Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

REMOTAS EMOÇÕES

Se todos os pesquisadores e cientistas que apostaram suas vidas inteiras de estudos na teoria do inconsciente ativo estiverem certos, somos todos comandados por ele e aplicamos freios aqui e ali de acordo com padrões morais e códigos sociais que foram enfiados em nosso consciente pela família, pela escola, pelos amigos, pelas religiões, pelo Estado.


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Você vê uma cena comovente na tela do cinema, na televisão ou até mesmo nas ruas da sua cidade; é tomado pela emoção e seus olhos enchem-se de lágrimas, certo?

Errado. Na verdade, o que acontece é exatamente o contrário. Você vê a cena, o inconsciente em seu cérebro identifica aquela cena de acordo com padrões já codificados e imediatamente aciona comandos que fazem seus olhos marejarem. Aí você “entende” que está emocionado.

Caso o sistema não operasse desta forma, você certamente veria uma criança em prantos, perdida no meio do shopping e pensaria: “Esta criança está perdida porque o responsável por ela foi descuidado e agora é necessário que alguém cuide dela até ser encontrada esta pessoa que a deixou perdida”. Racional e friamente. Conscientemente.

Acontece que quem manda em suas emoções é o inconsciente. E diante da cena da criancinha perdida em prantos no meio do shopping, seu coração acelera, suas pupilas se dilatam, a respiração fica mais intensa e você corre para ela tentando abraçá-la e acalmá-la até que a situação seja resolvida. Só mais tarde você irá racionalizar sobre o que ou quem permitiu que a criança entrasse em pânico por se sentir perdida.

Nosso cérebro chegou à configuração atual em algum momento cerca de 50 mil anos atrás e de lá para cá mudou pouquíssimo ou quase nada.

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Aprendemos a armazenar uma infinidade de novas informações e a filtrá-las, desenvolvemos métodos para lidar com elas, mas estrutura física do velho cérebro permanece a mesma de quando conseguíamos distinguir a diferença -e os efeitos dela- entre o alvorecer e o ocaso, escondidos no interior de uma caverna.

Nosso cérebro não foi projetado originalmente para pensar e sim para fazer a gente sobreviver. Pensar, avaliar objetivamente e tirar conclusões de questões complexas é uma atividade que podemos considerar recente na linha infinita do tempo.

Assim como nossos antepassados não precisavam pensar para identificar um animal enorme, peludo e com a boca cheia de dentes afiados como uma ameaça e sair correndo, nós também não precisamos pensar quando andamos pela calçada e percebemos que um sujeito mascarado e com uma arma na mão caminha em nossa direção para também sairmos correndo na direção oposta. Foi para isso que o cérebro foi formatado.

Suas emoções, ligações afetivas, amizades, preferências e decisões, são comandadas pelo inconsciente com base em padrões pré-estabelecidos, sabe-se lá quando, onde e como, pois não temos acesso a ele. Freud estava certo quando afirmou que nossas ações são comandadas pelo inconsciente e só errou ao afirmar que o acesso a ele estava bloqueado por traumas superáveis através da introspecção profunda. Na verdade o inconsciente está bloqueado fisiologicamente, funcionando como se tivéssemos dois cérebros. Um para tomar decisões e outro para racionalizar as decisões e explicá-las, seja para alguém, seja para nós mesmos.

Em outras situações, nossos códigos sociais são acionados rapidamente e nós impedimos o impulso inconsciente de ser concretizado. Isto pode ser facilmente percebido quando numa festa, por exemplo, precisamos nos controlar para não voarmos na garganta daquele sujeito que nos irrita profundamente, não aplicarmos um beijo ardente naquela loira que nos atrai poderosamente ou passarmos todos os camarões empanados da bandeja para o nosso prato. O código social bloqueou estas ações, mas a ação sugerida pelo inconsciente foi disparada.

