Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

Uma bela noite para voar

Em certos momentos eu sinto que estamos transformando nossas cabeças em HD's orgânicas onde criamos pastas temáticas para ir enfiando dezenas de milhares de informações recebidas diariamente e que pouca serventia possuem para as nossas emoções mais autênticas. Deixamos em nossos conscientes alguns "links" como palavras, imagens ou expressões para que, se deles precisarmos, nos remetam àquilo que está armazenado. E vivemos com pouca ou quase nenhuma conversa. Pior ainda: raras emoções.


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Todo escritor, cronista ou colunista um dia já enfrentou o momento desesperador de escrever uma matéria sobre a falta de assunto para escrever. E assim abatido diante de página -antigamente- e da tela em branco, ele sai digitando letras, palavras, na esperança de que dali surja por encanto algum, um só, mesmo pouco expressivo, assunto. Não é o meu caso nesta noite, aviso logo. Quero conversar exatamente sobre o contrário: o excesso de assuntos e suas conseqüências sobre a comunicação quer seja através das mídias, ou pessoal.

Eu fico em média 12 horas diante do computador. Enquanto executo minhas tarefas profissionais, dois endereços de e-mail estão ativos, o twitter aberto e o smartphone ligado. Por aí chegam notícias e links para a informação detalhada, minuto por minuto.

Desde um incêndio nas matas em L.A. que resolveu infernizar a vida dos pilotos e passageiros de aviões, até a mais uma ruidosa manifestação feita por belas jovens na Bósnia, protestando contra alguma coisa, todas mais uma vez totalmente nuas ou quase isso. As informações passam também pelo lanche que a minha amiga Srta. Castro está fazendo em Feira de Santana ou em que lugar de São Paulo José Serra está palestrando. Ou seja, recebo diariamente milhares de informações sobre os mais impensáveis temas. Claro que meus filtros cerebrais se incumbem de reter apenas uma parte delas, obedecendo a critérios de importância pré-estabelecidos como relevantes ou registrados naquele instante como merecedores de atenção para alguma utilização futura.

Assim como eu, acredito que centenas de milhares de pessoas (e estou falando apenas de Salvador) passem os seus dias da mesma maneira: diante de um desfile ininterrupto de informações ou sendo perseguidos por elas, não só nos meios digitais mas também no meios convencionais de informação. Aí chegamos a casa após mais um dia de trabalho, reunimos a família e qual o assunto para uma conversa à mesa de jantar? Nenhum. Uma ou outra pequena novidade acontecida no dia de cada um, um comentário qualquer sobre uma notícia da qual todos já têm conhecimento e acabou. Finda a refeição, um volta para o computador, outro vai para a televisão, mais um coloca um filme no DVD e por último alguém resolve ouvir seu MP4 com os fones isolando-o do mundo.

Para onde foi toda a carga de informações recebida ao longo do dia? Cada qual arquiva uma coisinha, uma referência tênue de algo que o interessou e esquece. Chegue numa praia ou entre num restaurante e você verá a mesma situação. Pessoas em silêncio ou no máximo dialogando sobre o que está acontecendo no momento, à sua volta. Todos os temas relevantes locais, nacionais e internacionais que bombardearam a nossa mente ao longo do dia ou da semana estão arquivados em algum lugar do nosso cérebro e de lá só sairão quando surgir uma necessidade específica.

Aos poucos estamos transformando nossas cabeças em HD's onde criamos pastas temáticas para ir enfiando milhares de informações. Deixamos em nossos conscientes alguns "links" como palavras, imagens ou expressões para que quando precisarmos, nos remetam àquilo que está armazenado. E vivemos com pouca ou quase nenhuma conversa. Evidentemente esta situação está um pouco exagerada, para forçar a que pensemos no fato dela realmente existir. Ao mesmo tempo, é certo que a transformação do cérebro em HD orgânica acontece na freqüência inversa ao volume de informação a que cada cidadão é exposto.

Assim, vá à noite ou num fim de semana, a um bairro da periferia desta cidade ou de qualquer outra, onde a banda larga, o wi-fi, o bluetooth e o twitter ainda não são tão essenciais à vida quanto o ar e a água e você encontrará grupos enormes em dezenas de esquinas, todos discutindo ruidosamente sabe-se lá o que.

Pode ser desde a derrota ou vitória no dominó, que aconteceu há mais de uma semana, a eterna briga para saber qual é o melhor time de futebol, até mesmo quem está namorando a morena gostosa da casa 4 porque agora ela só vive com roupa de griffe e sandália cor de rosa da Giselle, além do que já viram ela descendo na outra esquina, tarde da noite, de um carro novinho. E quem viu jura que ela estava com a blusa vestida pelo avesso.

É lógico. Quanto menos informações nós temos para processar em nossas HD's orgânicas, mais espaço sobra para o bate-papo, as piadas, a gozação, a conversa jogada fora e o cuidar da vida dos outros. Se no seu condomínio faz-se silêncio absoluto antes das 21h é porque todos estão na internet ou diante da TV de plasma, acordados até as primeiras horas do outro dia. Na periferia as gargalhadas e às vezes o som alto reinam até às 22h porque às 22h e 5 min todos estão dormindo pesado.

O dia seguinte começa cedo.

A comunicação humana direta, este formato antigo de troca de informação que exige olho no olho, falar alto, pegar no braço do outro pra ter atenção, empurrar alguém pra ficar no centro da conversa e no fim sair todo mundo abraçado, só sobrevive em HD's que não estão totalmente preenchidas e até apelando para pen drives no sentido de armazenar informações que mais dia menos dia, se revelarão inúteis, pois a velocidade de renovação de tudo isso é muito maior que a nossa capacidade de atualização e back up de nossos pensamentos.

Tenho um filme em DVD (no momento meu motor de busca não encontra o nome) em que na abertura são mostradas cenas gravadas em aeroportos enquanto a voz do narrador e herói da história nos diz que sempre ao sentir necessidade de ver emoção humana expressa sem barreiras, ele vai até um aeroporto e fica observando quem chega e quem parte. Aí ele vê abraços, beijos, lágrimas, mãos que hesitam em se desentrelaçar. Perninhas curtas correndo em direção a pernas trêmulas que acabaram de descer as escadas de um jato, velhinhos sendo soterrados por abraços e beijos. Homens e mulheres que se amam com o olhar. Depois de algum tempo ele vai embora, com a certeza de que a emoção humana não morreu.

Também não morreu como forma de comunicação. Ela apenas precisa da distância, da ausência para emergir entre megabites e milhares de links e reinar soberana, sem concorrência, ao menos por alguns instantes. A emoção como componente da comunicação humana está viva e isto se aplica às mídias de massa. O que precisamos é criar em nossas mentes portões de embarque e desembarque emocionais para que ela possa se manifestar, enquanto deixamos os aviões que não levam nem trazem nada que nos diz respeito diretamente, voarem para bem longe de nós.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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