aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Nick Cave - o crooner torto de "From her to eternity"

A revisão do papel do crooner em um formato melodramático e expressivo realizada no disco de estreia de Nick Cave e seus Bad Seeds.


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Em 1983, uma das bandas mais caóticas e criativas que o punk viria a originar – não só (relutantemente) considerada a pedra fundamental do movimento gótico, mas também como um respiro no-wave fora de Nova Iorque, o Birthday Party não aguentou as pressões internas e foi rompida. Nick já não se identificava com a sonoridade da banda e suas composições estavam indo em direções totalmente diversas à identidade adotada pelo grupo. O caos generalizado (mas nunca gratuito) do Birthday Party não satisfazia seu vocalista, que vinha apreciando cada vez mais a figura mítica do cantor atordoado – crooners, bluesmen, cantores folk – e buscava inserir essa estética em suas composições.

Como quem aproveita momentos difíceis da vida como “turning points” da ficção, Nick Cave e o multi-instrumentista Mick Harvey resolveram permanecer em Londres e formar uma nova banda. Da união desses dois ex-integrantes do Birthday Party com os guitarristas Blixa Bargeld e Hugo Race, e também o baxista Barry Adamson (Mick Harvey assumiria, além do piano e do vibraphone, a bateria), surge o grupo Nick Cave The Bad Seeds. “As Raízes do Mal”, uma alcunha que prometia algo novo – rompendo, por si só, com o “Birthday Party”, “Festa de Aniversário” - que cresceria e se espalharia pela paisagem com efeitos negativos. Uma banda que não estava preocupada se sua “mensagem” não era necessariamente positiva ou se suas músicas despertariam o que havia de pior naqueles que as escutassem.

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Todos esses elementos ganhavam face na nova identidade artística de Nick Cave, que adotara de vez a postura crooner, adicionando a ela uma dose considerável (e inevitável) de bizarrice. Cave rompia a imagem imponente do cantor solitário, de voz grave e confiança inabalável que ganhara força com Elvis, Sinatra e Scott Walker, por exemplo, ao maximizar suas emoções ao extremo, muitas vezes manifestando-se de forma desesperada ao ponto de quase chegar ao caricato. Era o reflexo de uma fixação recente pelo cantor Leonard Cohen que Cave vira a desenvolver. A temática que misturava imagens religiosas com narrativas profanas do cantor canadense, unida a seu histórico depressivo explicito em suas canções que se alternavam entre elegância e êxtase fascinaram Cave, que viria a usar muito disso em sua nova trajetória.

Em 1984, Nick e seus Bad Seeds lançaram “From Her to Eternity” – trocadilho melodramático tirado do título de um livro de James Jones.

O disco começa justamente com um cover de Leonard Cohen. Avalanche”, com a qual o cantor canadense abre o álbum “Songs of Love And Hate”, uma canção de amor perdido na qual o cantor não dá qualquer sinal de autopiedade – “The cripple here that you clothe and feed/ is neither starved or cold/ he doesn’t ask for your company...” – na voz de Nick e nos arranjos da The Bad Seeds, é extravasada, ganhando ainda mais explosão dramática. O desabafo de um bêbado. Não há nada de elegante aqui. “You say you’ve gone away from me/ but i can feel you when you breath” admite o cantor como quem está ciente do próprio papel ridículo que vem desempenhando na relação acabada.

“Cabin Fever” remete aos tempos de Birthday Party. Uma série de sons repetitivos marcados pela percussão - que nunca permite ao ouvinte o encaixe da melodia na cabeça - são cenário para a descrição grosseira e desprovida de romantismo de um navio e seus tripulantes que Nick projeta de forma incontida. Não há nenhuma pista de diversão na voz do cantor enquanto ele literalmente uiva ao retratar a solidão de um capitão bêbado e indigno. “Cabin Fever” passa a exata sensação desconfortável de estar confinado com outras pessoas. Uma canção desconfortável e excelente.

“From Her To Eternity” segue com uma homenagem às origens profanas do blues com “Well of Misery”, que simula uma canção de prisioneiros obrigados ao trabalho forçado no sul dos EUA. A música é acompanhada por uma batida repetitiva como a dos instrumentos de trabalho dos presidiários (que usavam o som de suas picaretas como marcação do ritmo de canções que entoavam para tornar aquele momento menos desagradável) e cada verso de Nick Cave é repetido em coro pelos outros integrantes/prisioneiros. Óbvio que há um solo de gaita de boca para coroar a canção. O blues serve de modelo (torto) também em “Wings Of Flies”, “insects suicide against the window/ and my heart goes out to those lil’ flies/ there’s a buzzin’ in my ears/but is more of her blackmail, ham Shakespeare plus lies”, entoa, embriagado, Cave, acompanhado por um violão em slide. Na canção, o bluesman Cave brinca de bem-me-quer/mal-me-quer, mas troca as pétalas de uma margarida pelas asas de uma mosca, sendo condenado ao eterno “não-me-quer”.

A canção que dá nome ao disco é uma típica composição romântica de Nick Cave. Ou seja: perturbadora. Em “From Her To Eternity”, o cantor descreve sua obsessão por uma vizinha, da qual bebe as lágrimas que caem pelas frestas do assoalho. A melodia é marcada pelo piano espaçado e pelos rugidos de guitarra, formando, mais uma vez, um perfeito cenário para a “história” narrada pelo cantor. “Saint Huck”, canção posterior no disco, possui ambientação semelhante. Nela, o baixo de Adamson marca o ritmo para as inserções de bateria e guitarras enquanto Nick Cave fala (mais do que canta) livremente sobre o trágico destino de um jovem do interior que se aventura na cidade grande e acaba tendo de vender o próprio corpo.

O disco é encerrado por “A Box for Black Paul”, na qual Cave é acompanhado majoritariamente pelo piano de Harvey, tendo a chance de desenvolver definitivamente sua nova persona – o crooner torto. A música descreve, entre outras imagens, pistoleiros que atiram e afirmam “Fuck with us...and die!”. “...Black Paul” evidencia a influência de Cohen sobre as composições de Nick Cave ao passo em que figuras mitológicas, religiosas e profanas dividem espaço nos seus versos. Porém, a composição de imagens do australiano é ainda mais extrema que a já carregadíssima linguagem do canadense. Cave, como artista, vive de extremos.

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A capa de “From Her To Eternity” mostra o rosto de Cave em expressão vampírica, pálido, lábios avermelhados, mas com olhos vivos cuja expressão mistura interesse e desprezo pelo que pode ser tanto uma stripper quanto um filme B. Uma imagem que deve ter atordoado aqueles que – sem internet para consultas prévias ou posteriores - compraram o disco sem saber o que esperar e acompanharam as canções tentando desvendar esse estranho sujeito chamado Nick Cave que figurava na capa. Mesmo hoje, tendo atingido considerável apreço no meio alternativo, sendo um dos músicos mais importantes de seu país de origem e tendo uma de suas canções regravadas por Johnny Cash, ou seja, com uma exposição muito maior na mídia em geral, Nick Cave continua um mistério. O Nick Cave de “From Her To Eternity” não foi diluído no momento em que o cantor ganhou renome. De fato, talvez tenha se tornado ainda mais enigmático ao longo de discos como “Murder Ballads” e “The Boatman’s Call”, e (boa) parte disso se deve ao The Bad Seeds, esses brutamontes que sabem ir do mais agressivo ao lírico de maneira natural.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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