Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

Macromelancolia

Por certo já vimos inúmeras obras de arte, sejam elas as chamadas artes nobres ou mesmo aquelas de alcance mais horizontal, focando a melancolia, a tragédia da impotência humana diante da crueldade da vida, das feridas e dores que ela tão habilmente espalha. Mas certamente nenhuma delas tão marcantemente gigantescas quanto o trabalho de Ron Mueck.


Imagem1.jpgAs poucas pessoas que arriscaram ler o que aqui eventualmente publico sabem que normalmente exponho opiniões ou vivências relacionadas ao cotidiano, aos sentimentos, à minha curiosidade pelo social e pelo behaviorismo. Hesito me aventurar a apresentar e tecer comentários sobre obras de arte ou expressões da sensibilidade humana fora da minha especialidade que é a comunicação de massa. Opinar sobre aquilo que não se domina é manifestar apenas -e nada além- preferências pessoais, coisa que não me parece merecedora de um espaço público.

Entretanto ouso quebrar esta regra particular (transgressões eventuais e inofensivas são necessárias ao equilíbrio) diante da minha admiração e perplexidade com o trabalho de Ron Mueck, artista australiano residente na Inglaterra. Talvez me sinta um pouco mais à vontade por saber que Mueck criou uma empresa em Londres na qual trabalhava suas esculturas para o negócio da propaganda, antes de tornar-se um artista consagrado.

Suas obras são impressionantemente realistas e apenas pelas enormes dimensões escapam ao vexame de serem confundidas com seres humanos.

Mas o que me leva a escrever este artigo não são as informações sobre Mueck e o seu trabalho. Isto está disponível na Wikipédia e em diversos sites internet a fora. O que a mim impressiona no trabalho de Mueck é a imensidão da melancolia que ele transmite.

As pessoas em suas esculturas estão sempre estáticas, assustadas, como surpreendidas e paralisadas por algo extremamente chocante, ou pior ainda, inertes, com o olhar distante de quem se rendeu à tristeza e à dor.

Nenhuma delas possui a dignidade que Michelangelo impunha a suas esculturas, até mesmo na Pietà, quando os personagens do maior drama da religião cristã, mesmo na morte e cara a cara com ela, imersos na dor, ainda assim preservam certa altivez. Mueck retrata a desistência, o aniquilamento diante de algo que está dentro de cada um e em torno de todos; e esta é a identidade contemporânea. A imobilidade humana diante da realidade opressiva.

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A beleza também não é inerente à obra de Mueck como foi à do novamente lembrado Michelangelo. Seus personagem são gente comum e pouco atraente. Nenhum Apollo. Apenas pessoas marcadas e marcantes, como acontece àqueles que sentiram na alma e perversidade da vida.

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Por certo já vimos inúmeras obras de arte, sejam elas as chamadas artes nobres ou mesmo aquelas de alcance mais horizontal, focando este mesmo tema, este mesmo sentimento, estas mesmas dores. Mas certamente nenhuma delas tão marcantemente gigantescas quanto o trabalho de Mueck.

Olhando seu trabalho nos sentimos pequenos, nem tanto pelas dimensões das esculturas, mas pela identificação da nossa impotência diante do que nos cerca e cerceia a felicidade.

Frente a suas esculturas percebemos a nossa insignificância, não diante do universo, pois deste somos parte integrante, mas sim diante de nós mesmos. Um espelho cruel colocado em frente e acima de cada observador.

O frio mármore, nas mãos de Michelangelo, era mais otimista.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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