Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

UM TAXI PARA O ALBANY (3ª PARTE)

Neste terceiro capítulo de "Um Taxi..." George Wesley experimenta sensações inesperadas em seu primeiro encontro com Florence Dayse. A partir daí, em poucos momentos ele esteve no comando do seu destino. “Um Taxi Para o Albany” é um romance curto -uma novela- terceiro de uma trilogia que terminei de escrever em 2011. Esta disponível no site www.clube de autores.com.br juntamente com "Manhattan É Logo Ali" e "Paris Nem Sempre É Uma Festa". Decidi publicá-lo aqui em capítulos até que um de nós -autor e leitor- perceba que não está valendo a pena. Ou está.


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Pensei ter ouvido você dizer que nunca conseguia nada no primeiro encontro.

George permaneceu calado, observando a própria respiração, que voltava lentamente ao normal. Olhava Florence com um ar de espanto e encanto, sensações que às vezes são tão semelhantes quanto estas palavras que as definem. Começava naquela tarde de 1º de janeiro de 1940 uma relação que George Wesley jamais saberia definir. E isso não é bom. Quando o coração não consegue registrar que sentimentos passam por ele, a alma fica empoeirada, sem brilho ou cor exata. Estamos habituados a saber exatamente o que sentimos, ou então, a acharmos que sabemos ou até a não sentirmos nada. Não conseguimos entretanto conviver com o fato de sentirmos alguma coisa que não entendemos de forma clara.

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Como quando o sentimento começa a vagar numa zona de sombras, entre o desejo intenso e sempre satisfeito por alguém, a descoberta de prazeres que nunca se supôs um dia conseguir, uma incontida angústia ao esperar por outro, um inegável ciúme quando o outro não está por perto, um contentamento puro em conversar ouvindo suas histórias e seus problemas; tudo isto misturado com uma inexplicável vontade de que o outro vá embora tão logo acabem as longas jornadas de sexo, uma absoluta resistência a se apresentar ao lado do outro em lugares públicos, um impaciência crescente com o carinho e o cuidado do outro, tudo simultaneamente.

Imagina-se se é apenas sexo que nos une, teme-se apaixonar e perder a rica solidão, imagina-se amar e tem-se raiva por saber o outro não irá amar e irá com outros para a cama e sente que não se gosta mas não se consegue abrir mão de tanto sexo se e incomoda a superficialidade de assuntos para conversar mas que se ama e quer conversar e quer sorrir e que não quer amar e que não vale a pena amar e não se pode viver sem aquilo e que incomoda não poder viver sem aquilo e que não vale a pena não valer a pena e se acha que pode ser tudo aquilo ao mesmo tempo ou nada daquilo ou apenas um pouco daquilo ou algo completamente diferente e nunca se chega a nenhuma conclusão. Meu Deus. A vida começa a dividir-se entre a ansiedade de um telefonema, a angústia de esperar pela chegada e depois esperar pela partida, na esperança eterna de que o outro sempre venha e sempre vá embora. Logo.

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Como podem conviver no mesmo coração sentimentos tão conflitantes, sensações tão opostas? Simplesmente não podem. Tudo que eles trazem para as almas em que se instalam é a irremediável ansiedade, a dúvida inquietante, o conflito infindo, a dor interminável, seja de estar ou de não estar. A falta eterna e inevitável de respostas nos faz recordar a infinita angústia de não sabermos a razão de viver, para que estamos sobre este pequeno e belo planeta azul, porque enfrentamos tantos perigos desde que nascemos e depois morremos apenas, se estamos sós no universo e por que. Existirmos enfim, a que será que se destina ?

Não ter respostas para nenhuma destas perguntas terríveis leva as pessoas a tecerem hipóteses e teorias, religiões que falam em renascimentos, reencarnações, inferno e paraíso, vidas passadas e futuras, juízo final e outras crenças que servem apenas para aplacar a inquietação da alma, a falta absoluta de respostas. Se a vida em si já é uma incógnita, impossível viver com mais uma: a incógnita dentro da incógnita. Por isso buscamos constantemente respostas para tudo. Tu me amas? Eu te amo? Sou feliz? Pensas o que de mim? Vais viajar? Voltas? Haverá chuva para garantir a colheita?

Tudo que é relevante precisa de respostas, explicações, certezas, coerência, lógica. E se não as temos, imaginamos uma e acabamos por acreditar nela.

Por isso, quando nossa alma se fecha em neblina e sombras, não nos deixando perceber o que se passa na noite dos sentimentos, nos desesperamos.

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George Wesley naquela tarde ainda sequer suspeitava, mas não teria jamais em seu coração respostas para o que Florence Dayse Vatumbí Nash passaria a representar em sua vida. Isto o iria levar, um dia, ao desespero.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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