Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações

O VERÃO DE '42

Hermie e Oscy não mudaram nada, visto serem personagens de celulóide gravadas em 35 mm. Portanto, mudei eu. Os mais críticos e sensíveis dirão que eu perdi a emoção, os valores acima do sexo e do descartável, aqueles só revelados pelo amor, pelo sentimento, pela entrega total.


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Quando assisti pela primeira vez O Verão de 42 (Summer of ’42) fiquei fascinado pelo personagem Hermie, um adolescente sonhador, romântico, puro, ingênuo e sensível.

Para quem não viu o filme, Ermie (Gary Grimes) e mais dois amigos estão passando o verão em Nantucket, uma pequena ilha na costa da Flórida e em busca de suas primeiras experiências sexuais. Um garoto bem menor, completamente desajeitado, amedrontado e desconhecedor de qualquer vestígio ou possibilidade de relacionamento sexual é um dos dois amigos. Pouco importante tanto na aventura quanto no roteiro.

O terceiro personagem é o Oscy (Jerry Houser). Esperto, cheio de malícia e esquemas para tentar a descoberta do mistério que os fascina e amedronta. Anda com uma camisinha no bolso para dar sorte.

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Depois de muitas aventuras típicas de adolescentes em férias e dispostos a uma iniciação sexual Hermie apaixona-se por Dorothy (Jennifer O'Neil), uma linda mulher casada com um soldado, que está longe, na guerra. Este acaba morrendo em combate e abrindo caminho para que ele realize seu sonho impossível, em função da profunda tristeza que se abate sobre ela. Na época, achei o Oscy um exemplo de insensibilidade e machismo, interessado apenas em dar um jeito de comer alguém, desprezando completamente sentimentos e atropelando emoções.

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O tempo passou e hoje, muitos anos depois, encontro Summer of ’42 em dvd, abandonado numa locadora que liquida seu estoque. Compro e assisto de novo. E acho o Hermie um grande bobo, enquanto vejo no Oscy o sábio de toda a história. Se a intenção era descobrir o sexo, que isto fosse feito e fim de conversa.

Objetividade, sem envolvimentos desnecessários e emoções para arrastar pelo resto da vida. Freud aplaudiria de pé. Isto sim é que significa saber o que se quer da vida. Por isso ele rapidamente fatura a linda loirinha Miriam (Katherine Allentuck) e experimenta o sexo até ficar trôpego, quase desfalecendo em plena areia da praia.

É claro que Hermie e Oscy não mudaram nada, visto serem personagens de celulóide gravadas em 35 mm. Portanto, mudei eu. Os mais críticos e sensíveis dirão que eu perdi a emoção, os valores acima do sexo e do descartável, aqueles só revelados pelo amor, pelo sentimento, pela entrega total.

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Acho que não os perdi, mas tenho certeza de que os gastei. Milhares de páginas de poemas lidos e escritos, de canções cantadas e choradas, quilômetros e mais quilômetros de terra, céu ou mar atravessados em busca de um par de olhos ou de um sorriso, incontáveis horas olhando o telefone e a caixa de correspondência parecem ter esgotado as minhas possibilidades de ser Hermie. Porque junto com o amor vem o desamor, a tristeza, a dor de ver tudo se acabar, a certeza de que não é preciso tanto sofrimento para se saber capaz de amar.

Como diz Chico Buarque, hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito, exijo respeito, não sou mais um sonhador. Antes de amar qualquer pessoa é preciso que amemos a nós mesmo, caso contrário estaremos anulando qualquer possibilidade futura de querer bem.

Há um limite para o querer bem e este limite é que permite aos que o descobrem, seguir querendo. Parece um contra-senso, mas tem lógica. Se alguém abandona tudo por amor, estará abrindo mão de si próprio e portanto da própria validade de seus atos e sentimentos.

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Oscy gostaria muito de ir para a cama com Dorothy, mas sabia que isto só seria possível pelo caminho do sofrimento e preferiu não abrir mão de nada nem da alegria em suas férias, menos ainda se afastar do seu objetivo. Está certo.

Se você pretende passar a sua vida no alto de uma montanha, não tem sentido se apaixonar por uma sereia. O amor não é cego. Talvez nos deixe um pouco burros, mas ele nos mostra claramente a possibilidade ou não de sermos felizes.

Daí em diante, é uma questão de auto-estima. Neste inverno de 2013, fico com Oscy.


Marco Gavazza

Marco Gavazza é Publicitário, com extensão em Planejamento Estratégico e Marketing Eleitoral. Editor do site BahiaMulher e colaborador em diversas publicações .
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