Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

SÓ A FANTASIA É REAL

A aldeia global e seus instrumentos de comunicação fazem que a realidade seja substituída incessamente por uma nova realidade, segundos após segundos, dia após dia. Porém a fantasia não segue este comportamento. Ela é imune à aldeia global. A fantasia, o imaginário, faz das nossas necessidades emocionais a sua morada e não uma hospedaria de curta permanencia, como acontece com os fatos, com a realidade mutante. Resta-nos como referência para nossa sanidade, apenas a fantasia e suas belas histórias.


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A fantasia e a realidade muitas vezes se confundem quando o ofício é escrever, inclusive propaganda. Borges recriou a história por conta da ficção e talvez tenha morrido achando que alguns dos fatos que ele criou, aconteceram. E quem sabe acreditando que a realidade fosse uma mera ilusão.

Mas isso não é uma alucinação inerente apenas a quem escreve. Para todos nós, não tem muita diferença um fato ser real ou não quando ele nos emociona. Esta fusão entre a realidade e a fantasia move os mesmos neurônios da emoção e é muito útil também até em campanhas de propaganda. Você estava ao lado de Armstrong quando ele pisou na Lua? Não estava mas sentiu a emoção que isto representava. Você estava presente em alguma das discussões teológicas de O Código Da Vinci? Não poderia estar mas também sentiu a emoção que aquelas descobertas representavam.

Qual a diferença concreta para você -para a sua emoção- entre o documentário da Nasa, o livro de Dan Brown e o filme? Nenhuma. Acho até que o fato imaginado é mais forte que o fato real, pois ele permanece. Ele segue sendo cada dia mais real. Se te pedirem para lembrar o sorriso de uma mulher certamente você lembrará da Mona Lisa. Se te pedirem um registro de Ipanema você lembrará da música de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Enquanto a realidade se esvai a cada segundo sendo substituída por outra realidade, o imaginário permanece e se imortaliza. A morte da pessoa mais próxima irá sendo lentamente apagada pelo tempo, enquanto a morte de Ratzo a caminho da Califórnia em Midnight Cowboy é perpétua. Assim a única realidade a que temos plenos direitos é a da imaginação.

(Por aí é que vão os textos e os apelos publicitários quando pretendem nos vender um apartamento. Eles fazem do consumidor o personagem central de um filme emocionante que se passa apenas na sua imaginação.)

A imaginação pontua a nossa vida, o nosso aprendizado; ela repete as nossas emoções até que um dia as entendamos completamente ou realizemos algo um pouco semelhante.

Dom Vito Corleone, Jack Bauer, Sargento Getúlio, Gabriela, Tereza Batista, o Capitão Rodrigo, o Primo Basílio, James Bond, Scarlet O'Hara, Dom Quixote e Sancho Pança, Elliot Ness, Aramis, Portus e D'Artagnan, Chita, Rin Tin Tin e até o Pato Donald, Pluto, Michey, Asterix e Obelix; existem. O Capitão Nemo, Robson Crosué, Odete Roitman, Mafalda, Valentina também.

A lista é infindável. Você sabe exatamente como eles são, o que fizeram ou ainda estão fazendo. Mas você lembra de todos os seus colegas do primeiro ano de escola? Os amigos da rua onde você morou quando era criança? Possivelmente não ou não muito. Eles já não são tão reais.

Assim como os amores deixam de ser reais com o tempo enquanto Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda permanecem. Romeu e Julieta atravessam séculos e até mesmo o Barão Von Trapp e Maria ainda existem. E você talvez nem lembre mais o nome da sua primeira namorada embora certamente lembre quem é namorada de Donald Duck.

Vemos muito por aí, escrito em adesivos colados em automóveis a frase Cristo É Real. Ela confirma a existência de uma religião montada sobre a pessoa de Cristo, que resiste há mais de dois mil anos e se tornou até medida de tempo para o planeta. Pois não existe qualquer registro histórico da existência de Cristo.

Faraós que viveram séculos antes estão registrados em documentos egípcios. Todos os césares estão mencionados em pergaminhos romanos. Sacerdotes maias e astecas possuem sua existência registrada em pedras. Sobre Cristo nem um único documento, nem uma única referência arqueológica, nenhuma prova. Até o lençol onde ele teria sido envolvido após a morte e que seria uma evidencia de sua existência foi descartado, pois tem pouco mais de 700 anos que foi confeccionado.

Cristo nasceu e morreu como personagem de uma história contada em um livro. O próprio livro -a Bíblia- é extremamente parcimonioso em relação à sua história. Não há a menor referencia concreta sobre sua vida, o que ele fez, onde estudou, o que aprendeu a fazer, onde morou, nada até os 30 anos quando surge já como líder de um grupo que andou pela Galiléia pregando idéias estranhas até que os romanos se cansaram daquela confusão e deu no que deu. Sempre segundo o livro.

Entretanto ele está aí até hoje, com direito inclusive a retrato falado. Será que existiu realmente ou foi um personagem criado por algum escritor anônimo? Ou por Pedro que precisava de algo imortal para sobre ele erguer uma crença? Não importa. Tenha existido ou não ele é real. Assim é que funciona a vida. Com base na imaginação e na arte, a única dimensão onde as coisas podem ser perfeitas e por isso mesmo, imortais.

A vida real inclui cadastro bancário, poupança, habite-se, prestações intermináveis, canos que estouram, IPTU, taxa de condomínio, vizinhos imprevisíveis, piscinas que soltam o revestimento, o carro de alguém sempre em sua vaga.

A vida real não tem charme, não tem trilha sonora, não tem grande angular, não tem flash back, não tem licença poética, às vezes não tem sequer crédito. A vida real é chata.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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