Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

RABISCANDO

Acho que o lápis é uma espécie de roupa íntima dos nossos pensamentos. O instrumento adequado a não eternizar rabiscos geométricos ou formas surreais feitos durante reuniões chatíssimas. O nome ou as iniciais da mulher amada que não nos enxerga, em incontáveis folhas de bloco. O orçamento secreto para aquela viagem à Catmandu que nunca faremos.


astronauta.jpgExiste uma piada antiga que conta uma conversa entre dois astronautas, um dos Estados Unidos e o outro da antiga União Soviética. O americano diz que a NASA estava investindo milhões de dólares num projeto e desenvolvendo uma caneta que funcionaria perfeitamente no espaço, em ambientes sem gravidade. Aí o russo retruca e diz: “Nós já estamos usando um artefato que faz isso. Chama-se lápis”. A verdade é que o lápis ostenta o título de mais antigo instrumento de escrita do planeta e ainda em pleno uso. Durante séculos ele foi apenas um pedaço de madeira -mais tarde de metal- pontiagudo com o qual se gravavam símbolos e desenhos, seja sobre a terra, barro, madeira, argila ainda fresca ou simplesmente em paredes e troncos de árvores.

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Em 1564 a descoberta da grafita, em Borrowdale, na Inglaterra, levou à invenção do lápis como o conhecemos até hoje. O mineral -cujo nome vem do grego graphein que significa escrever- é flexível e exigia um envoltório qualquer para estabilizá-lo. Inicialmente enrolava-se um cordão em torno de um bastão de grafita e lá estava o lápis. Em seguida começaram a ser usados tubos ocos de madeira e o lápis chegou à sua forma definitiva aí por volta do final do século 18.

Embora utilizando um composto de grafita e enxofre, que resultava num lápis de qualidade inferior aos ingleses, a cidade de Nuremberg, na Alemanha, tornou-se um pólo produtor de lápis na Europa, graças a vastíssimas jazidas de grafita descobertas na região. Foi em 1795 que este cenário se transformou radicalmente com uma técnica desenvolvida pelo químico francês Jacques Conté. Ele criou uma mistura de grafita em pó com enxofre, queimada em fornalha e prensada em qualquer formato desejado. Esta é até hoje, mais de dois séculos depois, a base da manufatura do lápis.

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Uma das fábricas em atividade em Nuremberg, pertencente a Kasper Faber, foi herdada por seus bisnetos Johann e John, em 1847. Eles então iniciaram um processo de desenvolvimento que a transformaria numa empresa de âmbito mundial.

Já em 1856 Johann adquiria os direitos de toda a produção de grafita do leste da Sibéria, enquanto John partir para os Estados Unidos, implantando em 1861 a primeira fábrica importante de lápis da América e matriz das posteriores Eberhard Faber, Faber Castell e outras pelo mundo inteiro, todas controladas pela família Faber.

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O tempo trouxe os lápis de diversas consistências da grafita, os coloridos, os de aquarela, aqueles achatados usados por marceneiros, os enormes, os com borracha de apagar numa ponta e por aí. Empresas viram nos lápis um excelente material de divulgação e passaram a imprimir neles suas marcas, oferecendo-os fartamente como brindes. Vieram também outros lápis usando matérias primas diferentes e destinados a adornar olhos e sobrancelhas ou ainda os lábios.

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Diversos periféricos foram criados em função do lápis. Apontadores de mesa, apontador portáteis das mais esquisitas formas, prolongadores de metal para usar o lápis até o último centímetro, borracha para encaixar na extremidade superior, capas protetoras para as pontas e sei lá mais o que.

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Hoje, em pleno reinado da escrita e desenho digitais, o lápis segue presente nas salas de reuniões de grandes empresas, nos escritório de arquitetura, nas casas, nas escolas, nas bolsas femininas e em centenas de outras utilizações da escrita ou do traço.

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Como pode algo tão simples sobreviver a uma época de desenfreado consumo de tecnologia? Simplesmente por serem baratos? Não creio.

Antes de dar minha opinião, é recomendável repetir mais uma vez que não sou historiador, sociólogo, pesquisador ou qualquer tipo de autoridade nos assuntos que abordo. Minhas conclusões são apenas resultados da curiosidade e de um raciocínio simples em busca de um sentido para o que me cerca, sem qualquer outro valor além desses.

Penso que a ligação existente entre o ser humano e os lápis é afetiva.

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Depois de cumprir sua jornada como principal ferramenta da escrita humana, ele passou a ser uma espécie de roupa íntima dos nossos pensamentos. O instrumento adequado a não eternizar rabiscos geométricos ou formas surreais feitos durante reuniões chatíssimas. O nome ou as iniciais da mulher amada que não nos enxerga, em incontáveis folhas de bloco. O orçamento secreto para aquela viagem à Catmandu que nunca faremos.

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Intimidades que não comportam o registro oficial das bics ou Mont Blancs da vida e menos ainda dos notes, tablets, ipods e pedes. A materialização momentânea de projetos, ideias ou sonhos que ainda não estão prontos para serem impressos ou compartilhados. A revelação silenciosa e efêmera de nossas manias, códigos e segredos.

Um lápis é um pedaço de natureza que se alia a nós para que possamos escrever ou desenhar sem censura prévia, sem corretor automático.

Um lembrete do tempo em que ainda se podia voltar atrás.

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Assim, acredito que enquanto houver sobre este planeta alguém disposto a rabiscar dois nomes numa parede e envolve-los com um coração, sempre existirão lápis.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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