aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Bob Dylan: o "repórter" do folk.

Como Bob Dylan, por fins estilísticos, fez uso de recursos da técnica de redação jornalística em canções da primeira fase de sua carreira.


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"A história eu tirei de um jornal, eu só mudei as palavras". Foi assim que Bob Dylan, fazendo sua estreia na televisão dos EUA no Steve Allen Show, em 25 de fevereiro de 1963, anunciou a canção The Lonesome Death Of Hattie Carroll. Interpelado pelo apresentador do programa sobre o significado de tal afirmação, o compositor resolveu que a própria música era capaz de responder por si mesma e logo começou a tocá-la. De fato, a canção realmente fala por si. The Lonesome Death Of Hattie Carroll conta a história real do assassinato da garçonete negra Hattie Carroll pelas mãos do judeu de classe média alta Willian Zantzinger, que ocorrera no dia 9 de fevereiro daquele ano, 16 dias antes da aparição de Dylan no Steve Allen Show.

Em outra apresentação, ocorrida no dia 8 de outubro de 1964, Dylan fez uso da mesma anedota que usara no programa de TV para introduzir a música Who Killed Davey Moore?, outra música baseada em um fato recente a sua composição e que havia sido explorado pelos jornais dos EUA. A canção tem como premissa a morte do boxeador Davey Moore, que ocorrera no dia 25 de março daquele ano.

A narração de fatos reais como forma de se passar uma ideia ou uma lição é recorrente no cancioneiro folk norte-americano. São as chamadas topical songs. É o caso de Titanic, do bluesman Leadbelly, que relata o naufrágio do transatlântico que batiza a canção, e 1913 Massacre, de Woody Guthrie (a figura mais importante na formação musical de Bob Dylan), que conta como um grupo de mineiros norte-americanos fora vítima de um massacre por ordem do administrador da mina em que trabalhavam.

bob-dylan-young.jpg Ainda um jovem imberbe, Dylan revolucionou a forma com que os norte-americanos viam a música folk

Nadando contra a maré dos artistas folk de sua geração, que se limitavam a reproduzir canções compostas pelos seus antecessores, Dylan resolveu criar seu próprio material, baseado em questões inerentes ao seu tempo. Entre elas, canções que tinham como mote fatos que chegaram a ele por meio de artigos noticiosos. É o caso de The Death of Emmet Till, Only a Pawn in Their Game, Oxford Town, entre outras mais.

Se na maioria dessas músicas Dylan se valia das notícias em si apenas como fonte de inspiração temática, a fim de refletir sobre a sociedade, em The Lonesome Death of Hattie Carroll e em Who Killed Davey Moore? ele dá um passo à frente, mostrando sua sagacidade como compositor ao apresentar, no material escrito, elementos inerentes às próprias normas de redação do jornalismo.

Em Who Killed Davey Moore?, Dylan atua como um repórter, recolhendo relatos de todas as testemunhas da morte do boxista com a pergunta “Quem matou Davey Moore, por que e por qual razão?”. Esse verso antecede as alegações, criadas pelo próprio cantor, do juiz que mediou o duelo, um pretenso representante do público que foi assistir à luta, o empresário de Moore, um apostador, e, finalmente, o próprio oponente de Davey Moore, cujo nome Dylan não revela na canção. Há nela um diálogo com o estilo jornalístico por meio do uso de diversas fontes de informação, elemento que é considerado imprescindível no trabalho jornalístico informativo. Além disso, Dylan não fornece seu ponto de vista (diretamente), apenas o dos “entrevistados”.

Se em Who Killed Davey Moore? Dylan encena uma apuração jornalística, tomando emprestado do jornalismo o recurso da pluralidade de fontes, em The Lonesome Death of Hattie Carroll ele faz uso de normas essenciais ao jornalismo informativo. Por definição, ele se refere ao “lide” e à “estrutura da pirâmide invertida” – estilos de texto jornalístico – com a apresentação das informações essenciais no primeiro parágrafo, por meio das perguntas “o quê?”, “quem?”, “como?”, “quando?”, “onde?” e “por quê?” para, no restante do texto, apresentar detalhes complementares.

The Lonesome Death of Hattie Carroll by Bob Dylan on Grooveshark

A primeira estrofe da composição é muito semelhante ao início de uma notícia. O primeiro verso apresenta os dois agentes do fato, William Zantzinger e Hattie Carrol, assim como a ação, o assassinato “William Zanzinger matou a pobre Hattie Carroll”, respondendo tanto o que aconteceu e quem foram os agentes. No segundo verso, segue narrando como Willian matou a empregada – “Com uma bengala que rodopiou em volta de seu dedo com anel de diamante” – para, no terceiro verso, divulgar o local onde o crime ocorreu – “Em um encontro social no Hotel Baltimore”.

Além disso, há de se observar a forma como The Lonesome Death Of Hattie Carroll foi escrita, com frases na ordem direta e verbos fortes, características básicas de um texto do jornalismo informativo. Ainda que tenha usado de fortes adjetivações, Dylan apresenta uma cobertura completa sobre o caso, revelando diversos elementos sobre ambos os personagens ao longo dos próximos versos.

Em ambas as canções, comprovadamente retiradas de notícias de jornais, Dylan usou mais do que a narrativa tratada, mas também da forma de se escrever pregada pelos manuais de estilo do jornalismo. Deve-se observar que, apesar de usar de recursos do jornalismo, Dylan não musicou matérias jornalísticas pura e simplesmente. As canções estão em linguagem poética, e o uso de elementos do jornalismo é apenas estilístico.

Elementos de outras áreas da arte e da literatura sempre deram as caras nas canções de Dylan, que é, com certeza, um dos artistas mais vigorosos dos últimos 50 anos. A forma com a qual ele usou elementos do jornalismo para fortalecer a poética de suas letras musicais só prova isso.

Até então, canções tópicas eram apenas narrações de fatos recentes, mas Dylan injetou nelas uma boa dose de modernidade ao abordá-las com elementos do jornalismo. Ora, eram os anos 1960, as atualidades não estavam mais sendo divulgadas predominantemente por meio da via oral, mas, sim, pelos jornais. Como fez e voltaria a fazer muitas vezes, Dylan renovou o folclore norte-americano ao usar esses recursos de estilo jornalístico em suas canções.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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