Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

Ser criativo é estar vivo

O que é e o que não é criativo? Quem é criativo? Quando se pensa em comunicação, publicidade, jornalismo, artes gráficas etc. imediatamente vem à cabeça das pessoas a imagem de um grupo de gente "muito criativa" gerando idéias surpreendentes. Mas a criatividade é algo inerente à capacidade humana, estando presente e ativa em todas as pessoas. Em algumas, mais utilizada que em outras, admito, mas sempre está. Parece-me ser a criatividade a característica humana mais democrática que existe, pois não depende de educação formal, de capacitação acadêmica ou cultural. Ela simplesmente está aí.


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A linguagem escrita, talvez a maior criação humana, surgiu evidentemente antes que existissem livros com tratados, estudos e exemplos de criatividade. Claro que algumas atividades acabam por exigir determinadas "especializações" criativas, mas a criatividade em "estado bruto" está presente em todas as pessoas, desde o seu nascimento. Podemos apresentar inúmeros exemplos aleatórios de criatividade, pinçados de diversos períodos e áreas da atividade humana, tentando mostrar formas diferentes de ser criativo.

Um excelente exemplo é o Band-Aid. Ele é criativo por reunir numa única peça elementos antes dispersos e indispensáveis a um curativo. Em lugar de um frasco com o anti-séptico, um rolo de esparadrapo e uma tira de gaze -além de uma tesoura e habilidade para manusear tudo isso- um simples objeto portátil. Assim, agrupar componentes diversos criando um único é uma forma de ser criativo.

Confirmando que criatividade não é algo destinado a uns poucos iluminados, vale registrar que o Band-Aid não foi desenvolvido por grupos de estudos, laboratórios de pesquisa ou cientistas, mas criado por uma comum dona de casa norte-americana. A referida senhora sofria de uma doença incomum, que deixava sua pele extremamente sensível. Um simples contato mais brusco com uma aresta qualquer provocava ferimento e sangramento. Como precaução para conviver com isso, ela deixava preparadas numa gaveta, tiras de esparadrapo com pequenas "almofadas" de tecido grudadas. Quando se feria, simplesmente umedecia com o anti-séptico e aplicava no local. Uma vizinha que trabalhava na Johnson's achou aquilo uma boa idéia e decidiu mostrar o "sistema" a algumas pessoas da empresa, lá pelos anos 30/40. O resto a gente está cansado de saber: desenvolvimento industrial e uso em escala mundial até hoje.

Entrando no escorregadio terreno do comportamento humano, encontramos um exemplo definitivo de criatividade que remonta à nossa pré-história, antes mesmo de sabermos ao certo porque era dia ou noite. Criativo foi o primeiro macaco que decidiu fazer sexo frontal, ao contrário do hábito corrente nas cavernas e nas estepes da África, onde se acessava as fêmeas por trás e aleatoriamente. Ao copular uma delas de frente aquele macaco disparou todo um processo de transformação social. Na nova posição ele identificava a sua parceira e se tudo corresse bem, ela passava a ser uma preferida, olho no olho. Com isso surgia a semente da parceria e fidelidade, em seguida a da família com todas as suas implicações. Cuidar do filhote deixava de ser uma tarefa apenas da mãe, do grupo ou de ninguém. O pai tornava-se co-responsável pelo núcleo que formara. Ou seja, inverter comportamentos tradicionais é criativo.

Se agrupar componentes diferentes para obter um instrumento único e eficiente é criativo; se inverter comportamentos tradicionais é criativo; simplesmente deixar as coisas como estão, também pode ser criativo.

Um exemplo inquestionável é o penteado black power apresentado ao mundo pelos negros americanos lá pelas décadas 60/70. O black power nada mais é que deixar os cabelos como eles realmente são, sem forçar a semelhança com outros padrões.

Outro exemplo de "deixar como está" é a bicicleta. Desde que ela foi inventada só teve dois aperfeiçoamentos para chegar ao que é hoje: os pneus, acrescentados por Dunlop (que por falar nisso era veterinário) em 1887 e os freios, inventados em 1925.

Quando algo tem um conceito inicial brilhante, daí pra frente a criatividade está em reconhecer isso e não mexer muito.

Quem foi mais criativo: o inventor do xadrez ou o do basquete? O xadrez foi criado por um grupo de sábios persas para satisfazer os desejos de um monarca entediado. Simulou-se o cenário de uma guerra -praticamente o cotidiano daquele tempo e região- com seus principais elementos, movimentos distintos e regras rígidas para um jogo disputado num tabuleiro com 68 casas. É criativo e permanece até hoje tal como foi criado.

Já o basquete surgiu como solução de um problema momentâneo. Em um dia qualquer de 1891, James Naismith, professor de Educação Física da Associação Cristã de Moços de Springfield-EUA, viu-se dentro de uma sala com uma bola de futebol na mão, uns 30 alunos ansiosos para jogar e uma terrível tempestade lá fora. Ele simplesmente pegou duas cestas de lixo, arrancou os fundos, pendurou-as em paredes opostas da sala e começou o jogo das cestas; basket em inglês. É criativo e permanece até hoje quase tal como foi criado. Mas que é surpreendente, isso é.

A modernidade existe mais graças à criatividade como uma atitude que aos criativos profissionais. Henry Ford, Einstein, Santos Dumont, The Beatles, João Gilberto, o movimento hippie, Paris 68, Bill Gates e outros que ficaram anônimos, como a dona de casa soviética que inventou o strogonoff (ela só tinha leite azedo, carne e cogumelos em casa quando precisou cozinhar algo para o Príncipe Strogonoff surpreendido em viagem por uma nevasca) criaram exemplos de inversão de métodos, conceitos e sistemas que transformaram a sociedade.

São criativos macacos contemporâneos. Como qualquer um de nós, a qualquer instante, pode ser.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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