Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

Um Taxi Para o Albany (2ª parte)

Ambientado em 1º de janeiro de 1940 começa o 2º capítulo de "Um Taxi Para o Albany" e aí começa também a trama que envolve Florence Dayse e George Wesley. A história atravessa a II Guerra Mundial entre paixões, arrependimentos e mortes. “Um Taxi Para o Albany” é um romance curto -uma novela- terceiro de uma trilogia que terminei de escrever em 2011. Esta disponível no site www.clube de autores.com.br e decidi publicá-lo aqui em capítulos.


JANEIRO, 1940, WEST END, LONDRES

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Um taxi para o Albany, por favor. Alguns motoristas de taxi que pegavam Florence na esquina da Stoney St., onde ela morava, num anônimo e mal cuidado prédio de apartamentos próximo ao Borough Market já a conheciam e não se espantavam mais com a sua maneira pouco usual de indicar para onde ia, referindo-se ao taxi como se fosse ele o próprio percurso. Os que não a conheciam demoravam um pouco para entender o que ela queria dizer, até porque normalmente estavam prestando mais atenção em suas pernas ou seu rosto. Mas acabavam por deduzir que ela queria ir para o Albany e seguiam em silencio, olhando-a de vez em quando pelo retrovisor e demoradamente depois que ela descia e caminhava para a entrada do prédio.

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Naquela tarde de 1º de janeiro de 1940, Florence Dayse não sabia exatamente o que iria encontrar no apartamento 308 do luxuoso Albany, em Picadilly. Na noite do reveillon que encerrara o ano, entre brindes pouco entusiasmados devido à guerra mundial que recém começara e deixava a Inglaterra apreensiva, ela recebera de um amigo a informação de que um cavalheiro muito distinto e solitário estava procurando uma pessoa especial, alguém que lhe prestasse serviços sexuais mas que mantivesse uma espécie de compromisso, já que por natureza ele detestava variar de parceiras constantemente. Era um comerciante bem sucedido e pagava bem. Segundo o amigo, Florence Dayse tinha o seu tipo físico preferido e se soubesse negociar, poderia contar com uma boa renda mensal, livre de sobressaltos.

Ela acordara com uma leve ressaca provocada pelo champanhe da véspera, bebido como se estivessem por acabar não só os dias do ano de 1939, mas todos os vinhedos do planeta. O noticiário dava conta de que uma guerra de proporções imprevisíveis estava começando e a Inglaterra se envolvia num grupo de países aliados e dispostos a deter o alucinado avanço de Hitler sobre tudo o que encontrava pela frente. Isto a preocupava um pouco, mas não acrescentava nem milímetro de dor à sua cabeça, se é que as dores físicas possuem qualquer unidade de medição além do tempo que levam impondo sofrimento.

War. So what ? All the young men will be out of order. Um prolongado banho na banheira cheia de sais e espumas, acompanhado por um dry martini como só os americanos sabem preparar e cuja receita ela ganhara de um mariner errante por Londres meses antes, resolveram o problema. Preparara-se cuidadosamente, como sempre fazia para primeiros encontros. Sem exageros, sem afetação, sem nada muito provocante. Nunca sabia exatamente que tipo de homem iria encontrar e tinha muito orgulho de sua imagem junto aos clientes.

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Independente do prazer que podia proporcionar, Florence gostava que eles se sentissem bem a seu lado, que a convidassem para uma estréia de teatro, uma exposição de arte ou para jantar num restaurante da moda, sem qualquer hesitação. Florence nascera numa família de classe média, porém sua mãe havia nascido e sido criada numa família extremamente refinada de Kensington, onde a mãe dela, sua avó, trabalhavam como uma das 4 camareiras que serviam à mansão. A mãe de Florence fora tratada como membro da família, crescendo entre talheres de prata, porcelana de Limóges e o mais autêntico estilo aristocrático de viver. Fora educada em boas escolas e recebeu até um pequeno dote quando anunciou que iria casar. Mas depois de dois casamentos fracassados além deste, nada lhe restara senão fortes vestígios de sua boa educação e Florence para criar. Nem mesmo a bebida conseguiu tirar-lhe a elegância, embora lhe tirasse toda a energia e vitalidade.

