja na lama dos espasmos amorosos.

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Penso que o amor permite comedimento, meio-termo, numerais fracionários, casas decimais: eu cedo um pouco daqui e você um pouco daí, e aí a gente tenta algo novo, algo juntos... Pega o que eu quero e o que você quer, vê onde têm linhas perpendiculares e quem sabe, aproxima as paralelas; porque, pra mim, amar é uma escolha, não uma obrigação. Se eu estou no quilômetro 8 e você no 80, a gente se encontra no 44, pode ser?


Alícia Madrid

Somos todos universos ambulantes com almas metamórficas..
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