aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

“Damaged” – a angústia concentrada do Black Flag

Toda a revolta e êxtase do primeiro disco do Black Flag, “Damaged”, estreia de Henry Rollins como vocalista da banda.


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O Black Flag começou o verão de 1981 à procura de um vocalista. De fato, já em seu quinto ano de existência (tendo surgido como Panic para, em 78, adotar a alcunha Black Flag), a banda ainda não conseguira encontrar um cantor à altura. O primeiro, Keith Morris, que fundaria o Circle Jerks, saiu da banda por problemas com drogas e desentendimentos criativos com outros integrantes, sendo substituído por Ron Reyes, que, por sua vez, abandonou a banda no meio de uma apresentação por temer a crescente violência. Reyes fora substituído por Dez Cadena, um fã sem preparo algum para cantar. Dez segue na banda, mas como guitarrista. O Black Flag estava de volta ao ponto zero.

Em uma palestra ministrada em 2010, Henry Rollins contou ao público como foi o seu primeiro contato com os Ramones e com o movimento punk em geral. Rollins explicou que, antes do punk, comprava discos de country-rock os quais tocava no volume máximo, as caixas de som próximas aos ouvidos, e botava tudo para fora, “fuck, fuck you, shut up, fuck, fuck”. Rollins segue afirmando que, vez ou outra, sua mãe entrava no quarto e interrompia a massa disforme de som que saía das caixas tirando o aparelho da tomada para saber o que estava acontecendo, ao que o futuro vocalista do Black Flag, em tom absolutamente irônico, respondia “desculpe, estou apenas...me expressando”.

Em 1980 o movimento hippie já não passava de uma caricatura ressaqueada do que fora um dia. O punk fora eficiente em destruir a ordem vigente na música, mas estava se vendo mal com a tarefa de reconstruir, sendo dissipado em insípidas manifestações New Wave. Enquanto isso, o rock de arena tomava conta das paradas musicais. Bandas como Journey, REO Speedwagon e Styx explodiam com falsa dramaticidade, embalando uma sociedade cada vez mais conservadora, que viria a eleger Reagan como presidente dos EUA e escondia-se ao máximo do cinza da guerra fria buscando refúgio no colorido do consumismo.

Em 1981 o Black Flag encontrou Henry Rollins (na ocasião, Rollins já havia tido contato com os Ramones e com o punk), que prontamente largou seu emprego, tatuou o logo da banda no braço e assumiu os vocais. No mesmo ano, começaram a gravar seu primeiro LP, Damaged.

Se as músicas já estavam prontas antes da entrada de Rollins, ele merece destaque por ter dado vida às canções de Greg Ginn e companhia como nenhum outro vocalista fora capaz anteriormente. Os vocais cheios de explosão dramática de Rollins adequaram-se perfeitamente às guitarras encorpadas de Ginn e Dez Cadena e à cozinha sincopada de Robo e Chuck Dukowski. Rollins não precisava mais modificar números country-rock distorcendo-as com o volume, agora elas estavam lá, prontas para ele. Henry não foi um mero interprete, ele de fato expressou as canções como se fossem suas, imprimindo nelas sua identidade.

Damaged tem início com “Rise Above”, uma canção de falso triunfalismo sobre forças repressoras (ao longo do disco, fica clara a posição derrotista da banda – não que isso signifique um desânimo em relação à luta, pelo contrário, para eles, rebelar-se é quase uma manifestação instintiva). “We are tired of your abuse/ try to stop us/ it’s no use”, urra Rollins no refrão. Os versos cantados pelo vocalista são intercalados por gritos de “Rise above, we’re gonna rise above” dos outros integrantes (e do público, em apresentações), elevando o caráter coletivo da canção, que virou umas das mais importantes no repertório do Black Flag.

O disco segue com “Spray Paint”, que serve como uma manifestação prática do que é cantado em “Rise Above”. “It feels good to say what i want, it feels good to knock things down, it feels good to see the disgust in their eyes”, então, “spray Paint the wall”, canta Rollins. Não que a prática vá trazer conquistas, é apenas uma forma de ofender aqueles que tentam virar a cara para o que há de feio no mundo, “I don’t want/ to see the plan suceed/there won’t be room/for people like me/I wanna go wild”. O mesmo tom pessimista é encontrado em “Police Story”, um ataque direto à repressão policial (comum em apresentações do Black Flag). A banda não se contém “this fucking city/is run by pigs/they take the rights away/from all the kids”, e, no refrão, retoma a postura pessimista, “understand/we’re fighting a war we can’t win/they hate us, we hate them/we can’t win”. É como se a polícia e toda a comunidade agregada pelo Black Flag fossem duas entidades naturais predestinadas a se odiarem. E mesmo sabendo que não há como vencer, há de se continuar lutando.

Supostamente escrita como uma alfinetada no ex-vocalista Keith Morris, “Six Pack”, faixa que dá sequência ao disco após “Spray Paint”, é uma das canções do disco que criticam o consumo exagerado de bebidas alcoólicas como forma de fuga da realidade por parte tanto da sociedade yuppie quanto pelos próprios punks. A canção inicia com o baixo de Dukowski como plano de fundo para um Henry Rollins que cinicamente afirma “I got a six pack and nothing to do. I got a six pack and I don’t need you”, e então a canção explode em uma série de imagens alcoolizadas que fecham no refrão,“I know it will be o.k./ I got a six pack in me alright”. “Thirsty And Miserable”, segue o mesmo tema, tratando de um grupo de jovens em busca de álcool para deixarem de sentirem-se “sedentos e miseráveis”. “It’s 1:30/ and we’re getting nervous/the store closes at 2:00/there’s not enough to last us”. A única preocupação é essa, estar bêbado e manter-se bêbado. O Black Flag obviamente não se esforça nem um pouco para explicar a ironia na letra da canção. A interpretação fica a par de quem a escuta.