Florence cresceu entre garrafas e panelas vazias, crises de depressão e dificuldades cada vez maiores. Porém, cada vez que pronunciava de forma errada uma palavra, sentava-se de forma pouco elegante ou pegava de forma rudimentar um talher, era severamente repreendida pela mãe, que nestes momentos parecia recuperar toda a sua força e disposição. Com um brilho nos olhos ela ensinava exatamente Florence como se comportar em cada situação. Florence jamais tivera a coragem de dizer-lhe que terminara usando tudo o que aprendeu para melhorar o seu desempenho como amante remunerada de respeitáveis senhores da City e de onde quer que viessem, desde que pagassem bem, fossem discretos e a indicassem a algum amigo. Foi com esta história de vida e um poder ilimitado de sedução que Florence entrou num taxi naquela tarde e pela primeira uma vez incluiu o Albany na esquisita frase.

Sua mãe não estava por perto para corrigi-la, pois morrera dois anos antes, acreditando que Florence trabalhava num dos teatros da Shafftesbury Av., o que explicava a hora tão tardia em que chegava em casa todas as noites, bem como até algumas dormidas fora de casa e a boa receita financeira que permitia uma final de vida menos sofrido.

Nunca entendera muito bem exatamente o que Florence poderia fazer num teatro além de, talvez, assistir uma peça, já que não era atriz ou autora, figurinista ou coisas assim, mas nunca achara necessário perguntar. Após alguma hesitação, o taxi negro seguia agora suavemente pela Long Lane em direção a Picadilly e ao Albany, onde Florence iria encontrar pela primeira vez com George Wesley e com aquilo que o destino reservara para ela como uma intrincada charada cuja resposta certa, cruelmente, jamais lhe seria revelada.

Sou um homem extremamente inibido, tímido mesmo. Quando estou negociando não, falo até demais, exagero na veemência com que defendo meus interesses e pontos de vista e acabo convencendo as pessoas. Mas no trato pessoal sou um desastre. No lado afetivo então, uma tragédia. Hesitei muito em falar com nosso amigo comum sobre você e pedir que marcasse este encontro. Você pode ver que estou nervoso e tremulo. Esta maneira de ser me traz problemas enormes. Você verá que serão necessárias várias visitas suas até que eu consiga relaxar e fazer sexo. Isto se você estiver disposta e tiver paciência para voltar. Nas primeiras vezes a inibição é tanta que não consigo nada. Fico impotente até que consiga quebrar o gelo dos primeiros encontros. Por isso, proponho que hoje apenas conversemos sobre qualquer assunto.

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Meia hora depois George respirava descompassadamente e gemia descontrolado de prazer num orgasmo ansiado, dentro do corpo ardente, sensual e experiente de Florence. Logo após receber Florence com seu ensaiado discurso, George convidou-a para sentar num largo sofá e ofereceu-lhe chá, que Florence gentilmente agradeceu e trocou por uma dose de brandy.

Ele serviu-a e sentou-se a seu lado, esperando que ela respondesse alguma coisa à sua corajosa explicação. Florence então começou a falar-lhe sobre a festa de reveillon onde lhe deram o nome e o endereço de George, comentando sobre a inutilidade do registro do tempo. Falou da surrealista situação onde dezenas de pessoas ficavam olhando num ponteiro de relógio o momento exato de ficarem felizes. Enquanto falava, discretamente começou a tocar-lhe o joelho esquerdo que tremia levemente.

Florence seguiu falando, falando e falando até perceber que o joelho de George parava de tremer e que um sorriso descontraído lhe ornava o rosto. Sua mão subiu suavemente pela perna de George até que seu dedo mínimo roçasse de leve o sexo dele. Deixou a mão ali parada e seguiu falando, falando e falando. Florence percebeu então que algo em George se avolumara e latejava, enquanto o sorriso do seu rosto transformava-se numa mistura estranha de expressões revelando surpresa, expectativa, prazer e ansiedade.

Ela rapidamente puxou para baixo as calças de pijama de George e começou a fazer-lhe sexo oral de uma forma que ele jamais supôs ser possível. Agora George jazia deitado sobre o sofá, enquanto Florence saia de cima dele e se recompunha rapidamente.

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Pensei ter ouvido você dizer que nunca conseguia nada no primeiro encontro.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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