Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

O ETERNO MOVIMENTO DOS BARCOS

Creio não lembrar de nada que seja imutável. Nem mesmo na matemática, tão pretenciosamente exata e que vai buscar a teoria dos equilíbrios não-cooperativos, conhecida como o Equilíbrio de Nash. Ela quer encontrar a lógica no movimento de uma dúzia de pombos que circulam pelo chão em busca da sua migalha preferida de pão. Os pombos certamente dariam boas risadas se soubessem que há alguém tentando seriamente encontrar esta lógica e este equilíbrio. Buscar o meu próprio equilíbrio já me parece uma insensatez, pois o padrão referencial para este pretendido equilíbrio nunca está no mesmo lugar. Ainda bem.

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Surpreende-me a lucidez de certas pessoas diante do que as cerca. Não concordo com algumas das suas verdades, mas respeito profundamente o fato delas serem tão definidas e principalmente autenticas, embora passageiras. Não passageiras em função do tempo vivido nem do tempo por viver, mas porque é da natureza de quem se ocupa com a mecânica da vida ser dinâmico; já que ela própria, a vida, assim o é.

A certeza de hoje será a dúvida de amanhã ou talvez o contrário.Considerações sobre o bem e o mal, Borges, igualdade, conhecimento, sabedoria e outras coisas deste pântano que é o pensamento; me parece bom motivo para abrir debates imaginários.

Discordar de Borges, das Escrituras, das letras de John Lennon da utilidade das pirâmides ou de qualquer outra coisa considerada definitiva, não é audácia. Certas pessoas buscam se ajustar ao mundo; outras procuram ajustar o mundo a sí. Portanto, deve-se às segundas qualquer progresso que acontece; caso contrário o mundo permaneceria inalterado indefinidamente. Concordamos portanto em discordar.

Deixemos de lado o céu e o inferno de Borges, já que todo mundo desenvolveu aquilo que chama de modo de ver e sentir o mundo em cima da vida concreta, real; enquanto Borges sobrevoava o terreno do desconhecido, do pós-morte e a visão católica de premio e castigo. Para muita gente a visão do mundo me parece exatamente o que ela própria é: ingênua, romântica e sonhadora. Nada mais belo entretanto que a ingenuidade, o romantismo e o sonho.

Discordamos a partir da possibilidade que se levanta, do bem e do mal serem faces de uma só moeda, na qual a cultura ocidental é o metal que as separa. Não falo do bem que existe em mim quando ajudo uma velhinha a atravessar a rua ou do mal que existe, também em mim, quando troco as etiquetas de preço no supermercado. Falo do Bem e do Mal maiúsculos. Não consigo ver Ghandi exterminando ingleses em câmaras de gás, nem consigo ver Hitler dando abrigo a refugiados cubanos. Menos ainda, consigo vê-los sentados à mesma mesa, sequer para uma partida de gamão.

O essencialmente bom e o essencialmente mau trilham caminhos diferentes em direções diferentes. Estão separados não por uma cultura ocidental, oriental (onde bem e mal também existem e o mau é punido impiedosamente), mediterrânea ou polar: estão separados naturalmente. Eles são anteriores às culturas e não o contrário.

Antes que Moisés descesse do Monte Sinai para informar à humanidade que matar é pecado, alguns homens matavam e outros não. Depois que ele fez a sua performance, com aquelas pedras gravadas, raios, trovões e tudo mais; nada mudou. Bem e Mal continuaram existindo espontaneamente e incompatíveis. São moedas diferentes.

Não dá para cambiar 6 Maus por 1,5 Bom ou 3 Bons por 12 Maus.

Entendo porém, que mesmo vendo as coisas desta forma, surgem duas perguntas fundamentais.

A primeira é: há que se conviver com as duas moedas por sermos simplesmente seres humanos? A segunda é: há que se punir os maus e premiar os bons?

Para mim, ambas as respostas são um audacioso não. A convivência entre o bem e o mal plenos, é desnecessária e naturalmente inviável. São dois anjos de uma asa só, abraçados; mas cada um voando para um lado. Quanto à premiar ou punir, é incoerente e inútil; pois usamos um código para avaliar outro completamente diferente. Cada qual encontra sozinho e a seu modo, aquilo que considera ele próprio, o premio ou a punição. À menos que os seguidores da ética dos monges avaliassem apenas os monges, enquanto os que seguem a ética dos piratas avaliassem apenas os piratas. O que os levaria, involuntariamente, de volta a Borges. Que inclusive tem uma imagem muito bonita para descrever a natureza humana. Ele diz que ela é como um pássaro de quatro asas, que voa simultaneamente para o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste.

Sei que esta questão é inesgotável, por isso quero encerrar a discussão.

Sou hoje uma pessoa em formação. Avaliando ainda a mim mesmo. Jogando coisas fora e tentando por novas em andamento. Não estou pessimista, não estou amargo, não estou cruel. Estou me reestruturando. Levo a vantagem da experiência adquirida e a desvantagem da perplexidade tardia.

Cometi grandes enganos neste tempo e tive que identificá-los e me recuperar deles rapidamente. Quanto às minhas certezas, são barco e velas que mudam de rumo em meio à travessia. Navegar é impreciso, corrigir bruscamente a rota às vezes indispensável, mas é inquietante. Se a palavra não me fizer gente, que ao menos a vida, as marés e suas surpresas o façam. Mas, decididamente, não deixarei meus navios atracados no porto.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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