aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

"Psychocandy" - açucar e distorção com Jesus And Mary Chain

Como o disco de estreia do Jesus And Mary Chain uniu a doçura do pop cinquentista ao rock anfetaminado e trocou as famosas "paredes de som" de Phil Spector por ondas de microfonia.


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Ninguém sabia o que pensar sobre o Jesus And Mary Chain em 1985. E não era por falta de tentativas. Uma reportagem transmitida em 15 de Março daquele ano mostra um repórter que, em tom de incredulidade e sensacionalismo, tenta desvendar quais os segredos e intenções daqueles quatro delinquentes em cima do palco. A reportagem é dividida em uma entrevista cheia de frases de efeito com os membros da banda (em certo momento o repórter observa que o contrabaixo de Douglas Hart possuía apenas duas cordas, ao que o baixista responde: “eu só uso essas duas, por que eu gastaria dinheiro nessas outras?”) e imagens do público ensandecido que podem lembrar os quebra-quebras ocorridos em shows de Bill Halley, os quais o fizeram ser acusado de hipnotismo e satanismo. Nada de respostas.

Em outra tentativa, dessa vez realizada pela televisão belga, os quatro membros do grupo estão sentados em um sofá bebendo algo que parece ser vinho. Junto a eles há uma garota que obviamente não faz parte da banda. Ainda durante a segunda pergunta realizada pelo apresentador, Bobby Gillespie, futuro líder do Primal Scream e então baterista do Jesus And Mary Chain, começa a beijar essa fã sem o menor pudor. Os outros integrantes da banda não estão nem aí. Parecem muito mais entretidos em derrubar, um a um, todos os clichês proferidos pelo entrevistador. Seja a comparação com os Sex Pistols (“não temos interesse no mercado independente, nós competimos com grupos como o Culture Club e Duran Duran”), ou com o Joy Division, quando o apresentador, obviamente um fã do grupo de Manchester, fica genuinamente atônito ao ouvir frases como “Joy Division é merda”, “não use Joy Division e o nome da nossa banda na mesma frase”. O Jesus And Mary Chain seguia um enigma.

Tal postura da banda colaborou muito para que um clima de hype fosse criado a sua volta. Quatro rapazes magros, portando cortes de cabelo exagerados em um visual que misturava os artefatos de couro dos motociclistas com o aspecto soturno dos beatniks. Uma postura que variava entre a intransigência adolescente e o blasé. Shows que começavam com vários minutos de puro barulho, momento no qual vários impacientes iam embora, e terminavam em tumultos generalizados. E, principalmente, aquela música. Um som primitivo sem deixar de ser doce. Guitarras ao máximo volume, um baixo – como já citado – de duas cordas, uma bateria de duas peças, bumbo e caixa, tocada com violência por Gillespie (de pé) e um vocal frio e desdenhoso. Tudo isso parecia transgredido por melodias mais próximas ao Shangri-las do que ao Sex Pistols. Esse era o segredo do Jesus And Mary Chain – a combinação entre motocicletas (as quais eles não possuíam), barulho e açúcar.

Ainda em 1985, o Jesus And Mary Chain lançava seu primeiro disco, “Psychocandy”. E, já na primeira faixa, o grupo revelava suas intenções. “Just Like Honey” começa com uma batida emprestada do clássico “Be My Baby”, produzido por Phil Spector e interpretado pelas Ronettes. Porém, a famosa parede de som de Spector aqui é substituída pela guitarra ultra distorcida de William Reid. A doçura da melodia é corrompida enquanto Jim Reid murmura sobre uma garota que atravessa o mundo com “sua colmeia pingando”. Analogias sexuais são complementadas com momentos de submissão quando Jim repete “i’ll be your plastic toy” (mas soa como “i’ll be your plastic toilet”). “Just Like Honey” continua sendo uma das baladas mais belas e profanas do pop.

