Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

O BRADO RETUMBANTE

Este amor libertário pela própria linguagem exige sacrifícios em nome da compreensão e isto, creio, está além de acordos ortográficos ou sintonias lingüísticas; está na possibilidade de que nossas idéias -as filhas diletas do nosso raciocínio- consigam ser compreendidas pelo mundo lá fora.


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Quem ouviu? “Ouviram do Ypiranga as margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante...” Assim começa o hino nacional brasileiro, que todos dizem saber, pouco realmente sabem e menos ainda, entendem. E eu repito então a pergunta: quem ouviu o brado retumbante? Toda a comitiva de D. Pedro? Algumas pessoas? Muitas? Curiosos atraídos pelo brado?

A resposta correta é: foram as margens do Ypiranga que ouviram o brado retumbante.

Joaquim Osório Duque Estrada, autor da letra do hino, usou aí o hipérbato, uma retumbante inversão sintática muito empregada em textos antigos da língua portuguesa, para aproximá-la do latim, onde geralmente o sujeito está no final da frase, tornando assim seu conteúdo mais erudito.

Chego então a outra interrogação: seria a erudição um grande erro diante da modernidade e da linguagem surgida após a universalização das redes sociais? Talvez.

Entendo perfeitamente a irritação daqueles que defendem a preservação da língua portuguesa tal como ela se desenvolveu e estabeleceu mais de mil anos atrás. É um patrimônio histórico cultural em si e anterior a qualquer outro. Mas entendo também quem defende uma linguagem mais atual. Línguas faladas ou escritas existem para transmitir idéias e quando estas ultrapassam as fronteiras da nossa casa, da nossa cidade, do nosso país, elas precisam ser compreensíveis. O mundo inteiro sabe o que isto :) significa.

Venho acompanhando em sites portugueses discussões acirradas a respeito do Acordo Ortográfico e encontrei uma opinião bastante sensata. Lúcia Vaz Pedro, professora de Português e formadora do Acordo Ortográfico, diz o seguinte, no Jornal de Notícias.

"Face à recusa dos que ainda não tiveram o cuidado de aprofundar as regras do Acordo Ortográfico, limitando-se a difundir erros e deturpações das regras, acreditamos, pois, que o tempo ajudará a absorver a nova grafia. E, nas escolas, os alunos aprendem pacificamente as novas regras, baseadas em explicações gramaticais sólidas e consistentes.

Muitos ensinam aos pais e aos avôs. E essa partilha é, desde logo, positiva, pela atenção dedicada à língua portuguesa, tantas vezes maltratada, mesmo por aqueles que a consideram um bem com direitos de exclusividade. Sendo o português do mundo é também nosso e aceitá-lo é libertá-lo para que possa crescer. Assim um pai ama o seu filho."

Este amor libertário pela própria linguagem exige sacrifícios em nome da compreensão e isto, creio, está além de acordos ortográficos ou sintonias lingüísticas; está na possibilidade de que nossas idéias -as filhas diletas do nosso raciocínio- consigam ser compreendidas pelo mundo lá fora.

O último exame do ENEM (uma espécie de prova nacional de acesso às universidades) realizado no Brasil revelou algumas curiosidades.

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Joaquim da Conceição Barrancos, português, 49 anos, formado em Portugal e vivendo no Brasil há 5 anos foi um exemplo vivo do tema da redação: “Movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI”. Entretanto “Estão a brincar?” foi a única reação que ele consegui esboçar ao ver o resultado de sua prova no ENEM. Ele estava encontrando muita burocracia para validar seu diploma técnico no Brasil e resolveu prestar o exame. Precisava de 400 pontos em cada área de conhecimento (a nota máxima é 1000) e 500 em Redação. “Tirei mais de 600 em todas as áreas e no que sempre fui melhor, 460”. Joaquim é casado com uma professora de línguas e acha que frases como “está a vigor” em vez de “vigorando” e “tudo terá tendência a mudar” em vez de “tende a mudar” foram consideradas como erro.

“Em tempos de Acordo Ortográfico ficamos indignados, muito mais ainda quando vimos que uma receita prejudicava menos do que usar um português que, vá lá, é mais próximo da norma culta do que o brasileiro”, reclama.

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A “receita” a que ele se refere é uma grotesca curiosidade: um dos candidatos, nos dois primeiros parágrafos da redação comentou a questão da imigração mas, no parágrafo seguinte descreve o modo de preparo do macarrão instantâneo:

“Para não ficar muito cansativo, vou agora ensinar a fazer um belo miojo, ferva trezentos ml’s de água em uma panela, quando estiver fervendo, coloque o miojo, espere cozinhar por três minutos, retire o miojo do fogão, misture bem e sirva”.

Como se nada tivesse acontecido, o candidato retoma o tema da imigração no parágrafo seguinte e conclui que “uma boa solução para o problema o governo brasileiro já está fazendo, que é acolher os imigrantes e dar a eles uma boa oportunidade de melhorarem suas vidas”. Sua nota foi 560, maior em 100 pontos que a do português Joaquim.

Outra curiosidade foi Matheus Oliveira Bastos, estudante brasileiro que com uma redação sem erros obteve 160, enquanto outras redações com erros absurdos com “enchergar” e “trousse” obtiveram nota máxima.

Tenho a dizer aos meus poucos leitores bi-nacionais que no Brasil, assim como quase ninguém sabe o Hino Nacional, o Acordo Ortográfico é um ilustre desconhecido da população. Vivemos numa situação de analfabetismo geral e as normas do Acordo com certeza somente serão observadas por uma parte da imprensa e um reduzido grupo de intelectuais. Portanto, cabe-nos acima de tudo não mais semear hipérbatos perseguindo uma erudição elitista e menos ainda nos irritarmos com o Acordo Ortográfico. O importante aqui e agora e como sempre foi, continua sendo, sem cometer erros, sermos compreendidos.

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Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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