alacridade

Vivacidade alegre

Ninnah Silva

Se ao fim te conheceres melhor, tua jornada terá valido a pena.

Desfocar é preciso

Num mar de dores e sofrimento como podemos seguir sem soçobrar? Parece impossível vencer aquele amor e confiar nas pessoas novamente, pôr a cara no sol e ser feliz de novo. O medo de se machucar traz o medo das possibilidades, do futuro, de outros e outras que não esperam ser descobertos, mas existem nesse imenso mundo e podemos encontrar. Seu coração agüenta outras pancadas, ele foi feito para batidas.


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Faz já alguns meses fiquei sabendo duma amiga de uma amiga duma amiga cuja história me chegou aos ouvidos. Ela não me é próxima e acreditar nisso fica a seu critério, contudo, essa mocinha terminara o namoro que, segundo a descrição dos que partilharam lá certo tempo com ela, afirmavam ser quase abusivo. Houve várias rupturas, traições por parte do namorado, cretinices quase inenarráveis, em suma: a tragédia já há muito era anunciada.

Findo o relacionamento, essa mocinha conheceu um outro rapaz que parecia bom demais para ser verdade e, por isso, resolveu não dar a ele a chance de machucá-la como o outro fez e se privou de um novo relacionamento com medo do futuro?

Mas o quê? Bem, algumas coisas precisam ficar claras para cada um de nós, e conto isso, não só porque já tenho lá minhas doses de decepções amorosas, e por amor não me limito ao romântico, mas aquele que nutrimos por outro ser humano, incluindo amigos.

Recentemente acompanhei vários imbróglios amorosos: amizades feridas, namoros terminados, casamentos que não seguem lá muito bem das pernas, relacionamentos profissionais e uma infinitude de relações humanas desgastadas pela insistência, pela autocomiseração, pelo negar um espaço ao outro, por expectativas pessoas, incompreensões, atitudes mal interpretadas, e sabe-se lá mais quais fatores.

Conversando com algumas pessoas, eu também sofrente dos meus males amorosos, percebi que uma coisa que praticamente ninguém fazia era desfocar. Mas quando digo desfocar, não é maquiar a dor com um sorriso, é reconhecer o seu tempo de sofrimento, chegar ao fundo do seu poço e quando decidir sair que considere não mais prestar atenção num único foco da sua vida.

Minha experiência foi a seguinte: saí quatro dias na semana com todas as pessoas que me amam e que estavam disponíveis. Fiz o que podia agradar o meu coração: bebi, comi, gargalhei, filosofei, refleti, amei cada segundo e quando chegou a semana seguinte e uma nova segunda-feira, aquela dor imensa havia desaparecido. Não porque eu fingi que não havia, mas porque fui ser feliz e em meio a felicidade, esquecemos do que nos aflige, somos plenos e inteiros, porque não podemos ser meio felizes e daí, a dor que eu tinha acabou.

Problema resolvido? Não, mas ao desfocar, fui capaz de perceber os meus erros, em lugar de culpabilizar e contabilizar os equívocos alheios. Eu pude olhar para mim mesma sem pesar se era ridículo ou não, se eu havia errado. Percebi que fiz o julgado necessário e que arrependimentos não fariam bem algum naquele momento.

Volto para a menina sofredora do início desse texto: precisas desfocar. O amor não deixa de valer a pena porque nos machucamos. Ele é feito dessas feridas também. É feito dessas cicatrizes que não evidenciam nossas escolhas, mas mostra um pouco o quanto já nos dispusemos a viver.

Dói? Sim, podemos chorar, nos deprimir, engordar, emagrecer, surtar, mas seja lá qual caminho decidas promover a si mesmo, desfocar é necessário. Não é enganar a si mesmo, é sair de casa com a convicção de que podes fazer algo diferente por si. Mime-se. Vá ao cinema, ao teatro, vá ao bar, ao puteiro, se o caso, faça amor consigo mesmo ou com outros, doe-se aos que te amam e deixe esse calor suturar teu coração.

Se o tempo que despendemos debruçados num único sofrimento nós utilizássemos para nos fazer feliz, as dores não seriam tão eternas.

Socialmente, como isso funciona? Deixamos de guardar rancor. Deixamos de fazer listas de “nunca mais”, não postamos indiretas, não ofendemos a mãe de ninguém, não infernizamos nossos colegas, não batemos panelas na varanda de casa e ignoramos o quão longe chegamos. Desfocar faz você enxergar o positivo, ser criativo, inovador, funcional e interessante.

Parafraseando (absurdamente) Einstein, é na carência que encontramos as soluções mais criativas. Confie em si. Desfoque.


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