Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

SHERLOCK HOLMES E A VIDA REAL

Cada um de nós já sentiu ou sente a vontade de tomar para si a tarefa de fazer justiça e combater pessoalmente o crime. O desejo íntimo de estar no lugar de um justiceiro, de alguém capaz de salvar a mocinha e jogar o bandido no despenhadeiro nos acompanha desde a infância.


twis8.jpgSe na vida real o Titanic segue inafundável, na ficção Sherlock Holmes o supera em tempo, intensidade e concretude. Enquanto o transatlântico saiu da realidade para o imaginário, o detetive inglês fez o caminho inverso, saindo das páginas de Arthur Conan Doyle para vida real e hoje tem direito a biografia completa (com data de nascimento, nome de pai e mãe etc.) e até a um museu em Londres. Nele se podem apreciar seus objetos pessoais, a mobília do seu apartamento e estátuas em cera de seus personagens, entre outras curiosidades.

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Lá estão até mesmo as cartas que recebia de aflitos clientes às voltas com mistérios inexpugnáveis, exceto para Holmes, personagem que surgiu pela primeira vez na obra de Conan Doyle em 1887, em Um Estudo em Vermelho, publicado no Beeton’s Christmas Annual, uma coletânea de peças teatrais e romances.

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As cartas usam rigorosamente as mesmas palavras que estão nos livros, possuem caligrafias que teoricamente correspondem às que teriam os missivistas, foram escritas em papéis da época ou semelhantes, colocadas em envelopes também da época ou similares e postadas dos mesmo lugares descritos nas histórias de Doyle, com selos do anos correspondentes. Acredite.

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O endereço de destino é o mesmo onde hoje está The Sherlock Holmes Museum: o número 221B da Baker Street, no West End, zona onde os cidadãos londrinos mais abastados residiam e uma das moradas mais famosas da literatura. É o endereço da residência londrina fictícia do detetive Sherlock Holmes.

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Na verdade, o número 221B da Baker Street nunca existiu e presume-se que Conan Doyle escolheu aleatoriamente o tal 221, pois a rua terminava sua numeração no número 85. Quando os edifícios foram renumerados, em 1930, tornando a rua muito mais “numerada”, uma grande parte do bloco 200 foi atribuída a um edifício art deco conhecido como Abbey House, construído em 1932. Foram-lhe atribuídos os números 215-229 e o endereço -até ele- tornou-se então real.

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Imediatamente começaram a chegar cartas endereçadas a Sherlock Holmes, de pessoas de todo o mundo. Hoje uma estátua de bronze de Sherlock, com quase três metros de altura, pode ser vista na entrada da estação de metrô Baker Street.

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O sucesso do personagem é atribuído a incontáveis fatores e tema de centenas de estudos publicados a respeito de Doyle/Holmes/Watson. Comum a todas as alegações está a criatividade e a habilidade de Conan Doyle ao deixar o leitor sempre um passo a frente de Watson e vários atrás de Sherlock. Em todos os relatos o leitor medianamente inteligente descobre uma parte do mistério enquanto Watson ingenuamente nada percebe. Queira ou não, o leitor é sempre encaixado na história, entre a inocência de um e a espantosa argúcia do outro. Mas a chave do enigma sempre fica cuidadosamente guardada por Doyle/Holmes até as últimas linhas.

Esta técnica inovadora no relato de histórias policiais -além da singular personalidade do detetive e seus métodos investigativos- certamente foi fundamental para a imortalidade de Sherlock Holmes

A trajetória de Sherlock da ficção para a realidade foi criada por seus mais radicais admiradores, milhares na Inglaterra e em todo o mundo, que a partir dos relatos descritos ao longo de 60 obras literárias (56 contos e quatro romances) reconstituíram cada detalhe relatado por seu também fictício amigo John Watson. E assim, ao longo de anos de pesquisas, materializaram todos os detalhes possíveis.

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Watson também ganhou biografia e vida própria, assumindo junto com o detetive um surpreendente lugar na realidade. Inúmeros dos fanáticos mais radicais pelas histórias de Sherlock foram mais longe, afirmando que a dupla realmente existiu e portanto Conan Doyle não teria criado nada, mas simplesmente feito crônicas a partir de fatos reais, relatados por um também real Dr. Watson.

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Não existem exemplos similares na fantasia humana mesmo quando Mickey posa para fotografias com turistas na Disney ou estes mesmos turistas posam diante do prédio onde funcionava o Rick’s Bar, de Rick Blaine em Casablanca. Ninguém está preocupado em imaginar que tipo de talheres Mickey usa ou de que cor seria o pijama usado por Rick para dormir.

A tenacidade dos admiradores de Sherlock no sentido de criar-lhe uma vida real é impressionante. Existem centenas de clubes e associações dedicadas ao estudo da vida de Holmes.

Coisas difíceis de acreditar acontecem seriamente entre essa legião de fãs.

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A possibilidade de Violet Hunter (personagem feminina do conto As Faias Acobreadas) ter procurado Sherlock com intenções românticas e não apenas investigativas dá lugar a infindáveis debates e incontáveis artigos publicados em jornais londrinos e de outros países, nos quais se destrincha cada vírgula da narrativa de Doyle em busca de indícios a favor ou contra esta hipótese. O comportamento de Holmes em relação a personagens femininas em outras narrativas é comparado com aquele até que se chegue a uma conclusão. Ou não.

Assim acontece em relação a todo e qualquer detalhe. Durante anos debateu-se a respeito de qual arma Watson utilizava e pesquisas incansáveis foram realizadas para se chegar finalmente à conclusão -embora persistam controvérsias- que o personagem médico usava um Webbley MP II.

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O que pode explicar este surpreendente e fascinante relato de materialização da ficção?

Creio eu que cada um de nós já sentiu ou sente a vontade de tomar para si a tarefa de fazer justiça e combater pessoalmente o crime. O desejo íntimo de estar no lugar de um justiceiro, de alguém capaz de salvar a mocinha e jogar o bandido no despenhadeiro nos acompanha desde a infância.

Porém é difícil ser um James Bond com charme e pontaria incríveis e uma razoável dose de sorte. Ou um Batman com um arsenal tecnológico bilionário. Ou ainda um Zorro, imbatível com uma espada em punho. Assim os grandes nomes da luta contra o crime vão ocupando seus lugares na imaginação –e só nela- de seus fãs como uma fantasia admirável, não mais que isso.

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Ser Sherlock, entretanto, é possível. A ele, para elucidar o mais intrincado mistério e entregar o criminoso mais repulsivo nas mãos da polícia, bastam informações, uma poltrona e um cachimbo. Eventualmente um passeio de trem até os arredores de Londres para confirmar a existência de uma pegada sobre a relva úmida de algum bem cuidado jardim britânico. Mais nada.

Qualquer um de nós poderia ser Holmes, pensamos. E por que não?

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”Quando você elimina o impossível, o que restar, não importa o quão improvável, deve ser a verdade.”

A frase foi dita por Sherlock Holmes no conto A Liga dos Cabeça de Fogo e pode ser a chave para explicar porque a vida acabaria por transformar um personagem num ser real. Ele já sabia que isso iria acontecer.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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