Debate-se muito hoje no Brasil e no mundo a questão do preconceito, seja ele racial, social ou de orientação sexual. Acontece que somos todos, inconscientemente, segregacionistas e pré-conceituosos (no sentido literal dos conceitos pré-estabelecidos) porque aprendemos ao longo do tempo a nos classificar em grupos. A avaliação da aparência física, das intenções e outras semelhanças permitiam aos nossos antepassados que fossem identificados os invasores ou agressores, aquelas pessoas de outros grupos. Até hoje somos assim.

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Somos do grupo de torcedores do mesmo time, dos profissionais da mesma área, dos moradores do mesmo bairro, do mesmo clube de cinema, do mesmo conjunto de amigos no Face ou de diversos outros que a sociedade moderna permite. Com outros membros de um mesmo grupo somos amáveis, pois não percebemos sinais de perigo. Pessoas pertencentes a outros grupos acendem o alerta do nosso cérebro primitivo, identificando possíveis ameaças.

Esta reação primitiva se aplica aos grupos sociais discriminados, mas evidentemente nossos instintos são censurados por nossa cultura e nossos padrões morais que nos dizem “eles são diferentes porque ninguém é igual e isto não representa nenhuma ameaça para você” permitindo assim a sociabilidade, a integração e a miscigenação. Mas esta avaliação racional não funciona com a mesma precisão para todas as pessoas, deixando que em algumas delas o inconsciente comande, gerando então a intolerância. As guerras e os conflitos sempre surgiram em função disso. A identificação de um perigo representado por um grupo invasor, seja da nossa individualidade ou das terras, da economia, da religião ou de outros interesses ditos nacionais.

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Nossas relações afetivas também podem estar sendo comandadas pelo inconsciente. Será que seus amigos não são todos sujeitos que preferem lavanda com aromas cítricos? Será que seus romances não funcionam porque suas namoradas são escolhidas por um critério estético inconsciente e não pelas características de personalidade? Sendo assim, primeiro seu cérebro primitivo dispara o comando “é esta!” quando você vê uma morena de olhos verdes e cabelos curtos, em seguida você racionaliza que aquela é a mulher da sua vida e só mais tarde, bem mais tarde você vai verificar se ela é uma criatura compatível com sua personalidade e com você.

Pode ser exatamente assim, pode não ser bem assim, mas vale a reflexão.

Se todos os pesquisadores e cientistas que apostaram suas vidas inteiras de estudos na teoria do inconsciente ativo estiverem certos, somos todos comandados por ele e aplicamos freios aqui e ali de acordo com padrões morais e códigos sociais que foram enfiados em nosso consciente pela família, pela escola, pelos amigos, pelas religiões, pelo Estado.

O que isto significa na prática, no dia a dia para cada um de nós? Que, a menos que uma rocha imensa esteja rolando exatamente em direção da nossa casa, é sempre bom fazermos uma avaliação bem ampla de uma situação, de uma pessoa e de nós mesmos antes de qualquer decisão. Porque talvez o fato de alguém usar cabelos verdes não signifique que ele pertence a um grupo inimigo.

Numa época como a atual, que exige decisões instantâneas e muitas vezes à distância, o risco de nosso inconsciente tornar-se o senhor da razão é imenso.

A vantagem de tudo isso é que nosso cérebro primitivo foi moldado para nos fornecer uma imagem superlativa a respeito de nós mesmos e assim conseguirmos superar desafios que hoje nos parecem intransponíveis. Assim atravessamos desertes e geleiras em busca de um ambiente acolhedor para dar prosseguimento à evolução humana.

Como esta estrutura fisiológica do cérebro permanece inalterada, seguimos acreditando sermos capazes de realizar qualquer tarefa e isto nos impulsiona para frente. Se fracassamos em algumas tentativas nosso inconsciente nos dirá: “Aquele resfriado que apareceu de repente atrapalhou tudo” e partimos para uma nova tentativa até que um dia descobrimos ter chegado lá.

Todo este otimismo, que nos leva a enfrentar enormes desafios e conquistar metas individuais e coletivas, permitindo a possibilidade de um mundo sempre melhor, só é possível porque é originado em nosso mais importante parceiro nesta complexa sociedade em que vivemos: o velho cérebro e o inconsciente.

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Marco Gavazza

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