Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

PULSEIRAS E ALGEMAS

Foram diversas as formas com que lentamente entregamos nossas crianças ao seus próprios julgamentos e critérios. As transformações sociais somadas à omissão do Estado nos países sub-desenvolvidos (em desenvolvimento ou emergentes, como queiram), onde a preocupação primordial é o lucro e o Congresso Nacional uma empresa privada, respondem por parte disso. Outra parte considerável pode ser creditada à falência do sistema educacional público e o "lavar as mãos" do ensino privado ante qualquer coisa que fuja ao currículo dos conhecimentos teóricos. Educar não é mais uma função que a escola partilha com a família, até porque a família transformou-se numa célula híbrida. E vamos nós agora culpar os próprios meninos e meninas assim tratados por fazerem algo tão sensacional como sexo?


pulseira.jpg

Não faz muito tempo que ouvi numa rádio local, o telefonema de uma mãe anônima e desesperada, pedindo uma orientação sobre a quem recorrer, porque sua filha de 14 anos havia perdido a virgindade na véspera, entregue como uma “prenda” a um rapaz de 17 anos que conseguiu arrebatar a sua “pulseira preta”.

É difícil acreditar que a família tenha se diluído a tal ponto, mas é a terrível realidade. As tais pulseiras coloridas do sexo viraram uma febre entre pré-adolescentes e até crianças, principalmente aquelas pertencentes a grupos sociais mais vulneráveis.

Cada cor das pulseirinhas indica qual a prenda sexual que a sua usuária está disposta a oferecer. A escala vai desde um simples abraço permitido pela pulseira amarela, até o sexo na posição do missionário, coisa que –confesso- nem eu sei do que se trata. Existem ainda as pulseiras cor de rosa em que a menina mostra os seios incipientes. A verde é para sexo oral praticado pelo rapaz, enquanto a azul transfere a mesma ação para a própria usuária. Tem uma branca também e com esta a menina escolhe o que bem entender. E finalmente, a campeã das campeãs: a pulseira dourada. Ela indica que a menina está disposta ao pacote sexual completo, praticando tudo o que for possível ser praticado.

Não sei se a brincadeira (?) das pulseiras em arco-íris sexual já saiu de moda. É provável que ainda resista em algumas cidades do interior, onde as coisas demoram em chegar e, portanto, também para acabar.

Mas, sexo entre adolescentes nunca foi novidade. Não vamos agora dar uma de puritanos e sairmos com o tradicional “no meu tempo não era assim” etc. Era. E com agravantes.

Sendo a virgindade ainda um tabu, as variações sexuais praticadas em elevadores, bancos traseiros de automóveis, últimas filas de cinemas, esquinas pouco iluminadas e outros locais muito bem mapeados pela garotada –eu incluso- não eram poucas. Ainda assim, graças à desinformação sobre preventivos e outros cuidados, a quantidade de garotas que engravidava e sumia de circulação por um bom tempo era enorme. A diferença é que a média de idade para a iniciação era maior e a coisa não era tratada como brincadeira. Hoje, meninas de 12 ou 13 anos estão usando tais pulseiras e fazendo o que acham que devem, sem qualquer remorso.

O que aconteceu de antes até hoje, é que a família se desmoronou e por conseqüência, não exerce mais o papel educativo e eventualmente repressor junto à garotada. Ou porque é uma new family (divorciados casados novamente convivendo com filhos de outros) ou porque pais e mães não encontram mais tempo para conviver com seus filhos, orientá-los e segurarem as rédeas pelo tempo necessário ao amadurecimento.

Pais e mães que passam o dia dentro de ônibus em engarrafamentos e em trabalhos que não lhes dão qualquer satisfação. Gente que chega em casa às 9 da noite para acordar à 5 da manhã e ainda tem que cozinhar, lavar roupa, passar etc. Como dedicar tempo à convivência e orientação para os filhos? Quando uma mãe liga para uma rádio perguntando o que fazer porque a filha perdeu a virgindade, infelizmente não há muito mais o que se discutir.

