Ágora

Construções verbais de colunas abstrativas

Alícia Madrid

Somos todos universos ambulantes com almas metamórficas.

As coisas são como são porque são assim mesmo

Você acha que está livre das imposições sociais? Reflita um pouco mais.


Há um episódio de “Gilmore Girls” em que Lorelai Gilmore pondera se tudo o que ela era e havia feito em sua vida até então era motivado genuinamente por suas próprias vontades, ou se na verdade tudo sempre havia sido guiado pela satisfação inconsciente (e consciente também) de contrariar os desejos de sua mãe.

Não, este texto não é sobre Lorelai, mas a situação que acabei de expor serve como uma conexão para o assunto sobre o qual quero falar. Pare um pouco e reflita, por que você faz as coisas que faz? Por que (des)gosta das coisas que (des)gosta? Nosso cérebro é capaz de responder a esses questionamentos até certo ponto,mas chega um momento em que simplesmente sentimos que as coisas são como são porque essa é sua ordem natural, porque são assim mesmo.

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Para mim, a naturalidade é uma justificativa errônea, visto que natural seria que certos assuntos nem sequer existissem, nem sequer fossem discutidos, e sim, estou falando de direitos humanos, de mídia, de padrões estéticos, entre outros. A questão é que às vezes cremos que estamos à parte de algum tipo de comportamento, mas inconscientemente, acabamos por legitimá-lo através de pequenas ações involuntárias ou frases que saem da boca automaticamente.

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A realidade é que nossa atenção frequentemente se dirige para fatos que não deveriam sobressaltar aos olhos. Se chama a atenção é porque é incomum. Se é incomum, está fora das não formalizadas, mas sempre legitimadas, regras sociais. Darei alguns exemplos:

.“Olha que fofo aquele casal gay de mãos dadas” legitima a discriminação homoafetiva;

.“Não posso usar salto porque meu namorado é baixo” legitima a obrigação viril do homem;

.“Meu marido me ajuda em casa” legitima a obrigação doméstica da mulher;

.“Ela nasceu pobre, mas fez até faculdade” legitima a educação exclusiva e não inclusiva;

.“Que bacana, puseram um protagonista negro” legitima a discriminação racial;

.“Ela é gordinha, mas é super estilosa” legitima a ditadura da magreza.

Essas situações podem ser vistas como triviais, mas servem como uma consolidação de imposições e condicionamentos que nos são incutidos desde o nosso nascimento.

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Em teoria, se víssemos uns aos outros como seres humanos iguais, não nos surpreenderíamos com certos acontecimentos que contrariam essas construções sociais, as quais estão tão profundamente arraigadas dentro de nós, que parecem sensatas e fundamentadas, embora não saibamos explicar o porquê.

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“O poder simbólico só pode ser exercido e reproduzido com a ajuda dos que são submetidos a ele”, é o que disse Pierre Bourdieu, famoso sociólogo francês. Segundo suas palavras, nós - mesmo que inconscientemente - somos instrumentos de legitimação da propagação dos mecanismos de opressão que nos fazem agir e pensar de acordo com as normas estabelecidas por aqueles que detêm não somente o poderio econômico, mas principalmente, o poderio intelectual.

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Tomar consciência de tudo isso é sentir-se, inicialmente, hipócrita: um usufruidor do sistema que tendemos a condenar. Contudo, após um pouco de reflexão, podemos entender que qualquer relação interpessoal, interanimal, intervegetal ou intermineral está de alguma forma baseada nessa vinculação de poder.

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Por isso, estar na barriga da baleia não é, por conseguinte, o fim da linha; pelo contrário: pensar criticamente em uma sociedade veladamente opressora é abrir possibilidades, é escolher estar onde se está por opção e não por condicionamento. É, portanto, colocar-se a par dos limites, das inflexões e dos pontos frágeis onde a mudança pode ter potencial de crescimento. E aí fica a critério de cada um de nós abraçar ou não a responsabilidade de provocar uma faísca de transformação.

Imagens: Google


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