Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

Absurdíssimo

Santos Fernando foi um daqueles casos corriqueiros dos gênios pouco conhecidos e aos quais o panteão da eternidade não abre as portas. Existem milhares de gênios assim, sempre vivendo próximo a nós e não há uma explicação lógica para que jamais alcancem a fama e o sucesso merecidos.


O primeiro texto de Santos Fernando que conheci foi publicado no jornal O Pasquim, semanário criado no Rio de Janeiro pelos maiores humoristas brasileiros de todos os tempos e alguns dos mais respeitados escritores, uma turma essencialmente carioca, irreverente, mordaz e brilhante como o sol de Ipanema que eles tanto apreciavam ver, desde que de dentro de um bar.

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“Intelectual não vai à praia, intelectual bebe”, proclamava Millôr Fernandes, numa espécie de mantra etílico. Vinicius de Moraes já havia declarado algum tempo antes que “o uisque é o melhor amigo do homem; o uísque é o cachorro engarrafado”. E assim pensavam eles e viviam a vida e destroçavam com ironia cortante tudo que lhes desse vontade. Escorria lentamente a década de 60 no Brasil, levando em seu leito lamacento a ditadura militar instalada em 1964 e alvo maior de todas as edições de O Pasquim.

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Santos Fernando entretanto, estava além, muito além da ironia: era um escritor de raro talento e isso ficou evidente para seu universo de leitores deste lado de cá do Atlântico em 1975 quando ele lançou (no Brasil), através da Codecri, editora que publicava o semanário, seu livro “A Sopa dos Ricos”.

O escritor português nasceu em 1925 e era autodidata em literatura. Cursou em Lisboa a Escola Comercial e com apenas 22 anos jornais da capital portuguesa publicavam com freqüência artigos de sua autoria. A vocação de romancista surgiu em 1957, com o livro "A, ante, após, até". Em 1959 saiu "Seis gramas de paraíso" e "A bolsa do canguru" em 1961. A fértil produção continua: 1962, "Areia nos olhos"; 1963, "Os cotovelos de Vênus". O ano de 1964 registra o lançamento de um dos seus livros mais vendidos e dos mais importantes: "Tempo de roubar''. Santos Fernando descreve a aventura de dois ladrões que roubam a casa do chefe nacional de polícia e ao se darem conta disso despacham uma falsa ordem de libertação de todos os presos do país, criando o verdadeiro caos.

Em "Consolação n.° 3" lançado em 1968 Santos Fernando praticamente define o seu estilo literário com a exploração do absurdo, do non sense e do humor negro.

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"A sopa dos ricos" saiu em 1970 e é a consagração dessa escolha.

Santos Fernando transforma a situação de fome e miséria numa atração turística vendida aos muito ricos que pagam fortunas para dormir no chão e ter como alimento apenas uma sopa rala por dia, experimentando assim, sem qualquer risco, a sensação de ser pobre.

É magnífico.

Mesmo mantendo lugar de honra no Pasquim e entre a elite do humor brasileiro, Santos Fernando passou a ser respeitado como um escritor dono de uma visão crítica afiadíssima e que chegou até ela através da sutileza, da ironia e -finalmente- do humor.

Após isto Santos Fernando lançou ainda em 1972 o excelente livro de contos "Absurdíssimo" e "A árvore dos sexos" em 1973. Santos Fernando criou também o argumento e trabalhou o roteiro do filme português "Pão, amor e totobola". Faleceu em 1975 em plena maturidade criativa, com exatos 50 anos.

Santos Fernando foi um daqueles casos corriqueiros dos gênios pouco conhecidos e aos quais o panteão da eternidade não abre as portas. Se você pesquisar na internet só encontrará uma foto de Santos Fernando: a que ilustra este artigo. Existem milhares de gênios assim, sempre vivendo próximo a nós e não há uma explicação lógica para que jamais alcancem a fama e o sucesso merecidos enquanto outros rapidamente transformam-se em best sellers e referência para a literatura de consumo. Talvez seja algo esotérico, karma, traumas de vidas passadas, sei lá.

O certo é que por outro lado, essas pessoas deixam uma herança cultural inestimável para aqueles que os conheceram antes que a poeira do tempo lenta e definitivamente oculte seus pensamentos e suas obras. O que sem dúvida é absurdíssimo, mas é a vida.

Deixo para quem se interessar um conto completo de Santos Fernando, publicado em “Absurdíssimo”. É minha maneira de atrasar um pouco a inexorável sombra do esquecimento final.

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O fumo, aristocraticamente, azul, mas falso como certos sangues, deu lugar a grossos rolos de partículas em suspensão, uma trave caiu, o lustre desfez-se e as línguas de fogo, que são as mais viperinas, e as gengivas de lume, rubras e descarnadas, tragavam os móveis e as tapeçarias.

-Quem é este belo jovem com capacete de oiro? - perguntou a velha senhora, reclinada no sofá. Sacudindo algumas faúlhas da libré, o mordomo esclareceu: -Este belo jovem com capacete de oiro é um bombeiro, "milady". -Pois devia ter chegado mais cedo - suspirou a velha senhora. -Quinze minutos antes do palacete começar a arder - completou o mordomo. - Trinta anos mais cedo, antes do fim da idade de amar - retificou a velha senhora, com um sorriso repleto de implicações.

-Não é habito chegarmos antes dos incêndios - refletiu o bombeiro. -Preconceitos, horas de serviço e burocracias - resmungou o mordomo. -Só apareceremos - insistiu o bombeiro - quando nos chamam. Há tipos que podem chegar em qualquer altura porque vendem em todas as épocas. O bombeiro só vem quando tocam a sineta.

