Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

BELEZA ROUBADA

Quando Goering foi alertado pelo general Rosenberg que o governo francês estava protestando pelas violações da Convenção de Haia, respondeu: "Meu caro, deixe que eu me preocupo com isso. Eu sou o mais alto jurista da França”.


PRISIONEIROS ITALIANOS NA LIBIA (1940).jpegA tendência humana a estabelecer leis, ordens, normas e regras, pouco importando se serão cumpridas ou não, é admirável. Mesmo em tempos de guerra, quando a ordem é o caos, elas existem. Frente a frente com um inimigo, em guerras convencionais, um soldado possui duas opções: matá-lo ou fazê-lo prisioneiro. Aos prisioneiros de guerra a Convenção de Genebra prevê que sejam tratados dignamente e sem torturas até sua liberação ou repatriamento.

Não existe, entretanto, norma a ser aplicada quanto ao confisco de bens materiais durante as guerras, coisa que acontece raramente, pois é difícil algo além de comida, água e um colchão de palha ser cobiçado em meio a bombas explodindo e tiros zunindo em volta.

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Ao longo da 2ª Guerra Mundial, a mais sangrenta de história humana, a Alemanha imaginada por Hitler em seus desvarios deveria mostrar ao mundo a superioridade em todos os aspectos e não apenas na pureza racial ariana. Assim, ele próprio se incumbiu de criar estas normas.

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Muito tempo antes, aos 20 anos, já órfão e morando em Viena, o jovem Hitler pintava paisagens, lugares que não conhecia, inspirado em cartões postais. Foi assim que conseguiu estudar e pagar o aluguel de um apartamento. Diferente do que contam as biografias raivosas, ele teve uma boa vida como pintor, ganhando mais dinheiro do que se fosse um bancário ou funcionário do comércio, tendo que trabalhar menos, o que lhe deixava tempo livre para maquinar sua carreira.

Em 1913 mudou-se para Munique e continuou com sua carreira de pintor, sendo esta a única profissão que exerceu até 1914 quando a 1ª Guerra Mundial o afastou da arte, abrindo-lhe a primeira oportunidade para sua militância política.

Décadas depois o ex-artista Adolf Hitler, já com o título de Führer, ordenava aos seus militares, através do marechal de campo, Goering: "Sempre que você vir algo que possa ser necessário ao povo alemão, deve segui-lo como um cão de caça. Este algo deve ser tomado e trazido para a Alemanha".

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Em cada novo país ocupado por Hitler, seus agentes financeiros levantavam o ouro e as possessões externas dos bancos nacionais. Isto era apenas o início. Mesmo da União Soviética devastada, os documentos nazistas mostram que foram enviados para Berlim em 1943, nove milhões de toneladas de cereais, dois milhões de toneladas de forragem, três milhões de toneladas de batatas, 662.000 toneladas de carne, nove milhões de cabeças de gado, 12 milhões de porcos, 13 milhões de ovelhas, citando apenas estes poucos itens.

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Lamentavelmente e graças à sua experiência com as telas, Hitler incluía na sua ordem a incorporação de qualquer tipo de obra de arte. Divisões militares foram criadas para determinar quais coleções públicas e privadas seriam as mais valiosas para o regime. Um comissário especial designado para executar suas ordens na Polônia informou em relatórios que “haviam tomado quase todos os tesouros artísticos do país". saque 2.jpg

Foi da França que a maioria dos grandes tesouros de arte saiu para a nova ordem alemã. O general Rosenberg, foi nomeado especificamente para cuidar do saque francês e segundo ordens diretas de Goering "autorizado a exportar para a Alemanha bens culturais que pareçam valiosos a ele e a ele estes estão confiados. Ao Führer se reserva a decisão sobre seus usos".

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A definição dos usos pode ser conhecida a partir de uma ordem baixada por Goering em novembro de 1940, sobre os critérios de distribuição das obras de arte retiradas do Louvre: “Aqueles objetos artísticos que o Führer reserva para si próprio, com decisão sobre seu uso; aqueles que servem para completar a coleção do ReichMarshal (ele próprio); aqueles que serão catalogados para serem enviados aos museus alemães" O governo francês gritou e mostrou que isso era uma violação da convenção de Haia. Quando Goering foi alertado pelo general Rosenberg respondeu: "Meu caro, deixe que eu me preocupo com isso. Eu sou o mais alto jurista da França”.

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Trens repletos de obras de arte seguiam para Berlim durante a marcha nazista pela Europa. Centenas de milhares de obras e antiguidades de valor inestimável foram sistematicamente saqueadas, recebendo o nome de “espólios de guerra”. Cerca de 40 formidáveis álbuns de fotos foram criados e sempre apresentados a Hitler, em seu aniversário -20 de abril- e no Natal, para que escolhesse o que lhe agradava.

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Após a guerra, só a França recuperou 100 mil obras de arte. Até hoje existem empresas e ONGs especializadas em investigações sobre espólios artísticos levados pelos nazistas. Alguns argumentam que a arte roubada foi negociada e está pendurada em museus e coleções em todo o mundo.

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A quem pertence afinal, uma obra de arte? Esta é uma pergunta com respostas extremamente complicadas e polêmicas.

Neruda afirmou que a poesia pertence a quem precisa dela e estendendo este raciocínio à toda a arte, os saques nazistas estariam justificados. Hitler precisava da arte, para si próprio ou para a Alemanha que ele prometia. No caso das artes plásticas, entretanto, onde não existem cópias (quando existem são limitadas e controladas), temporadas, reprises nem diversas edições, é necessário uma guarda para as telas e esculturas memoráveis.

Se aceitarmos a noção de mercado, onde o artista vende e sua obra pertence a quem comprou, a “guarda” pode fazer dela o que bem entender, trancafiando-a num cofre ou numa sala fora do alcance de qualque pessoa.

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A guarda perfeita e universal para obras de artes plásticas são os museus, claro.

Ninguém vê a Itália reclamando porque a Mona Lisa está na França ou a Espanha esperneando porque existem Picassos pelo mundo inteiro. Hitler na verdade bombardeou a guarda legítima das obras de arte que saqueou e a natureza da "arte ao alcance de todos" não cabe aqui. O direito vem primeiro.

Toda manifestação de arte tem um compromisso social e histórico precisando ser partilhada e entendida pelo maior número possível de pessoas, para que sua existência tenha algum sentido. Assim, telas e esculturas pertencem ao patrimônio histórico da humanidade e ao mesmo tempo, ao imaginário de cada um de nós.

Penso que, se saqueá-las é um crime, aprisioná-las numa sala para deleite próprio e exclusivo, é um crime ainda maior.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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