agridoce

com açúcar e sem afeto

Christina Zaccarelli

Christina Zaccarelli gosta de livros bem quentes, pessoas bem escritas e xícaras de café audaciosas

Sobre Bob Dylan


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Antes de mais nada, admito que não sou uma grande conhecedora da obra de Bob Dylan. Tenho plena consciência de que nem muita coisa tenho: a me olhar da estante, neste exato momento, estão Highway 61 Revisited, Blonde on Blonde, All back home e Blood on the tracks. Também tenho uns 3 ou 4 dvds e algumas porcarias ao vivo achadas na internet, mas nada que me credencie a figurar no seleto grupo de sábios xiitas do poeta. Mas tudo bem.

A primeira vez que o ouvi, estava na casa de um tio meu que sabe muito sobre a arte poética. No entanto, eu, adolescente em trânsito pelos anos 90, estava mais preocupada com a unha pintada de roxo do Nuno Bittencourt ou o último bigode do James Hetfield (talvez Bob Dylan seja como os filmes de Woody Allen... você não será alegremente espancado pelos primeiros quinze minutos de 'Manhattan' se ainda tiver 14 anos e seu maior dilema na vida for decorar equações para a prova de física). De qualquer forma, anos mais tarde retomei àquela gravação e pensei (num vergonhoso clichê, aqui confessado em letras minúsculas) que talvez Bob fosse 'cerebral' demais....sem emoção....Pois é. Mas isso foi até "ballad of a thin man". Então, tudo fez sentido.

A verdade é que Bob Dylan é a epítome do herói moderno: corajoso e covarde, confuso e questionador, forte e fraco.... humano. Todos nós gostaríamos de SER como Bob. Temos inveja dele. Queríamos ter sido alguém que saiu de casa ainda criança, a vagar pelo mundo e mudar de sobrenome sem mais nem menos, por se considerar "sem passado". Imaginamo-nos viajando por aí de carona, sem nada na bagagem, a não ser o violão, a gaita e o peito aberto.

Adoraríamos ter dado aquele olhar blasé para aquela plateia incrédula do Newport Folk Festival, em 65, que gritava 'Judas!' a cada segundo, pela decisão de utilizar guitarra elétrica, com o desprezo genial de quem sabe muito bem para onde está indo. Está dentro de todos nós a vontade de ter dissecado aquele moralismo puritano burguês norte-americano em só uma estrofe:

The hysterical bride in the penny arcade Screaming she moans, "I've just been made" Then sends out for the doctor Who pulls down the shade Says, "My advice is to not let the boys in" *(A noiva histérica no Fliperama Esgoelando ela geme, "Acabo de ser feita" Depois chama o médico Que abaixa as cortinas Diz, "Meu conselho é não deixar os rapazes entrarem)

E sair rindo, indiferente, a despeito de tudo e todos, já apontando a metralhadora giratória de ideias para outro lado. Gostaríamos de mandar todo mundo para o inferno, inventar uma reclusão no meio do mato e não estar pra ninguém, diabos. Desejamos conseguir ser tão sofisticadamente simples como ele.

Eu sei, nunca farei nada disso. Tudo bem. Para isso temos o Bob.


Christina Zaccarelli

Christina Zaccarelli gosta de livros bem quentes, pessoas bem escritas e xícaras de café audaciosas .
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