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Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Uma caminhada no lado selvagem com Lou Reed.

"Walk On The Wild Side", a canção que revelou o lado burlesco de Nova Iorque.



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Walk on the Wild Side by Lou Reed on Grooveshark

Em 1972, após ter revirado com valores da cultura pop ao juntar Chuck Berry com John Cage no Velvet Underground, Lou Reed lançava “Transformer”, disco mais célebre de sua carreira solo. Sob a tutela de David Bowie, Reed criou um álbum que se afastava da crueza do Velvet em prol de uma produção mais intrincada e rica em elementos. O resultado foi um disco deslumbrante.

Sob essa roupagem envolvente, que se aproximava do glam de seu amigo David Bowie, Lou Reed descrevia o underground nova-iorquino. Prostitutas e viciados, os freaks que habitavam a Factory de Andy Warhol (cujos tiros no peito que levara anos antes foram tema de “Andy’s Chest” - previamente gravada pelo Velvet Underground), esses eram os personagens do disco.

loureed2.png Joe Dallesandro, o "Little Joe" de "Walk On The Wild Side".

Na quinta faixa, um contrabaixo surge acompanhado de um toque suave de violão e um leve rufar de bateria. O amalgama dos três instrumentos traz instantaneamente a imagem de uma madrugada (as madrugadas não são monopólio das guitarras). Lou Reed entra quase sussurrando...a partir daí somos apresentados ao “lado selvagem” de Nova Iorque através de algumas das estrelas de Warhol: As travestis Holly Woodlawn, que “plucked her eyebrows (...) /shaved her legs and then he was a she”, Candy Darling, que “in the bathroom she was everybody’s Darling” e “(...)never lost her head/even when she was giving head” e Jackie Curtis, que estava apenas “speedin’ alway” pois “thought she was James Dean for a day” e “then i guess she had to crash/Valium would have helped that bash”, os atores Joe Dallesandro, identificado na canção como “Little Joe”, estrela de “Flesh” (uma imagem de Joe no filme viria a ser capa do disco de estreia do The Smiths), que viraria o maior sex simbol da Factory , e Sugar Plum Fairy, apelido de Joe Campbell, que fora ao Apollo Theater “(...)lookin’ for soul food and a place to eat”.

loureed3.jpg Candy Darling e Andy Warhol.

Ao final da canção, o saxofone de Ronnie Ross – ex-professor de Bowie - nos avisa que a madrugada está acabando. O sol já começa a dar sinais de seu surgimento, assim como a ressaca moral. “And the color girls say: do da do da do da do doo doo doo...”.

Baseada em uma novela de mesmo nome escrita por Nelson Algren e lançada em 1956, “Walk on the Wild Side” viria a se tornar o maior êxito de Lou Reed junto a “Heroin” (canção igualmente subversiva e inovadora) – da época do Velvet Underground.

Em 2005 o fotógrafo e cineasta Stephane Sednaoui, que trabalhara com artistas como U2, Garbage e Bjork (com quem fora casado) transportou a canção para o cinema. Em um curta-metragem de 10 minutos, Sednaoui apresenta livremente alguns dos diferentes personagens da canção e o próprio Lou Reed, além de brincar com as imagens de uma Nova Iorque setentista, mas não a das comédias românticas, e sim a dos michês, dos fetichistas e dos junkies,enfim, de todos que caminharam pelo caminho traçado por Lou Reed.

Henrique Fernandes Coradini

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