aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

David Bowie - "Aladdin Sane"

O Glam-Rock comercial porém complexo do segundo disco de David Bowie sob a alcunha "Ziggy Stardust".


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Em 1972, após o lançamento de “The Rise And Fall of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars”, nenhum artista do mainstream era tão moderno e surpreendente quanto David Bowie. O movimento mod já era passado longínquo, sendo relegado apenas a grupos nostálgicos isolados (que viriam a ganhar força alguns anos depois com o surgimento do The Jam), o idealismo hippie fora duramente desgastado e já não rendia grandes novidades. Nessa situação, dois artistas que havia tempos buscavam a fama sem conseguir êxito despontaram. Primeiro Marc Bolan, com seu T. Rex, depois Bowie (apelando para o clichê, “das cinzas fez-se glitter”). Como foi divulgado em uma matéria sobre Bowie publicada na revista Newsweek em 1972, era “uma época de confusão, um período de transição, um contexto apropriado para a soturna e satânica majestade da Inglaterra, David Bowie”.

Bowie surgiu no mercado como o artista ideal para aquele momento histórico. O visual obviamente chocante, a ambiguidade sexual, todos os elementos ficcionais que envolviam aquele ser alienígena e sua banda de aranhas marcianas, além, é claro, da musica – vocais que soavam como algo nunca ouvido antes unidos a arranjos os quais juntavam referências básicas do rock n’roll com elementos totalmente estranhos (ou “alienígenas”) ao gênero – além de estratégias de marketing maciças por parte do empresário Tony DeFries, ajudaram Bowie a tomar para si e para o Glam-Rock um posto de destaque na indústria musical. Há tempos envolvido com a cena musical, Bowie sabia que isso não era o bastante, que o sucesso podia ser efêmero e, se quisesse ser um grande artista, precisaria estabelecer-se. O próximo disco seria tão importante quanto aquele que o lançara ao estrelato.

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Assim surgiu “Aladdin Sane”. Um disco desacelerado em comparação a seu predecessor, que investe menos em peso – também presente – em prol de arranjos e melodias intrincadas. Em parte isso se deve a contratação do pianista norte-americano Mike Garson (o qual afirma ter conquistado o posto após tocar apenas 8 segundos de “Changes”, canção do disco “Hunky Dory”), cuja formação jazzista entrou em perfeita sintonia com as intenções musicais de Bowie. De fato, boa parte das canções do álbum possui o piano de Garson como protagonista, tendo seus pontos altos em “Lady Grinning Soul”, “Time” e na canção que dá nome ao disco. Não só o pianista recém-agregado, mas todos os integrantes da Spiders From Mars, principalmente Mick Ronson, cuja guitarra é onipresente na canção pré-Kiss "Cracked Actor", pareciam sincronizados com o projeto, o que resultou em um perfeito registro que extrapola o Rock n’Roll em formatos de Jazz, canções de musicais burlescos e música clássica.

O fato de as canções do disco terem sido compostas majoritariamente durante a turnê norte-americana de “The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars” tem sua influência escancarada em faixas como “Watch That Man”, canção rasgada a la Stones na qual Bowie descreve os fatos e personagens de uma festa em uma linguagem certamente advinda da influência que Lou Reed (seu ídolo e pupilo) teve sobre ele, e em “Panic In Detroit”, mais um hard-rock, dessa vez com o ritmo marcado por instrumentos de percussão, canção que descreve o tempo que Bowie passou produzindo o disco Raw Power, de Iggy Pop and The Stooges. Na canção, o cantor descreve seu amigo Iggy Pop (outro artista que viria a passar de ídolo a dependente de Bowie – ainda mais do que Lou Reed) como um Che Guevara do Rock n‘Roll.

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Os EUA, mais especificamente Seattle/Phoenix, também são referência geográfica em “Drive-in Saturday”, canção que relê as baladas dos anos 50 em um formato que soa estranhamente incomum. Quase alienígena. Porém, a canção parece ser direcionada à cena londrina – que tanto negara o sucesso a Bowie na década anterior. O tom falsamente nostálgico serve como um deboche vingativo aos membros daquela cena. Nem mesmo Mick Jagger, que depois viria a tornar-se amigo e, diz-se, amante de Bowie é poupado, sendo citado em uma homenagem que, ao mesmo tempo, dá a ideia de que o Rolling Stone era parte de um tempo passado. No outro lado do disco, porém, há uma versão acelerada da canção “Let’s Spend The Night Together”, lançada pelos Stones no disco “Between The Buttons”, de 1967. Como em “Drive-in Saturday”, Bowie nos apresenta algo conhecido em uma roupagem diferenciada, corroborando a marca extraterreste de seu alter ego Ziggy Stardust.

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A capa do disco, certamente a imagem mais icônica de David Bowie e uma das mais marcantes da cultura pop, presente em camisetas, bottons, pôsteres e apetrechos diversos tal qual o já citado Che Guevara, apresenta uma foto tirada por Brian Duffy (Mick Rock, fotógrafo que acompanhou maior parte da carreira de Bowie, não deve gostar nem um pouco dessa foto).

Anos depois, David Bowie confessaria a um repórter da NME que compôs o disco buscando moldar seu personagem Ziggy Stardust ao gosto dos fãs. Uma ferramenta para guardar definitivamente seu lugar no estrelato. O resultado foi uma obra que soa curiosamente intrincada demais para ser considerada comercial. O que não significa que “Aladdin Sane” não tenha sido um sucesso estrondoso, tendo atingido o maior êxito já registrado nas paradas de sucesso do Reino Unido e arregimentado definitivamente toda uma legião de fãs aos pés desse estranho ser chamado Ziggy Stardust (que Bowie “mataria” dois anos depois). Porém, se naquele momento “Aladdin Sane” significou pretensão comercial, hoje ele se destaca pelo que possui de intrigante. O segundo disco de Ziggy Stardust é hoje um dos únicos que surgem entre influências de grupos underground e também é citado em capas de revistas especializadas em moda.


Henrique Fernandes Coradini

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