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Alícia Madrid

Somos todos universos ambulantes com almas metamórficas.

Julia x Kay: Maridos Importam

Meryl Streep é a atriz que dá vida a duas personagens aparentemente tão opostas entre si: Julia - escritora e chef responsável por popularizar a culinária francesa na América, e Kay - esposa bela, recatada e do lar.


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Essas duas mulheres são retratadas nos filmes "Julie & Julia" e "Um Divã para Dois", e parecem ocupar posições opostas no espectro da liberdade feminina na sociedade.

Julia é uma força da natureza, praticamente inabalável, é exuberante e extrovertida. Paul, seu marido, compara o ato de observá-la cozinhar a assistir o percussionista de uma orquestra tocar: seus movimentos são fluidos, cadenciados, uma demonstração de conforto para com o ambiente e para com próprio corpo.

Julia apresenta uma impressionante determinação para alcançar seus objetivos: trabalha mais do que todos para provar-se capaz de tornar-se uma grande chef. Trabalha mais pois tem que encarar uma sala de aula cheia de homens que não lhe levam a sério, uma culinária que não lhe é familiar, uma diretora que a despreza e a língua francesa, a qual não tem fluência. E mesmo com todos os revezes, seu casamento é feliz e saudável. Paul é seu grande ponto de apoio.

Já Kay tem a postura subserviente de quem passou a vida toda cuidando de outras pessoas e pouco de si mesma. Acha difícil até falar de maneira clara e pronunciada, usando sempre tons fracos e inseguros. Baixa autoestima, repressão sexual, falta de confiança em si mesma, Kay deixou a chama do amor próprio quase apagar dentro si.

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E ainda assim, Kay talvez pudesse ter sido como Julia se tivesse escolhido um marido semelhante: enquanto Paul é um incentivador, um fã (provavelmente o fã número um de Julia), Arnold é frio, ríspido, distante, esbanja uma indiferença que provavelmente é fruto de anos de tédio e desgaste, ao lado de mulher moldada para não ter grandes ambições nem prazeres. Uma mulher que não achou que houvesse outra vida além do padrão tradicional (e aparentemente incorrompível) de família.

Mas Kay estava errada, as coisas poderiam sim ser diferentes. Tomar consciência disso faz com que ela, uma vez na vida, exerça um papel ativo em sua própria realidade: decida submeter-se a uma terapia em casal para tentar melhorar seu casamento. A força de Julia também habita Kay, ela só não a havia encontrado durante grande parte de sua vida.

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Julia nasceu algumas décadas antes de Kay, mas a primeira com certeza estava a frente de seu tempo, enquanto a segunda poderia ter representado uma mulher usual do século XIX.

Kay e Arnold são a prova de que relacionamentos pautados na desigualdade de vozes são ruins para ambos os lados, existem frustrações mútuas, seja no companheirismo superficial ou na vida sexual insatisfatória.

É importante frisar que apesar de ser tão reprimida, Kay é corajosa o suficiente para mudar o rumo de sua vida, mesmo que isso signifique repensar cada aspecto de suas convicções e atitudes, a fim de livrar-se de uma rotina tão monótona e sem afeto.

Julia e Paul têm entre si várias qualidades de um relacionamento em que as duas pessoas caminham lado a lado, e não uma atrás da outra, não uma intimidada pela outra ou servil à outra.

Julia se deleitava testando novas receitas e fazendo refeições formidáveis para Paul e seus amigos. Kay todos os dias preparava bacon e dois ovos fritos para um marido que não dormia na mesma cama que ela, não lhe tocava com carinho e nem sequer lavava os pratos.

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Existem milhares de Julias e Kays por aí, você provavelmente conhece várias ou até mesmo se identifica com alguma delas. Assim como também existe um número sem-fim de Pauls e Arnolds, com relacionamentos incríveis ou em ruínas.

Esperamos que as Julias e os Pauls possam inspirar as Kays e os Arnolds a se tornarem mais abertos uns com os outros, mas principalmente, que as Kays encontrem uma forma de se libertarem das imposições a que foram submetidas, e por fim, se tornem mais gentis para consigo mesmas e mais audaciosas perante o mundo.


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