Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

Claire Forlani, Santos Dumont e Jósi.

Somos historicamente mais afeitos aos salamaleques que ao trabalho e à seriedade dos projetos. Praia, samba, uma roda de gente bamba e estamos conversados.


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Enquanto Santos Dumont realizava elegantes “giros” em torno da Torre Eiffel com o 14 Bis e a Demoiselle, para deleite da elite francesa; os irmãos Wrigth negociavam com o governo norte-americano a cooperação para tornar os seus protótipos comercialmente viáveis.

Vinicius de Moraes afirmou ser a companhia de um paulista o pior tipo de solidão e tempos depois declarou ser São Paulo o túmulo do samba. Ou seja, somos historicamente mais afeitos aos salamaleques que ao trabalho e à seriedade dos projetos. Praia, samba, uma roda de gente bamba e estamos conversados.

Hoje, os EEUU e a França fabricam 99% dos aviões que sobem e descem por aí, São Paulo segue definindo o PIB brasileiro. É certo que temos o Legacy e o 195 voando também e que o Rio de Janeiro continua lindo, mas estamos longe de sermos um país sério como disse e desdisse o Marechal De Gaulle.

Há alguns anos atrás, eu prosseguiria este artigo em tons apocalípticos, condenando o Brasil e todos seus habitantes -comigo junto- a patinar eternamente em solo escorregadio. Como já não sou tão jovem para achar que estou sempre certo, me pergunto se isto -a brasilidade- é tão ruim assim. Ou melhor formulando a dúvida, será que é bom ser tão sério como os outros assim?

Os próprios aviões, a modernidade, a informática, a globalização; trouxeram o mundo para nossas varandas e o que chegou não foi lá essas brastemps.

Claro que engatinhamos no social, arranhando os joelhos em todas as injustiças pontiagudas espalhadas por nosso caminho; temos muito que aprender com outras nações mais sérias e que nossas estradas são as piores do mundo, mas levamos vantagem em algumas coisas.

Sujeira no ventilador nós já percebemos que todos eles tem. Malucos praticando eutanásia por conta própria, delinqüência juvenil, corrupção, gandaia com o dinheiro público, conchavos políticos, preconceitos e injustiças são produtos multinacionais. Praticados com maior ou menor seriedade, dependendo dos fusos horários, da Bolsa de Tókio e do próximo filme do Spielberg. Ou seja, estamos todos no mesmo barco.

Aí eu fico observando as hordas de turistas estrangeiros que invadem a Praia do Forte e juro que nunca vi gente mais sem graça. Com raras exceções, assim mesmo entre alguns poucos italianos e espanhóis. Homens e mulheres sem qualquer vestígio de alegria ou descontração, enfiados em roupas absolutamente ridículas, vendo tudo pela lente de suas filmadoras e celulares; distantes e dispersos.

Gente que passa de um lado para o outro sem qualquer tentativa de matar a visível curiosidade, sem trocar uma palavra com os nativos, sem a menor intimidade com o balanço moreno e o sorriso escancarado. Gente que consegue passar horas a fio sentada na mesa da calçada de um botequim, como se estivesse num café da Champs Elisèes, esperando Claire Forlani passar.

Mas quem passa é Jósi, Ró, Tonha, Sil, Cacau, Ninha e tantas outras, para deleite dos próprios nativos que jamais cansam de cantá-las ruidosamente e dos turistas domésticos, que prendem a respiração até as bundas morenas desaparecerem no horizonte da Alameda do Sol (insisto em seguir chamando-a assim), para então soltá-la com suspiros, assovios e gemidos diversos.

Os representantes das nações visitantes se limitam a olhá-las como algo exótico, enquanto La Forlani não vem. Não há neles o menor sinal de disponibilidade para o novo, o diferente. Não há neles o mínimo traço de alegria, de satisfação por estarem participando de algo inesperado. Não há a menor possibilidade de acontecer uma polca às margens da lagoa, como pode acontecer uma roda de samba às margens do Sena.

Ora, se problemas temos, tanto nós quanto eles, independente da maior ou menor seriedade de princípios; parece-me que sofremos menos quando nos permitimos a descontração e a gandaia.

Muitos podem alegar que levamos tudo isso além dos limites da responsabilidade, o que não é mentira, mas sabemos também que nossos maiores dissabores não nascem do carnaval, do futebol, da praia ou do morro.Eles surgem de planaltos e palácios luxuosos.

Assim, para minha própria surpresa, percebo que começo a rever minhas posições críticas, passo a ver o comportamento típico brasileiro como uma leve vantagem para nós, neste século ainda incipiente e quem sabe, derradeiro.

Não sei se por isto mesmo, se pela idade que nos empurra a todos para uma maior aceitação ou se pelo andar de Jósi.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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