agridoce

com açúcar e sem afeto

Christina Zaccarelli

Christina Zaccarelli gosta de livros bem quentes, pessoas bem escritas e xícaras de café audaciosas

45 anos de Leila Diniz no Pasquim

Em 2014 comemoraremos os 45 anos da entrevista de Leila Diniz ao jornal O Pasquim. De tão polêmica, a entrevista inaugurou no Brasil, então mergulhado na ditadura militar, a censura prévia, chamada por anos de 'Decreto Leila Diniz'


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Ela era, antes de mais nada, impetuosa: Conhecia como poucos essa aprazível violência que rege a vida e, por isso mesmo, soube desfrutar dela como poucos. Leila Diniz, atriz fluminense que fez tremer a sociedade conservadora dos anos 60, foi talvez o maior exemplo que o Brasil produziu de liberdade plena feminina: Leila foi a primeira a posar nua e grávida, usava palavrões, trocava de namorado sem dar explicações e pior: Dizia o que pensava.

Leila foi a musa do chamado 'cinema novo', movimento influenciado pelo neo-realismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa, que rompeu com a tradição cinematográfica herdada por Hollywood, e que botou em evidência nomes como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Rogerio Sganzerla e Ruy Guerra.

Em 1969, no auge da ditadura militar no Brasil, em que a corja da extrema-direita prendia, torturava, mandava e desmandava no país, Leila, um sopro de vida em meio a tantas mortes nos anos de chumbo, deu uma entrevista histórica ao também histórico jornal O Pasquim. Nela, a atriz deferiu 71 palavrões e fez jorrar no inconsciente coletivo brasileiro o amor livre, falando abertamente de sua vida pessoal, de suas preferências sexuais, além de proferir frases antológicas como "Casos, mil; casadinha, nunca. Na minha caminha, dorme algumas noites, mais nada. Nada de estabilidade", que rapidamente repercutiram como uma arma de destruição em massa nos altos escalões do governo. Leila transformou-se, instantaneamente, em inimiga número um da 'moral e dos bons costumes', tão ardorosamente defendidas pelos militares.

Dois meses depois, e não por coincidência, foi aprovado o Decreto 1077, apelidado por anos de 'Decreto Leila Diniz', em que se instaurava a chamada Censura Prévia à imprensa em todo país. Leila foi perseguida politicamente, perdeu contratos profissionais e teve de se esconder, com medo. Morreu em um trágico acidente aéreo, na Índia, dois anos mais tarde, aos 27 anos de idade.

Leila Diniz deixou um legado que ultrapassa os limites da sétima arte: Mencionar seu nome é, ainda hoje, trazer à tona uma certa sensualidade brasileira que somente ela soube encarnar com tanta perfeição - uma musa solar, desbocada e amante da verdade e suas dolorosas consequências. A primeira a enfrentar de frente, com um risada alta e desafiadora, a hipocrisia burguesa, sem amarras, sem poréns. Ela era o amor ao amor. Leila foi cantada, escrita em poesia e prosa, homenageada e admirada. Leila foi audaciosa o suficiente para ser o que mais desejamos e só às vezes temos coragem: Vivas.

Como bem disse a musa na polêmica entrevista, que sempre será lembrada " Viver intensamente, é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente."


Christina Zaccarelli

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