O mordomo deu algumas palmadas na orla do reposteiro lambido pelas chamas. E a velha senhora protestou: -O bombeiro devia vir mais vezes. Como o leiteiro e o vendedor de detergentes. -Os bombeiros, minha senhora, não podem andar por aí com uma malinha e uma mangueira a correr de casa em casa -manifestou o bombeiro, delicadamente. E noutro tom: - Estou a ver os voluntários a oferecer fogos a preços módicos. Arda agora e pague depois. Incêndios por catálogo, como se faz com as urnas e as flores dos mortos.

A velha senhora teve um pequeno gesto de contrariedade. -Primeiro, venderiam o incêndio; depois o processo de o extinguirem. Tal como uma farmácia ligada a uma agência funerária. - Poderiam telefonar de vez em quando - intrometeu-se o mordomo - a perguntar se há fogo. Que há muitos que não são por encomenda. Não é verdade, "milady"? - Podiam telefonar a perguntar se há fogo, se já houve ou se está para haver – completou a velha senhora.

O bombeiro lança uma olhadela rápida às chamas que invadem o salão. Os tetos crepitam. Pensa: "eis um fogo simples mas bastante espetacular". E diz: -O sótão já lá vai. -Por que motivo - inquiriu a velha senhora — os incêndios começam sempre por cima?

O bombeiro consulta um questionário com capa de amianto, e articula: -Para baixo todos os santos ajudam. Deve ser por isso. Mas também há eventualidades em que os incêndios principiam pelos pisos inferiores ou pelos do centro. -Caprichos! - exclamou a velha senhora - Cá no palacete é a primeira vez que há uma fumarada destas. Só têm este gênero de fumo? -O fumo não é deles, "milady" -explica o mordomo, dando grandes palmadas nas costas do bombeiro, que estavam a arder. -Nós não fornecemos fumo. O próprio fogo em si é sempre fornecido pelos clientes - garante o bombeiro, que gosta de pôr as coisas no devido pé. -Seja como for - insistiu a velha senhora - é um fumo horrível. Mal vejo o seu capacete de oiro. Traz sempre esse capacete de oiro aos incêndios?

O bombeiro nega com a cabeça. -Só o trago aos incêndios das casas ricas. Às outras, vamos em cabelo. -Nessa ordem de idéias - a velha senhora esmiuçava tudo - vocês devem ter trajos adequados para cada gênero de fogo.

E o bombeiro, de piquete à réplica muito rápida: -Já temos ido de fraque a incêndios de gala. E salvo muito boa dama, de chapéu alto e asas de grilo.

A velha senhora soltou um suspiro demasiado longo para o seu velho fôlego. Vendo as chamas muito próximas do sofá, o bombeiro pede: -Um copo de água, por favor. -Fresca ou natural? – interessou-se o mordomo. -Tanto faz - replicou o bombeiro.

O mordomo saiu pela única porta ainda não atingida e, ao regressar com o copo de água, informou a velha senhora de que o cozinheiro chinês estava devidamente assado ao pé do fogão.

Indiferente, a velha senhora, que se interessava por outros fatos mais saborosos, inquiriu:

-E você veio sozinho a este meu fogo?

E o bombeiro: -Tenho os camaradas, lá em baixo, com o material. -Ah, traz material - entusiasmou-se o mordomo. -É mais seguro - explicou o bombeiro -. Uma escada, por exemplo, faz sempre arranjo. -Não seria mais útil trazer um elevador? - pergunta a velha senhora. -Talvez - condescende o bombeiro. - O mais prático, porém, é pegar nas pessoas e atira-las pela janela. -E têm uma rede na rua? - interroga o mordomo. -Não vale a pena. Nunca se acerta na rede. O chão é suficientemente rijo para suportar o peso de qualquer corpo - justifica o bombeiro.

E a velha senhora afirma: -Os vossos métodos são muito perfeitos. Vê-se que a corporação é modelar. -Chegamos a apagar fogos com chá - diz o bombeiro. -Com chá? - admira-se o mordomo. -Sim, em residências da alta - explica o bombeiro.

Era a vez da velha senhora interrogar. -E aqui, como vão fazer? -Aqui, é deixar arder.

Uma cabeça assomou à janela. -É o meu camarada - apresentou o bombeiro. -Que entre. Tomem uma taça de champanhe - oferece a velha senhora. -Há uma chamada telefônica para ti - anuncia o camarada.

Enquanto o bombeiro se preparava para partir, as chamas atingiram a parte mais rica do salão. As lâmpadas dos lustres davam pequenos estalidos, os móveis crepitavam, as telas do século dezoito ardiam e as tintas iam escorrendo pelas paredes. Um relógio deu as suas últimas horas mortais. O cuco saiu pela derradeira vez e ficou frito.

-Como cai o fogo? - interessou-se o camarada. -Vai indo, ripostou o bombeiro. -Que calor! - soprou a velha senhora. -Em junho é sempre assim, "milady" - considerou o mordomo.

O camarada, que tinha alma de antiquário, ao ver uma cantoneira cheia de retorcidos retorcer-se ainda mais repetia: -Que lástima... Que lástima... -Que pena... - murmurou então a velha senhora, ao ouvido chamuscado do belo jovem com capacete de oiro. - Que pena você não ter chegado trinta anos atrás, quando o meu peito se inflamava deveras e o meu coração ainda podia arder...


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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