agridoce

com açúcar e sem afeto

Christina Zaccarelli

Christina Zaccarelli gosta de livros bem quentes, pessoas bem escritas e xícaras de café audaciosas

Porque Serge Gainsbourg é meu anti-herói favorito (e deveria ser o seu também)

Se Gainsbourg estivesse vivo, estaria completando 86 anos esta semana. É a melhor desculpa para revisitarmos a obra do enfant terrible que odiamos amar (e amamos odiar)


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Ok, ele era feio. Ok, ele era muito feio. Aliás, deve ter sido um dos homens menos favorecidos esteticamente que já pisaram na face da terra. Mas, mesmo assim, com aquele cigarrinho no lado esquerdo, quase caindo da boca, suas impecáveis olheiras de 'day after' (sorry, Del Toro) e aquele je ne sais quoi que só os vagabundos fétidos conseguem deliciosamente exalar, eu não resistiria ao charme de Gainsbourg. E explico porquê.

Ele nasceu Lucien Ginsburg de ascendência Russa e Judaica. Cresceu na Paris embrutecida pelos nazistas, fato que o acinzentaria para sempre. Mesmo fugindo para Limonges, cidade não ocupada, mas controlada por Vichy, Serge aprendeu muito cedo a enfrentar a barbárie com doces toques no piano. Foi cantor, compositor, pianista, poeta, pintor, roteirista, escritor, ator e diretor (e lá se vai a teoria do 'vagabundo', não?). Mudou de nome no final da década de 50, em homenagem a Thomas Gainsborough, mestre do Arcadismo britânico que soube, como ninguém, usar a inteligência para atrair a clientela rica de Londres e ganhar liberdade para pintar o que queria.

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Gainsbourg começou a carreira tocando em pequenos bares nos arredores de Paris e logo se destacou pela morbidez e conotações sexuais em suas letras. Seu primeiro sucesso, "Le Poinçonneur des Lilas", de 1959, conta a história de um homem cujo trabalho consiste em fazer furos nas passagens dos frequentadores do metrô de Lilas e nela se ouve: "Y a d´quoi d´venir dingue/De quoi prendre un flingue/ S´faire un trou, un p´tit trou, un dernier p´tit trou" (há algo que me deixa louco, que me faz pegar em uma arma e fazer em mim um buraco, o último pequeno buraco).

E esse foi só o começo: em 1965 compôs "Les Sucettes" (os pirulitos) fazendo a então naïve estrela pop francesa France Gall inadvertidamente cantar insinuações de sexo oral, para escândalo de todos. Em 1969 veio a canção bomba que o marcaria para sempre: "Je t'aime...moi non plus" (te amo... eu também não) que inicialmente seria cantada por Brigitte Bardot, e acabou tornando-se um hino da contracultura, impulsionada pela letra explicitamente sexual e pelos doces gemidos da então namorada Jane Birkin. Para se ter uma ideia do impacto que a canção causou, foi censurada em 11 países (inclusive na liberal França que só a permitia depois das 11 da noite) e ainda citada pelo Vaticano como 'ofensivamente obscena'.

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O poeta intoxicava-se e libertava-se cada vez mais: Em 1975, Rock around the bunker trouxe saborosas histórias de humor negro que tinham os nazistas como atores principais. Em 1979, mudou-se para Jamaica, escreveu La Marseillaise em ritmo de reggae, para o desespero dos sempre esclarecidos partidários da extrema-direita francesa e deleite dos que adoravam suas subversões cada vez mais.

Em 1984, gravou com a filha Charlotte Gainsbourg a cereja do bolo Lemon incest, e foi acusado de incesto e pedofilia, inserindo-se de vez na tradição dos artistas que provocam - os verdadeiros usurpadores dos bons costumes, como Rimbaud, Baudelaire, Verlaine e tantos outros imersos no iluminado universo da melancolia, da insanidade, do crime, da violência e da miséria. E melhor, o fazia dançando.

Lemon_incest.jpg Serge gargalhou. Divertiu-se e fez graça com o rock, o sexo, a política, a chanson, o dinheiro, o reggae, a notoriedade, a música clássica. Riu e olhou profundamente nos olhos daqueles que ninguém quer olhar. Libertou-se e fez libertar. Puxou o ridículo humano pelo cabelo e o expôs no superlativo. Pode até ter sido um homem feio, mas que era adorável...bom.. moi non plus.


Christina Zaccarelli

Christina Zaccarelli gosta de livros bem quentes, pessoas bem escritas e xícaras de café audaciosas .
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