As ferramentas de fuga e alienação continuam sendo ilustradas em canções como “T.V. Party” e “No More”. A primeira, certamente a canção mais debochada do disco, é uma ode ensandecida à televisão. Os vocais de Rollins são intercalados por coros embriagados dos outros integrantes entregando uma série de comentários cínicos em relação à postura do personagem da canção; “Why go into the outside world at all, it’s such a fright (...) t.v. news shows what is like out there, it’s a scare/ you can go out if you want, we won’t dare “. Já “No More”, que em mais da metade de seu tempo é baseada apenas em baixo e bateria, mira as motivações que levam as pessoas ao uso excessivo do álcool ou de antidepressivos. Iniciando com uma citação à falta de sentido da vida profissional, “no i won’t believe this is all/I’m not happy, I’m not free/pay check to pay check/living for what/ every night I get drunk to get sunk” para depois tratar da falta de expectativas e a decepção consigo mesmo frente à vida adulta “I knew what i had before i grew up/I know that it really sucked/now i’m a slave for the same lies”.

Essa decepção perante a sociedade e a postura “eu contra o mundo”, uma reflexão de questões pessoais postas de frente aos problemas do mundo são marcas inerentes ao Black Flag. Em “Damaged”, figuram explicitamente em canções como “What I See”, “Gimme Gimme Gimme”, “Padded Cell” e “Depression”. “Live the lie and take a dive/ just make it die”, urra Rollins em “What I See”, uma canção de ritmo tribal que quase soa como Iggy Pop And The Stooges. É melhor ser cego do que saber o que acontece de ruim. O conhecimento é um fardo. Em “Gimme Gimme Gimme”, Rollins está “sentado como uma arma carregada pronta para disparar”. A confusão é explicitada na penúltima estrofe “I know the world got problems/ i’ve problems of my own/ not the one that can’t be solved/ with na atom bomb”, o quão significante é a angústia de não se encaixar na sociedade quando tudo pode sumir em questão de minutos? Entender a falta de sentido de questões pessoais perante “algo maior” é o bastante para interromper o sofrimento? Em “Padded Cell”, a sociedade é vista como um bando de maníacos fingindo estarem felizes enquanto escondem a própria loucura. O sucesso fingido de pessoas que vivem em uma grande “cela acolchoada”. Tais questões culminam justamente em “Depression”, uma sequência de questionamentos em relação à própria falta de perspectiva. “Será que um dia isso vai acabar?” pergunta o cantor como quem já sabe a resposta.

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Agressividade e uma grande descarga emocional são despejadas em “Room 13”, um apelo desesperado por ajuda de alguém prestes a ceder à insanidade, cuja continuidade é respectivamente quebrada pela bateria, “I rely on your judgement/I’ve got none left of my own/don’t know what i’m doing”. O motivo de tanta angústia: solidão e falta de pertencimento, “I need to belong, I need to hang on”, profere desesperadamente. O desespero é ainda maior em “Damaged II”, com fortes referências ao suicídio, na qual lampejos aleatórios de angústia revelam um interlocutor prestes a desabar. “I’m confused/ confused/ don’t wanna be confused/stupid attempts/no conclusions”. Mas mesmo assim, afirma, “but you can make me long/for your life and security”, ou seja, não espere que eu ceda a sua ilusão de sucesso. Fechando o disco, com o mesmo título, “Damaged I” é um desabafo que comprime toda a agressividade do disco. Começando declamada para depois ser cantada e, por fim, simplesmente berrada até praticamente perder o sentido, a “letra” da canção era improvisada em apresentações do grupo. “Yes sir, yes sir. Oh yes sir!”, repete. “Damaged I” serve quase como um desfecho narrativo para o disco, no final das contas o “personagem” de fato perde o controle.

“Damaged” foi produzido por Glen Lockett (mais conhecido como Spot), que também trabalhou com bandas como Minor Threat, Minutemen e Husker Du, e pela própria banda, que imprimiram uma sonoridade crua e explicitamente agressiva porém clara. A capa, uma foto de Ed Colver, mostra o reflexo de Rollins em um espelho partido como se o partisse com um soco. Um retrato sintético do conteúdo do disco.

No dia 5 de Dezembro de 1981, “Damaged” era finalmente lançado. O disco obviamente não conquistou recordes de vendas, os membros da banda não foram convidados para tocar no “We Are The World” e Henry Rollins não foi considerado um novo Bruce Springsteen. Pelo contrário, a violência do disco foi considerada ultrajante por grupos mais conservadores (mérito da banda). Por outro lado, jovens que não encontravam lugar em nenhum grupo social encontraram não só uma voz, mas também outras pessoas que pensavam de forma semelhante. Como se não bastasse, foram encorajados a expressarem suas próprias vozes artisticamente sem se importarem com a qualidade pop do ofício (mais um mérito para a banda). A atualidade de “Damaged” o impede de ser reduzido a “legado dos anos 80”. É um disco para ser ouvido hoje e pensado hoje.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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