ai tia chica

aleatoriedades randômicas

jic

Do tempo em que éramos chamados de micreiros, passando por fuçadores e agora genericamente de nerd/geeks.

A onda e a sombra

Um trecho que não faz parte em nada do enredo de principal de Les Misérables. A ilustração dramática da sina de um miserável marinheiro já sem sorte. Porém mostra a habilidade da pena de Victor Hugo que faz de nós expectadores impotentes. Um curto entreato, talvez numa galé. Talvez na em que estava Jean Valjean... Talvez...


Homem ao mar!

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Que importa? O navio não pára. O vento é fresco e o navio tem um rumo que é obrigado a seguir. Portanto, segue avante.

O homem que caiu ao mar desaparece, torna a aparecer, mergulha, sobe à superfície, estende os braços, clama; ninguém o ouve. O navio, estremecendo com a violência do furacão, vai entregue à manobra; os marinheiros e passageiros nem mesmo vêem o homem submergindo; a miserável cabeça do infeliz é apenas um ponto na enormidade das vagas.

São desesperados os gritos que o desgraçado solta das profundezas. Que espectro aquela vela que se afasta! Contempla-a êle frenèticamente; vê-a fugir, até desaparecer. Há pouco pertencia à equipagem, e percorria o convés junto com os companheiros; havia pouco ainda tinha ali a sua parte de ar e de sol; pouco antes ainda vivia. Que foi, pois, que sucedeu? Escorregou, caiu, acabou-se.

Acha-se nas águas monstruosas; debaixo dos pés tudo lhe foge e se desloca. As ondas revoltosas e retalhadas pelo vento rodeiam-no medonhas, os rolos do abismo arrebatam-no, os farrapos da água agitam-se-lhe em volta da cabeça, a plebe das vagas cospe-lhe às faces, e confusas aberturas quase o devoram; sente presoso os pés por hediondas e desconhecidas vegetações; parece-lhe que se torna abismo, que faz parte da espuma; as ondas arremessam-no umas às outras, bebe a amargura, o oceano covarde empenha-se em afogá-lo, a enormidade diverte-se mcom sua agonia.

O homem, ainda assim, luta.

Diligencia defender-se, intenta suster-se, emprega todos os esforços, consegue nadar. Êle, pobre fôrça de repente exausto, combate a que é inexaurível.

Onde está o bnavio? Muito longe. Mal se avista nas lívidas sombras do horizonte.

O mar é a inexorável noite social onde a penalidade lança os condenados. O mar é a miséria imensa.

A alma em tal báratro, pode tornar-se cadáver. Quem ressuscitará?

Excerto do capítulo VIII do livro segundo da primeira parte (Fantine) de Os Miseráveis, de Victor Hugo, transcrito da edição de 1959 da Editora Edigraf. Mantida a ortografia e acentuação originais. victor-hugo.jpg


jic

Do tempo em que éramos chamados de micreiros, passando por fuçadores e agora genericamente de nerd/geeks..
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