Por outro lado, o apelo sexual que sempre foi uma coisa muito discreta, tornou-se banal, serve até para se fazer comercial de chocolate. Basta parar numa banca de revistas –nem precisa comprar ou folhear nada- e o sexo está lá exposto, convidativo e frugal.

Como a escola também se eximiu da função orientadora, limitando-se em cumprir quando muito a grade curricular, a garotada está sexualmente feliz igual pinto (sem qualquer intenção de estabelecer associações) no lixo, sem ter a menor consciência das conseqüências desta “felicidade” e irreverência precoces. Os apresentadores da rádio sugeriram que a mãe atordoada procurasse a Justiça, pois se tratava de um caso de estupro.

Como estupro, se a relação foi consentida, sem violência e a garota tinha plena consciência do ato que estava praticando? Certamente não tinha consciência das conseqüências, mas isso configura o estupro social que ela vem sofrendo, possivelmente desde que nasceu. E a culpa não é do parceiro dela, certamente vítima também do estupro estatal e social.

Não sabendo muito bem o que responder, o pessoal da rádio lembrou também que o Ministério Público deveria ser acionado para impedir a venda destas pulseiras. Quanta bobagem. Se não tiver pulseira para comprar, a menina amarra uma fitinha ou até pinta uma no pulso e está resolvida a questão.

Conscientizar a juventude de que o sexo deve ser praticado com responsabilidade, que ele representa uma ligação afetiva e que há uma idade emocional adequada para isso, não é uma questão policial. É uma questão de revisão de toda uma estrutura social e familiar, coisa que não se consegue da noite para o dia.

É uma questão de despertar a consciência desta necessidade, primeiro nos adultos, para que depois de alguma forma, nos re-organizemos como sociedade no sentido de tentar trazer a juventude para uma convivência mais próxima, mais co-responsável pelo seu futuro.

Cabe ao Estado grande parte desta responsabilidade, embora saibamos todos que dificilmente algo será feito com a profundidade necessária para se retomar questões éticas e morais que foram substituídas por uma liberdade muito mais prazerosa, sejamos sinceros. Cabe ao Estado prover escolas decentes, com professores preparados e bem remunerados. Cabe ao Estado a educação profissionalizante, o incentivo ao esporte, as ações socializantes, o acesso à cultura e à arte. Cabe ao Estado oferecer aos jovens a cidadania e cabe a nós oferecer aos jovens o que resta da nossa experiência de vida, da nossa noção de crescimento e amadurecimento.

Reverter a situação de abandono em que se encontram nossos meninos e meninas é uma questão urgente, difícil, porém possível. Estamos todos sentados em nossas poltronas, na beira do cais, olhando a garotada nadar em águas infestadas de tubarões e comentando: “Olha o que esses meninos estão fazendo”. E mais: se alguém banalizou o sexo, não foi a meninada, fomos nós.

Nós publicitários, jornalistas, editores, cineastas, diretores de televisão, diretores de arte, ilustradores, fotógrafos, escritores, empresários de comunicação e outros “nós” pertencentes a uma geração que deveria ter mais responsabilidade diante do que coloca nas ruas.

Não vejo nesta moda das pulseiras coloridas nada novo, escandalizante ou surpreendente. Faz parte de um sistema tão corroído e tão ineficiente onde famílias de baixa renda complementam o orçamento doméstico com atividade sexual remunerada das suas filhas. Incentivada. Um sistema onde meninas de 12 anos encostam-se à janela dos carros parados nos sinais e por um real suspendem as blusas maltrapilhas para mostrar os pequenos seios. E encontram quem pague.

É duro, mas é como o Brasil trata suas crianças. As pulseiras apenas aparecem mais na mídia porque transportam a culpa para a ludicidade, tornando isso uma “novidade” quando na verdade é um lixo antigo que estamos empurrando pra baixo do tapete há muito tempo, há tanto tempo que agora nem o tapete esconde mais.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/// @destaque, @obvious //Marco Gavazza