Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

VOCÊS QUEREM BACALHAU?

Talento e popularidade. Juntar estas duas coisas é indispensável para fazer sucesso junto a um grande público. Mas, se este grande público for a maioria dos brasileiros, aí a coisa muda um pouco de figura. Fica mais difícil para você, para mim, para muita gente. E mais fácil para uma enorme legião de celebridades instantâneas. Nada a fazer.


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Sem nenhuma dúvida -e acho que vocês concordam comigo- o cientista mais conhecido popularmente é Albert Einstein. Entretanto, se perguntarmos a qualquer pessoa que cite Einstein como cientista famoso o que foi que ele inventou ou descobriu, dificilmente esta pessoa saberá responder. A trajetória da luz em curva no vácuo ou a célebre equação E=mc2 na verdade não significam absolutamente nada para o nosso dia a dia. São coisas para interesse de outros cientistas.

Muito mais presentes em nossas vidas estão os pneus de borracha infláveis, inventados em 1885 por John Boyd Dunlop, para substituir as rodas de madeira das carroças, carruagens e principalmente bicicletas, anos antes que fosse criado o automóvel. E Dunlop nem era cientista, era veterinário.

A lâmpada incandescente que Thomas Alva Edison criou em 1879 continua até hoje iluminando nossas casas e em milhões delas, iluminando também o pôster de Einstein com a língua de fora. Além da lâmpada, Edison, que registrou mais de 1.000 patentes, inventou ou fez funcionar coisas que até hoje fazem parte do nosso cotidiano. Entre suas contribuições para o nosso conforto futuro, além da lâmpada estão o gramofone, o cinescópio -primeira máquina de filmar que funcionou de verdade- e o microfone de grânulos de carvão para o telefone, o que finalmente trouxe alguma utilidade à invenção de Graham Bell, na qual ninguém conseguia entender uma única palavra transmitida.

Você conhece algum poster de Dunlop montado numa bicicleta? Ou de Edison filmando a Estátua de Liberdade em 1869 quando chegou à New York para trabalhar como telegrafista? Não conhece nem eu conheço, porque não existem.

São pessoas de extraordinário talento, que contribuíram para que o mundo ficasse mais parecido com o que é hoje porém nunca saíram das páginas das enciclopédias para ter o rosto estampado numa camiseta. Mas Einstein, para toda essa gente que não faz a menor idéia do que é Física, muito menos a Física Quântica, é gênio.

Chegamos então à pergunta crucial: porque algumas pessoas tornam-se ídolos populares para sempre e outras não? Pelé não joga futebol há quase 40 anos e ainda é figura indispensável em qualquer evento esportivo mundial. E ninguém sabe mais quem é Rivelino, que em qualquer lugar do campo em que estivesse, botava a bola nos pés de Pelé, diante do gol.

John Kennedy continua sendo o presidente mais amado pelos cidadãos norte-americanos, que ainda hoje viajam até Dallas para ver a marca de uma das balas atiradas contra ele, preservada no asfalto. Já Abraham Lincoln se contenta em ser olhado nas notas de 5 dólares e na moeda de 1 centavo. Ou sentado lá em sua cadeira no Lincoln Memorial. Paulo Coelho é aclamado em centenas de países pelo mundo como pop star da literatura. Jorge Luiz Borges, fora da Argentina, não é conhecido por 99% das pessoas. João Cabral de Mello Neto não deve ser conhecido nem no sul do Brasil. Exemplos como estes podemos encontrar aos milhares. Porque Collor era popular e Itamar não? Porque Ivete enlouquece multidões e Nana Caymmi não? Porque Lula encantava as pessoas simples e FHC apenas os intelectuais?

Parece complicado, mas é simples. São dois os ingredientes que fazem uma pessoa ser ou não um "ídolo popular". Além de talento, é claro. Tem que ter algum talento, caso contrário apenas enganará poucos por algum tempo ou muitos por pouco tempo, como alguém já disse.

Em primeiro lugar vem a capacidade espontânea de se comunicar com o povo, as multidões. A empatia com as massas e não só com grupos. Afinal popularidade não significa ser conhecido por 50 ou 100 pessoas. Isto até eu sou e não quer dizer nada.

Popularidade é ser conhecido pelo grande público e para isso, tem que saber se comunicar com ele. Tem que enfrentar um Maracanã cheio e falar sem tremer, dançar sem tropeçar, cantar sem desafinar, ouvir vaia e sorrir e ainda ao final de tudo, correr para a arquibancada, mesmo que olhando pelo canto do olho para ver se a segurança vai junto. O ex-presidente João Figueiredo declarou preferir o cheiro de cavalos que o cheiro do povo. Hoje, ninguém sabe quem foi ele, talvez nem mesmo sabe se está vivo ou morto. Juscelino Kubitschek até agora é o presidente mais simpático que o Brasil já teve. Mas Juscelino dançava com artistas de Hollywood em visita ao Brasil, bebia café nas garrafas térmicas dos candangos em Brasília e tirava os sapatos numa entrevista com a imprensa. Naturalmente.

Itamar Franco inventou de ir ao sambódromo ver o Carnaval das escolas de samba e foi uma tristeza só. Sem falar do papel de bobo que fez ao lado daquela moça sem calcinhas e que a camiseta não conseguiu esconder a prova disso.

Em segundo lugar, vem a grande exposição. Mesmo que exista o talento, que a pessoa tenha a capacidade inata de se comunicar popularmente, nada adianta se ela ficar enclausurada em estúdios, bibliotecas, clubes, dentro de casa ou seja lá onde for. Milton Nascimento já dizia que o "artista tem que ir até aonde o povo está". E eu acho que ele próprio não conseguia fazer isso, ao menos fora das Gerais. É preciso estar em todos os lugares ao mesmo tempo, seja na Passarela do Samba, seja na passarela em Aparecida do Norte no dia 12 de outubro. Assim as pessoas conseguem se tornar sucesso de público. Pois exatamente a mesma coisa acontece com a comunicação. Tudo que é feito com talento, falando uma linguagem que o seu público entende e com grande exposição na mídia -o que nem sempre quer dizer toneladas de dinheiro em televisão- sempre será bem recebidas pelo público.

Infelizmente, se a comunicação direcionada à grande massa da população brasileira insistir em ser brilhante, com requintes criativos que exigem fino humor ou aguçado sentido de ironia, ela passará batida. Porque nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?

Este é um país em que quase todos gostam do riso fácil, da piada pronta, do deboche. Para “cair no gosto do povão” a comunicação no Brasil, precisa ser popularmente agradável. Portanto, considerando que a televisão é a única forma de lazer e informação que a imensa maioria dos brasileiros possui, podemos parar de exigir que ela seja erudita. Se todo este meu raciocínio não o convenceu, dê uma olha nos índices de audiência da Rede Cultura/TVE.

E só pra não esquecer: Einstein não perdia uma festa, adorava as artistas de Hollywood e andou quebrando asas para Marylin Monroe. Gênio.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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