agridoce

com açúcar e sem afeto

Christina Zaccarelli

Christina Zaccarelli gosta de livros bem quentes, pessoas bem escritas e xícaras de café audaciosas

Tudo o que papai não gosta

Afinal, a juventude criou o rock'n'roll ou o rock'n'roll criou a juventude?


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Eram os anos 50. Os Estados Unidos da América estavam passando por uma transformação histórica: desde o começo do século XX, crianças entre 13 e 17 anos eram encorajadas pelo governo a permanecer na escola, ao invés de entrarem para o mercado de trabalho prematuramente como haviam feito seus pais e avós. Isso criava uma geração diferente: Os jovens brancos de classe média daquela América segregada, tinham no rádio seu principal veículo de expressão e, desde o final da Segunda Guerra Mundial, haviam sentido o gostinho doce e proibido da diversão regada a música negra americana.

Essa geração não se encontrava: não se via representada na cultura infantil, nem se identificava com as letras de música melancólicas que os adultos ouviam. Queriam ser diferentes de seus pais, que haviam vivido a depressão dos anos 30 e sobrevivido à guerra dos anos 40. Queriam mais. Eis então que, em algum ponto no começo da década de 50, algumas audaciosas estações de rádio, em cidades como Memphis e Chicago começaram a transmitir uma mistura inusitada de blues, country, gospel e folk, com uma temática prá lá de saborosa: Carros, garotas e guitarras. Os artistas que traziam essa nova mistura pareciam vir de outro planeta - seus gestos, dança, atitude, até o jeito de arrumar o cabelo e empunhar uma guitarra apresentavam a rebeldia à cultura dominante, que então pregava obediência aos pais e professores: Estava criada uma nova cultura, feita pelo jovem e para o jovem, uma verdadeira afronta aos costumes tradicionais. 379px-Chuck_Berry_(1958).png

A coisa foi tão séria que até a palavra 'teenager' (adolescente, em inglês) foi criada nessa época. O boom econômico do pós-guerra permitiu que jovens entre 13 e 19 anos comprassem seus álbuns favoritos, suas roupas ousadas e assistissem aos programas vespertinos com apresentações de suas bandas favoritas em seus novos aparelhos de TV. Tudo isso, com o tempero pungente da contracultura que crescia vertiginosamente nos meios literários e gostava de se rebelar contra tudo o que acreditava o homem comum de classe média, fez com que milhões de jovens se identificassem instantaneamente com aquele que seria o grande estilo americano da década: O rock'n'roll.

O casamento entre a cultura popular e essa nova geração deu tão certo que, em 1956, um impetuoso guitarrista negro de nome Chuck Berry, talvez o primeiro artista do rock, teve a audácia de escrever uma canção emblemática que se tornaria um verdadeiro tapa na cara de todos os narizes que se torciam ao novo estilo: "Roll over Beethoven", , música dançada e usada como provocação por milhões (e mais tarde regravada pelos Beatles), afirmava com todas as letras que os jovens estavam a 'rolar por cima de Beethoven e curtindo um rhythm and blues' - uma alusão ao fato de que a música popular dominava o pensamento da nova geração em detrimento à velha e cansada música erudita. Uma afronta, no mínimo. Uma apetitosa e majestosa afronta.

Desde então, adolescentes do mundo todo vem rolando alegremente por cima de Beethoven. O rock'n'roll evoluiu, sofreu mudanças, mas nunca mais deixou de ser o veículo das angústias e alegrias da cultura jovem, fosse com os hippies, os punks, o metal, os indies ou quem quer que fosse. E nunca, intuo, morrerá. Afinal, nada mais delicioso que um barulho ensurdecedor e visceral que seus pais não suportam... certo?


Christina Zaccarelli

Christina Zaccarelli gosta de livros bem quentes, pessoas bem escritas e xícaras de café audaciosas .
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