Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

ATENSSÃO AVIZOS

Ninguém espera de um país que ele ostente uma população inteira erudita e com total domínio da lingua local. Mas oferecer condições para que as pessoas possam ler e escrever corretamente é uma obrigação que qualquer Estado tem para com seus cidadãos. Como isto não acontece, a linguagem escrita vai sendo massacrada no privado e -o que é muito pior- em público. As redes sociais são um manancial de erros mas o que me diverte mesmo são as placas com avisos que encontramos por aí. Será que alguém para expor um aviso estampado numa placa não deveria consultar quem sabe escrever um pouco melhor que ele?


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Estamos cansados de saber que a Educação é a grande vulnerabilidade brasileira e que ocupamos lugares pouco privilegiados num ranking que em si, já é uma vergonha. A deficiência no aprendizado a partir do "ler e escrever" se reflete em todas as áreas da atividade humana, porém fica mais visível na comunicação, principalmente nas mídias de massa e em informações espalhadas pelas cidades. Estas derrapadas estão por toda parte, sem qualquer culpa, na placa toscamente pintada onde se lê "Lanchonete Dois Irmões" ou sem nenhum pudor na manchete de um jornal.

Eu me divirto e fico triste com o que vejo por aí. A diversão fica por conta de imaginar algumas cenas, caso as informações fossem seguidas ao pé da letra; enquanto a tristeza vem por saber que o pouco conhecimento da nossa própria língua é algo praticamente irreversível.

Você já viu algum ônibus sendo seguido por um carro com cinegrafistas que registram o seu deslocamento? Pois deveria ter visto, já que em dezenas deles está lá a placa informando: "Este ônibus está sendo filmado". Mas nem você, nem eu, nem ninguém nunca viu nem verá o carro com o tal cinegrafista, pois o que a placa quer dizer é que "o interior" do ônibus possui câmeras que registram a movimentação de passageiros, para facilitar a identificação de possíveis assaltantes. Não é o ônibus que está sendo filmado e sim quem está dentro dele. Mas a placa está lá assim mesmo e o ônibus segue seu itinerário sem qualquer problema.

Uma tradicional casa funerária desta minha cidade, em gigantesca placa na porta do local onde funciona, anuncia: Jardim da Saudade - Campo Santo - Viagens para o Interior. Entendemos logo que ela realiza serviços funerários nestes dois cemitérios e também faz turismo no interior do estado.

Agência funerária fazendo viagens de turismo? Não pode ser. Então eles estão dizendo que consideram a morte um retorno ao próprio íntimo, ao "eu" fundamental, à energia da qual surgimos e tomamos esta forma descartável; o que é uma abordagem filosófica muito sofisticada para o final desse negócio que chamamos vida. Algo que os egípcios já chamavam de A Grande Viagem ou Travessia do Grande Rio. Mas isso não é o que a empresa ou seus proprietários pensam sobre morrer.

Na verdade a "Viagem para o Interior" significa que eles fazem o serviço de traslado de corpos em urnas mortuárias da capital para cidades do interior, além de provavelmente prestarem outros serviços que fazem parte do ritual. Seja como Deus quiser. Por falar em interior, em diversas estradas que cortam o nosso território brasileiro, podemos encontrar placas de sinalização avisando "Ondulação Transversal a 200 m". Não há nada de errado na informação, mas para quem não tem intimidade com estradas, dirigindo a 100 km por hora, até entender o que significa aquilo, já passou -literalmente- voando sobre um obstáculo redutor de velocidade que o país inteiro chama de “quebra-molas”. Além de precisar de segundos fundamentais para entender aquilo, normalmente as "ondulações transversais" não possuem mais qualquer vestígio de tinta que possa alertar os motoristas sobre a sua presença em plena estrada. O vôo é líquido e certo. Querer ser "erudito" numa informação que exige compreensão rápida não é cometer um erro de linguagem, mas é outra forma de desconhecer o coloquial e seu uso correto. Um aviso é para ser entendido sem deixar dúvidas ou exigir raciocínio. Se não estourou nenhum pneu ou quebrou alguma mola, vamos em frente.

Os postos de gasolina da cidade (alguns deles) exibem verdadeiros painéis de avisos sobre o que é permitido ou não naqueles locais. Desde o surreal pedido para que desliguemos os celulares durante o abastecimento até o curioso "Proibido som alto". Acho curioso porque sempre que leio esta plaquinha me vem à mente a imagem de um alto-falante espetado bem no alto de um poste, como nos antigos parques de diversões, coisa que alí não seria permitido. Pela minha leitura, o som tem que estar bem baixinho, de preferência no chão. Sei que eles estão querendo dizer que é proibido o "som em alto volume", em nível alto dos aparelhos de som, mas me divirto assim mesmo.

Um dos mais antigos e dos que eu mais gosto, pois sempre renovo a imagem que me vem à mente cada vez que o vejo, é o clássico "Proibida a entrada de pessoas estranhas". Lendo este tradicional aviso já imaginei como pessoas "estranhas" desde algumas possuidoras de quatro orelhas até outras de olhar sinistro, aparência vampiresca e que sempre surgem ao por do sol. Sem que faltem evidentemente os ET’s em suas mais diversas configurações. Mas estas seriam pessoas "esquisitas" e não simplesmente estranhas -ou desconhecidas- no local.

Os exemplos são intermináveis e estão espalhados por todos os lugares, não apenas nas plaquinhas espetadas nos produtos em feiras livres, onde a falta de intimidade com a educação formal é até esperada, mas também em recepções de luxuosas clínicas ou vitrines de lojas de griffe em shoppings da cidade.

A propaganda também contribui muito para o linchamento da língua portuguesa, seja em erros ortográficos, em títulos absurdos ou textos incompreensíveis, mas é melhor não citar exemplos, pois acabaria cometendo alguma injustiça. Na verdade até que alguma coisa melhorou. O habitual "entrega a domicílio" praticamente desapareceu, dando lugar ao correto "entrega em domicílio".

Outras ficaram definitivamente incorporadas à linguagem e nem se percebe mais a sua incorreção. O pagamento de compras "no cartão" é um destes exemplos. Como os pagamentos sempre foram feitos "em" dinheiro ou cheque (ou ainda "com" dinheiro ou cheque) quando entraram em cena os cartões de crédito deve ter acontecido um acordo popular para que fosse considerado o pagamento através deste novo instrumento como feitos "no" cartão. Aí eu vejo a imagem da dívida -e não do pagamento- sendo enfiada alí naquela espécie de gaveta retangular de plástico, ficando assim guardadinha "no" cartão, até o momento em que deverá ser honrada "com" dinheiro ou cheque.

Deve ser por essas coisas que minha mulher me acha um sujeito muito chato.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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