Ágora

Construções verbais de colunas abstrativas

Alícia Madrid

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Mas você crê se quiser: notas sobre o Rio

Coloquei Seu Jorge pra tocar, cantor nascido em Belford Roxo. Quero escrever sobre o Rio, e a trilha sonora é fundamental.


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Só depois que me mudei para a cidade maravilhosa entendi o que a canção quer dizer com “morando em São Gonçalo você sabe como é, hoje a tarde a ponte engarrafou, e eu fiquei a pé…”, até então, para mim, São Gonçalo era só uma cidadezinha no sul de Minas, perto de onde fui criada.

Quando cheguei ao Rio, em 2014, com uma mala pequena e uma mistura de medo e ansiedade no peito, o tempo estava horrível. As nuvens eram cinzentas, na verdade, parecia que a cidade toda era cinza, como um filme P&B meio desbotado. Talvez fosse só meu estado de humor.

Na areia de Copa, o vento soprava impiedoso. Era julho, nada de Rio 40 graus. Nesse dia encontrei Drummond sentado estático e estoico à beira-mar, me recostei em seu ombro em busca de consolo... ou de encorajamento - não sei dizer - como se fôssemos grandes amigos. "Amigos" talvez seja exagero, mas éramos, de fato, dois mineiros em solo carioca.

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Lembro-me do dia que liguei pra casa e avisei: “mãe, arrumei um emprego, vou ficar.” Desse dia em diante eu passaria a chamar aquela cidade de lar. Logo o verão viria e eu me daria conta de como aquele dia frio de julho havia sido atípico. No verão a gente entende porque há tanto chinelo, tantos banhos e tanta pele de fora. Dizem que em Bangu faz mais calor do que em qualquer outro lugar. Nunca cheguei a ir a Bangu, mas boto fé.

Morando no Rio, descobre-se que o sotaque carioca tem variações - da Zona Sul, da Baixada -, que a Barra não é da Tijuca, que tem chopp no horário de almoço, que toda festa tem glitter, e que qualquer discussão com forasteiros é terminada com o argumento “mas é biscoito, não bolacha”.

O Rio é meio que uma cidade paradoxo: tem muita beleza e miséria ao mesmo tempo, tem gente milionária e gente pobre andando na mesma calçada, tem muita mulher empoderada e muito assédio físico e verbal, tem muita simpatia e cordialidade entre conhecidos e tem taxistas ranzinzas e atendentes mal-humorados, tem aquela aura de glamour que a gente vê nas revistas e tem um cheiro de urina em praticamente cada esquina.

E mesmo com todos os reveses, uma das paisagens mais lindas que já vi foi em uma aterrizagem no Santos Dumont ao anoitecer. As luzes dos morros acendiam à medida que o céu escurecia. Pareciam constelações, parecia que o céu estava de cabeça para baixo. Ou era eu?

Aliás, no Rio aprendi que a realidade do morro é a realidade de milhares de pessoas. E aprendi que não cabe a mim julgar uma realidade sobre a qual ouvi muito a respeito, mas nunca experimentei. Conclui que imaginar uma vida na favela é muito diferente de senti-la, a gente pode ter o respeito e a empatia que for, não chega nem perto.

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O Rio mantém uma certa imponência de uma cidade que já foi a capital de um império, mas que nas últimas décadas, viu o descaso e a desigualdade formarem um período de decadência. Dom Pedro II queria que o Rio se assemelhasse a Paris. Um dia fui a uma exposição do fotógrafo Marc Ferrez e fiquei impressionada, é inegável que as ruas haviam sido projetadas seguindo o estilo Europeu. Hoje, muitas construções majestosas ainda permanecem, mas dão abrigo para moradores de rua, que às vezes são famílias inteiras.

Recentemente, revitalizaram uma grande parte do centro histórico e ficou bonito pra caramba, habitantes e turistas se divertem passeando e tirando fotos. Eu só me pergunto se transformar o ambiente transforma também a sociedade, ou se, infelizmente, ao encher os olhos com beleza, acabamos desprezando ainda mais a feiúra concomitante, aquela que é deliberadamente fomentada pelas mãos da negligência.

Deixei o Rio há pouco tempo e sinto uma mistura de alívio e gratidão. Com um lugar tão ensolaradamente contraditório, até meus sentimentos se tornaram paradoxais.

Imagens: Marc Ferrez (fonte:umpostalpordia.wordpress.com)


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