Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

GAVAZZA. MARCO GAVAZZA

Em algum lugar da mídia existe alguém muito parecido com você. Se acreditarmos que Jung está certo, na verdade, você é muito parecido com alguém que está na mídia. Ou esteve. Ou ainda, nunca chegou perto dela, mas andou próximo de você. Você, eu, nós, somos uma colagem de arquétipos dos quais vamos selecionando fragmentos para criarmos o que chamamos presunçosamente de "eu". E nos consideramos únicos no universo. Mas não é bem assim. Somos sim, uma aquarela que um dia enfim, descolorirá. O que incomoda nisso tudo é que faltam arquétipos memoráveis em nossa atualidade e assim restam pouco mais que sombras para moldar os "eus" contemporâneos. Talvez seja uma explicação para a mesmice em que mergulhamos.


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Segundo Jung todos nós nascemos originais e morremos cópias. O que ao longo de nossas vidas, nos transforma em xerox de alguém ou de alguma coisa? Matrizes familiares, culturais, ideológicas, estruturais, religiosas, sociais e muitas outras contribuem para nos tornar, se não uma única cópia, um aglomerado de diversas cópias, algumas se sobrepondo a outras, mas enfim, cópias. Cada um de nós é um pouco do pai, da mãe, de um professor, de um colega de escola, de um companheiro de trabalho.

Alguns vão mais longe e são também um pouco de seus ídolos, desde Michael Jackson até Madre Thereza de Calcutá, passando por Pelé, Lady Di, Ivete Sangalo, Jesus Cristo, John Lennon, Lady Gaga e uma infinidade de outros nomes que a história e a mídia tornaram íntimos da gente. É uma questão de sinergia, mas está ali, num gesto, num olhar, numa atitude.

Mario Cravo, um dos poucos pilares que restam da cultura baiana, diz que somos apenas uma soma de experiências de vida. Nossa ou dos outros, podería acrescentar.

Este tipo de raciocínio, ampliado, me lembra outro mais antigo vindo da Grécia quando se afirmava não existir nada de novo sob o Sol. Na maior parte de tudo que ainda existe sob o astro, parece que os gregos continuam tendo razão. Por exemplo: sempre convivemos com a existência de carros novos (ou zero km) e carros usados (milhares de kms). Mas os "usados" desapareceram. Eles hoje são seminovos. Porém continuam sendo os antigos usados, na essência. Como dizemos popularmente, mudaram as moscas apenas. Somente a tecnologia ousa contestar os gregos ao apresentar novidades surpreendentes vez por outra. O cara que fez a primeira roda a partir de um pedaço de pedra ou de árvore usou a novidade como mesa. A roda, como equipamento para transporte foi portanto uma adaptação e não o resultado da busca específica de uma solução para tirar peso dos ombros ou do lombo dos animais. Isso era feito com troncos de árvores. Hoje, os sistemas de transporte seguem usando rodas como parte de suas estruturas, porém no tempo entre a carroça e o trem-bala não podemos negar que há algo de novo. Se a tecnologia por vezes desmente os gregos e Jung parece permanecer inatacável, a a comunicação de massa fica com um pé na terra e o outro na água. Também nela não há nada de novo sob o Sol, mas ainda nelas, surgem novidades a cada dia. É um paradoxo mas faz tanto tempo que aprendemos a viver com paradoxos que terminamos por descobrir que eles deixaram de ser um impedimento a qualquer coisa e fazem parte do cotidiano.

Assim a propaganda, por exemplo, está aí sem qualquer novidade desde que David Ogilvy a formatou como técnica de comunicação de massa, nos anos 50 do século 20. Os mesmos cartazes nos ônibus e nas placas de outdoor, os mesmos spots e jingles no rádio, os mesmo anúncios em revistas e jornais, os mesmos comerciais na televisão.

