Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

A MORAL JUDAICO-CRISTÃ

Muito antes que Moisés -segundo os livros "sagrados"- descesse do Monte Sinai com duas lajes de pedra onde estava escrito o que era certo e o que era errado, já existiam pessoas que não roubavam, não matavam, cuidavam e obedeciam pais e mães, sem que esssas coisas fossem consideradas mandamentos. Era um código de conduta espontâneo e por isso mesmo, inquebrável. Mas a evolução da civilização e consequentemente a mobilidade adquirida pela própria moral, os Estados precisaram criar artifícios para defender seus interesses e poder, sem bater de frente com os tais códigos. Mesmo que eles tenham sido criado a 10 mil anos atrás.


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Considera-se heroísmo morrer pela pátria e nunca matar pela pátria. Os Estados Unidos adoram espalhar pelo mundo fotos de urnas funerárias cobertas com a sua bandeira, descendo às dúzias daqueles aviões imensos. Até o Brasil tem um monumento niemeyriano no Rio de Janeiro, o Túmulo do Soldado Desconhecido, homenageando aqueles que morreram na Itália durante a II Guerra Mundial. Vale acrescentar que curiosamente em todo o mundo este tipo de monumento recebe o mesmo nome.

Entretanto dificilmente se encontra alguma homenagem ou monumento público aos que voltaram vivos depois de ter liquidado inimigos, exceto permitirem que eles marchem no dia Sete de Setembro abrindo os desfiles. Toda esta distorção -ou no mínimo parcialidade- deriva da moral judaico-cristã, na qual matar é pecado, ainda que em tempo de guerra. Morrer, não. Antes que estes códigos fossem estabelecidos e que Moisés descesse do Monte Sinai para explicar ao mundo o certo e o errado, herói era quem aniquilava mais inimigos.

Julio César, o imperador romano, era aclamado por seus extermínios durante a conquista de territórios estrangeiros. Na Gália, com 10 legiões e 30 mil soldados ele matou mais de 120 mil gauleses. Exceto Asterix e seus amigos, mas isso é outra história. Aquiles entrou para a história porque conseguia sozinho reduzir à pó exércitos inteiros, afundar navios e derrubar fortalezas com as mãos, desde que lhe deixasse em paz o calcanhar.

Depois que Roma converteu-se ao cristianismo tudo começou a mudar. Júlio II era considerado melhor guerreiro que Papa, mas foi um dos últimos "representantes de Deus na Terra" a empunhar uma espada, montar num cavalo e sair lutando por territórios romanos ameaçados. Daí pra frente matar tornou-se pouco louvável, mesmo que para ganhar uma guerra isso fosse -e continue sendo- obrigatório.

Com a modernidade, o culto aos mortos em batalhas cresceu mais ainda, como uma forma dos governos de desviar a atenção do verdadeiro painel dos conflitos, mostrando o quanto o inimigo é cruel e eles, não. E desviar um pouco o foco do código judaico-cristão. Quando um soldado apertou um botão e deixou cair uma bomba atômica sobre Hiroshima, dando praticamente por encerrada a II Guerra Mundial, seu nome foi apagado dos registros militares e o Presidente Trumann, que deu a ordem para apertar o botão, passou a ser olhado meio de lado.

Hoje, quase 70 anos depois, muçulmanos ainda se explodem por aí para matarem inimigos e terem acesso a sei lá quantas mil virgens no Paraíso. São heróis cultuados em seus países. Morrer tornou-se oficialmente, uma honra. Para a população, o Estado demonstra a sua “emoção” explicitando que o heroísmo está em morrer e não em matar, que é o objetivo real da ação. James Bond dificilmente concordaria com isso.

Acho que na história moderna, Hitler foi o único a entrar na contramão deste comportamento. O Marechal Goebbels vivia catando pelas zonas de combate um soldado que matasse muitos inimigos para fazer filmes de propaganda com ele, exibir pela Alemanha inteira e transformá-lo em herói. Como caçador de judeus -e por passatempo, de cristãos também- Hitler não teria porque respeitar os seus códigos e assim herói nazista era aquele que matava mais. Morrer em combate era vergonha.

A esta altura, os que ainda insistem em serem meus leitores devem estar querendo saber o que matar e morrer tem a ver com a comunicação. Tem a ver com distorções e desvios éticos e aí entra a mídia, a propaganda e a comunicação humana. Quando você vai a uma festa usando um belíssimo vestido De La Renta, emprestado por uma prima que tem muita grana, não há qualquer obrigação de anunciar aos presentes que o modelito não te pertence. Se alguém te perguntar “Pôxa, quanto custou este vestido?” você pode simplesmente dizer que não lembra ou dar um valor qualquer aproximado. Mas se alguém perguntar “Onde você comprou este vestido?” a coisa muda de figura. Pelos conceitos que conhecemos de ética, necessariamente v. deverá explicar que não comprou em lugar nenhum porque não é seu, é emprestado. Mas, para a moral judaico-cristã, sempre há uma saída. Você poderá responder “Este tipo de vestido a gente não compra, encomenda”. Ou seja, sua resposta não é uma mentira total, mas está muito longe da verdade que deveria ser.

A propaganda faz desvios semelhantes, escapando aqui e ali tanto do Procon quanto da ética. Quando você corre até uma loja para comprar um TV de plasma 51 polegadas por apenas R$ 4000,00 e ao chegar à loja ouve do vendedor “Que pena, acabamos de vender o último tem meia hora”. você não pode questionar a propaganda nem acionar o Procon. E como v. já está lá mesmo, que tal olhar aquele outro modelo “mais moderno e só um pouquinho mais caro?” A mídia segue o mesmo trilho. Em um jornal mineiro –por exemplo- a notícia “Ministro beneficia 64 prefeitos do seu partido” e a notícia “Ministro beneficia 64 cidades de Minas” falam sobre um mesmo fato, mas direcionam a opinião pública para lados opostos.

É a moral judaico-cristã, elaborada milhares de anos atrás e que hoje tenta sobreviver de meias mentiras, a depender da conveniência. E todos nós sabemos que duas meias mentiras não formam uma verdade. A mídia, assim como algumas instituições que compõem regimes democráticos republicanos, costuma utilizar estes artifícios com freqüência. Muitas vezes em parceria.

O problema é que depois de correr até estas lojas duas ou três vezes e sempre ouvir que o último foi vendido agora ou esperar várias horas por um prato de macarrão e quando restaurante já vai fechar, o maitre vem te dizer que não dá para sair o peixe que o senhor pediu, dificilmente alguém volta à loja ou ao restaurante.

Parece incrível que ainda existam pessoas -e empresas de comunicação- acreditando que este truque possa dar certo, mas existem. E a explicação para sua existência pode ser encontrada numa frase de Gandhi, tão genial quanto óbvia: “a mediocridade não consegue reconhecer nada além dela própria”.

Assim como a moça do vestido De La Renta não percebe que todo mundo no salão de festas sabe que aquele vestido não pode ser dela.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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