Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

INAFUNDÁVEL

No começo do século 20 o mundo saboreava a sensação de que todos os seus problemas haviam sido resolvidos. Vivia-se uma época de grande avanço tecnológico, de estabilidade social, ebulição nas artes, muito glamour e paz nas relações humanas, mesmo naquelas em que persistiam as diferenças e o domínio de classes.


Vi-Spring+on+The+Titanic+-+Low+R.jpg Na noite do dia 15 deste mês de abril completou-se um século desde que o Titanic naufragou. Nenhuma das tragédias da história contemporânea -exceto suas guerras- permanece tão viva quanto o mergulho do colossal navio nas águas geladas do Atlântico Norte levando consigo pelo menos 1500 vidas das 2300 que navegavam alegremente desde Southampton em direção a New York. O barco considerado inafundável desapareceu na viagem inaugural.

A bibliografia sobre o acidente é vastíssima e o cinema também é pródigo, pois antes do filme de Cameron em 1999, já haviam cinco filmes dedicado ao Titanic. Não cabe a mim, portanto, acrescentar nada ao que já foi exaustivamente pesquisado, testemunhado pelos sobreviventes, analisado por autoridades em navegação e minuciosamente estudado após a descoberta do que restou do Titanic no fundo do oceano.

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Ainda que transbordante de divergências em seus detalhes, há um roteiro coerente sobre tudo o que aconteceu a partir de quando o Capitão Edward Smith recebeu avisos sobre gelo em sua rota até o momento em que o Carpathia atracou no cais de New York, cinco dias depois, levando 705 sobreviventes a bordo. Não há mais mistério algum sobre o acidente.

Praticamente indecifrável entretanto são as razões para a permanência do naufrágio na mente e no imaginário da humanidade.

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No começo do século 20 o mundo saboreava a sensação de que todos os seus problemas haviam sido resolvidos. Vivia-se uma época de grande avanço tecnológico, de estabilidade social, ebulição nas artes, muito glamour e paz nas relações humanas, mesmo naquelas em que persistiam as diferenças e o domínio de classes. Era como se cada um aceitasse “o seu lugar” e vivesse serenamente com isso, desfrutando, se não da opulência, ao menos do conforto e bem estar básicos. E principalmente da eterna possibilidade de se chegar ao topo da pirâmide.

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O grande charme de então eram os ricos, seus caprichos, seus luxos, suas viagens, seus automóveis e suas festas. Grandes fortunas da siderurgia, do petróleo, do mercado financeiro e até do varejo -que começava a se agigantar- faziam a pauta de jornais e revistas quinzenas, fazendo também a sonho dos leitores das classes bem menos favorecidas. Todos adoravam saber o que acontecia naquele mundo fascinante de ouro e peles, ao qual todos um dia poderiam chegar, é claro, pois que viviam nos Estados Unidos da América, país onde era possível tornar-se milionário da noite para o dia. Honestamente.

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Artistas e esportistas não eram temas tão desejáveis do grande público quanto hoje. A vida nem sempre convencional e quase nunca norteada pela moral aparentemente rígida dos ricos, deixava a todos com certa desconfiança e um considerável distanciamento. Bebedeiras, casamentos desfeitos, traições, brigas, acidentes de carro, flagrantes e outros aspectos comuns ao dia a dia do show business ou dos ginásios de esportes e estádios, eram eventos considerados lamentáveis.

A riqueza não; a riqueza era bela, confortável, estável, pacífica e promissora.

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O Titanic reunia tudo isso de forma perfeita. Tecnologia avançadíssima, luxo insuperável, passageiros que juntos embarcaram cerca de 250 milhões de dólares em jóias e objetos pessoais. Claro que havia os deques C, D e E, abrigando a 2ª e 3ª classes, repletos de imigrantes de todos os portos conhecidos, mas a estes a América receberia de braços e oportunidades abertos, dando-lhes a possibilidade de em pouco tempo desfrutarem também da 1ª classe dos transatlânticos e do charme dos deques A e B da própria vida.

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O naufrágio do Titanic foi o primeiro indício de que não era bem isso o que acontecia. Poucos anos depois a 1ª Guerra Mundial confirmava que algo havia dado errado.

“Podemos entrar?” -perguntou Sir Cosmo Duff Gordon, elegantemente trajado e conduzindo pelo braço sua esposa. -“Ficaria muito feliz se o fizessem. Por favor” - respondeu-lhe respeitosamente Murdoch, 1º Oficial do Titanic.

O diálogo aconteceu diante do bote salva vidas nº 2, vinte minutos antes de o navio desaparecer no meio da noite. Durante duas horas aproximadamente, entre o choque contra o iceberg e o afundamento, este tipo de comportamento refinado foi a tônica a bordo do adernado Titanic. Mas não apenas isto.

Tiros, homens embriagados ou disfarçando-se de mulher para entrar nos botes, violência, desespero e total desprezo pelos passageiros da 2ª e 3ª classes também marcaram a noite gelada. O glamour revela-se finalmente inacessível a alguns.

O Titanic e tudo que ele representava foram derrotados por um bloco de gelo.

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Não provocado pelo naufrágio, mas a partir dele, o que se seguiu foram anos de transformação, falências, mortes, tragédias econômicas, pobreza, desemprego, suicídios, crime organizado e manchetes sobre Eliot Ness ou Al Capone e não mais Mr. Guggenheim.

Aquelas 705 pessoas em estado de choque e vestidas com roupas emprestadas que desembarcaram do velho e precário Carpathia representavam o fim de uma inocência imperdoável e a percepção de que havia uma distância intransponível entre a 1ª classe e o resto do navio, mesmo que no fim todos chegassem ao mesmo cais.

Junto com o Titanic naufragou a sensação de um mundo confortável e cheio de oportunidades. Culpas, remorsos, fracasso, choque de realidade, seguidos de anos impiedosos, marcaram o fim de uma era. O mundo nunca mais seria como antes.

Talvez por isso o Titanic, mesmo que tenha completado um século sepultado a mais de três mil metros na escuridão do Atlântico, permaneça inafundável.

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Última foto existente do Titanic, zarpando da escala em Queenstown para New York. À frente apenas o Atlântico Norte.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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