“Psychocandy” alterna-se entre canções extremamente doces, números virulentos acompanhados por microfonias ensurdecedoras e passagens que misturam ambos, como “You Trip Me Up”, a qual tem, ao fundo, a melodia de “I’ll Be Your Mirror”, (Velvet Underground & Nico), “The Hardest Walk” e “Taste Of Cindy”, que seguem um formato bastante semelhante, e “Never Understand”. É possível notar, em todas essas canções, um tom de alienação quase cinquentista, mas que esconde certo fatalismo. Assim como o Jesus And Mary Chain insere peso na sonoridade adocicada das vocal-bands dos anos 50, suas composições parecem profanar ideais de inocência típicos dessa época que muitos tentavam reviver durante a explosão conservadora dos anos 80. É como se a vida suburbana colorida e cheia de sorrisos idealizada pelo sonho americano durante a década de 50 fosse transferida para o ambiente acinzentado da Escócia.

“Living End” é o ponto alto entre as canções mais agressivas do disco. Nela, a batida primal de Gillespie acompanha um ataque sonoro de microfonia que dá espaço para Jim Reid narrar a história – em primeira pessoa – de um motociclista que corre ao encontro da morte. O narcisismo intrínseco aos motociclistas dos anos 1950, idealizada em filmes como “O Selvagem” (com Marlon Brando), é aqui destacado em passagens como “I’m in love with myself”. Quando a morte chega, há nela certo glamour “my head is dripping into my leather boots”. “Living End” é, acima de tudo, uma canção sobre morrer jovem, belo e rebelde – antes de entregar-se à vida adulta.

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O peso de “Living End”, que faria o Jesus And Mary Chain ser chamado de “a banda mais alta do mundo” (o que eles nunca foram – vide o hardcore e o metal, que já haviam surgido na época), é acompanhado por canções como “Taste The Floor”, uma canção de desprezo que ganha força com o vocal pouco interessado de Jim Reid, “In a Hole”, típica canção de angústia juvenil da qual provém o momento mais emocional do disco (“Heart and soul, my heart and soul” – grita Jim Reid) e “Inside Me”, canção sobre o tédio e formas de fugir dele na qual Jim vê sua “cabeça expandir” enquanto o resto da banda faz o máximo de barulho possível.

O açúcar do disco fica por conta de músicas como “Cut Dead”, a qual esconde em seu andamento extremamente suave diversas pistas de um relacionamento nem um pouco sadio. “You made me fall, broke me up and took it all”, afirma Reid, para depois demonstrar que não tem intenção alguma de desistir, “call me your messed up boy”, aceita. Dando mais espaço para guitarras “Some Candy Talking”, que, tendo sido lançada anteriormente como single, entrara em apenas algumas edições do disco, repete o tom doce/profano de “Just Like Honey”. “A taste of something warm and sweet, that shivers your bones and rises to your heat”, procura Jim Reid.

O Jesus and Mary Chain nunca voltaria ao formato de “Psychocandy”. Seu disco posterior, “Darklands”, apostava em uma sonoridade mais adocicada e, mesmo em seus momentos mais pesados, dispensava as paredes de microfonia. A bateria minimalista de Bobby Gillespie seria substituída por uma bateria eletrônica e depois por outros músicos contratados, e, apesar de lançar ótimos discos, o Jesus and Mary Chain nunca voltaria para a ambientação de seu disco de estreia. O que não significa que outras bandas não o fariam. Há muito de “Psychocandy” nas microfonias e na temática do shoegaze que viria a surgir alguns anos depois com excelentes grupos como o My Bloody Valentine, o Slowdive e o Ride. Também há de se considerar o impacto do disco no surgimento do Psychobilly e no desenvolvimento do garage-rock oitentista. Grupos que resgataram o primitivismo do rock n’roll nos anos 80 devem muito ao disco de estreia do Jesus And Mary Chain. Até mesmo o grunge e o rock alternativo dos anos 90 (lembre-se de Sweverdriver e Jon Spencer Blues Explosion) e, obviamente, o Black Rebel Motorcycle Club, fãs confessos do grupo escocês que viriam a surgir no início dos 2000. Fora isso, com “Psychocandy” o Jesus And Mary Chain entrou para o seleto grupo de bandas cujas motivações nunca serão completamente compreendidas.


Henrique Fernandes Coradini

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