Ao mesmo tempo criamos um ambiente chamado internet onde acontecem coisas das mais imprevisíveis. O Twitter por exemplo é algo de novo sob o Sol. A comunicação instantânea com milhares ou milhões de pessoas em todos os cantos do mundo, seja para anunciar uma catástrofe, para dizer que seu time ganhou ou que você não gostou de Biutiful, é uma forma de comunicação que nunca existiu.

Embora tenha uma presença ainda tímida na internet, a propaganda de uma forma ou de outra, está lá.

O que entretanto considero mais curioso é o fato de ao mesmo tempo em que a propaganda e a comunicação confirmam os gregos, repetindo fórmulas ad nauseam, elas fazem também, através do avanço da tecnologia da informação, uma imensa contribuição para a galeria de matrizes que influem na formação das cópias que -segundo Jung- somos cada um de nós.

Quantas Gisele Bundchens existem no seu trabalho? Algumas; tenho certeza. E Brunas Surfistinhas? Diversas. Lulas passaram a existir aos montes entre 2002/2010 e continuam proliferando. São personalidades resultantes da globalização e da informação instantânea, massificada e multiplicada. Personalidades com maior ou menor durabilidade nos palcos da vida ou da história, porém que influenciam pessoas e comportamentos.

Mesmo quando caímos no terreno da ficção, seja através do cinema, da televisão ou qualquer outro meio, matrizes continuam surgindo. Quantos empresários possuem em seu comportamento um pouco de Dom Corleone ou Gordon "Wall Street" Gekko? Quantos jovens em todo o mundo foram influenciados por Jim Stark, personagem de James Dean em Juventude Transviada? Quantos homens maduros passaram a ser um pouco Ricky (personagem de Humphrey Bogart) depois de assistirem Casablanca? Quantos se apresentam como “Silva. José Silva”?

Eu conheço diversos Tios Patinhas, inúmeros Sherloch Holmes, várias Harmiones e até alguns Jack Bauers e Homens Aranha. Isto sem falar nos milhares de Odoricos Paraguaçus que todos nós conhecemos. Até o figurino das personagens das novelas brasileiras são copiados imediatamente e viram modismos fazendo com que cada usuário/usuária se sinta um pouco do personagem.

Podemos ir mais além, pois a própria propaganda ao criar personagens, termina por influenciar comportamentos. Tenho certeza de que na sua empresa existe algum Frango Sadia ou uma Hello Kit. Talvez até você seja amigo de um Bond Boca, conheça um detetive Bardahl ou tenha como chefe um Garoto Bombril.

Como por sua vez a propaganda vai buscar na realidade a matriz de seus personagens, a confusão está formada. Somos cópias de infinitas matrizes, incluindo nós mesmos. Entenderam?

Não importa, pois uma coisa é certa: reais ou imaginários, personalidades ou personagens, ficção ou vida real, alguma característica extraordinária precisa estar contida nesta matriz que Jung afirma influir naquilo que cada um de nós somos ou pensamos ser.

Para isto, é preciso que o ente histórico ou o personagem seja o melhor naquilo que faz, mesmo que seja o Mal. Somente assim se entra para a posteridade, somente assim se influencia comportamentos e gerações. Não é porque o mundo hoje é globalizado, turbinado, instantâneo ou informatizado. Sempre foi assim, hoje é mais.

Ninguém passaria à história universal sendo conhecido como Alexandre, o Médio. Tinha que ser Alexandre, o Grande. Ninguém usaria ainda hoje a expressão “vamos por partes” remetendo-nos à Jack, o Estripador, se ele não tivesse sido o melhor estripador de toda a história da Inglaterra. Ou universal.

Assim também o é na formação de nossas cópias jungianas. É preciso que copiemos o melhor e nunca o mais ou menos.

Talvez por isso estejamos vivendo um tempo de mediocridades. Faltam-nos referências fortes. Faltam-nos matrizes poderosas para transformarem pessoas comuns em personalidades relevantes. O que confirma Jung.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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