aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Oesterheld, o Eternauta e o regime militar argentino.

O maior clássico dos quadrinhos latino-americanos e a trágica história de seu autor.


eternauta1.jpg

Imagine o choque de observar que as principais ruas e avenidas da sua cidade cujo movimento intenso sempre foi alvo de suas reclamações estão agora inóspitas. Que o universo de cores das praças principais ou dos estádios tenha sido oprimido pelo cinza de uma neblina de origem desconhecida. Enfim, todos os lugares pelos quais você cruza ao sair de casa postos à prova pelo terror. Pois foi sob efeito desse terror que o roteirista Héctor Gérman Oesterheld e o ilustrador Martin Solano López puseram os leitores do jornal argentino Hora Cero entre os anos de 1957 e 1959, quando a história em quadrinhos “O Eternauta” foi publicada em forma de tiras semanais. “O Eternauta” conta a história de Juan Salvo, um típico argentino pequeno-burguês que, ao olhar pela janela de sua casa durante uma reunião com amigos, depara-se com a improvável imagem de uma rua coberta por neve. A perplexidade do grupo só aumenta ao notarem que o do lado externo da casa passou a ser extremamente tóxico, sendo capaz de matar uma pessoa em questão de segundos. Assim começa a jornada de Juan e seus amigos perante o desconhecido. A simplicidade dos “uniformes” usados pelos personagens, simples roupas de mergulho, capazes de protege-los do ar tóxico do exterior, contrasta com os trajes majestosos dos heróis norte-americanos, tornando a imagem do Eternauta ainda mais icônica. Anti-militarização e valorização da força coletiva O impacto da história em quadrinhos não se deve apenas à narrativa pungente em seus mistérios e dotada de um pessimismo macabro (e poético), mas também ao fato de que o cenário era a própria Buenos Aires. Um dos maiores méritos de Oesterheld e López em “O Eternauta” foi justamente criar um conto de ficção científica no próprio ambiente onde seus leitores viviam. O roteiro dos quadrinhos passa por lugares famosos como a Avenida General Paz e o Estádio Monumental de Nuñez, do River Plate.

Criar essa noção pontual e geográfica de horror não foi uma decisão tomada meramente como forma de tornar a história mais atraente, mas também como uma analogia ao horror imposto pelo regime militar após a infame “Revolução Libertadora”, golpe militar liderado pelo General Eduardo Lonardi. Sob a ditadura do também general Pedro Eugenio Aramburu, comunistas e peronistas perderam seus direitos políticos e passaram a ser intensamente perseguidos. Assim, a Buenos Aires devastada por criaturas de outro plano em “O Eternauta” não contrastava em todo da Buenos Aires calejada pela ditadura de Aramburu.

eternauta2.jpg

De fato, Oesterheld não se privou de apresentar seus pontos de vista sobre as principais instituições argentinas. No decorrer da história o escritor enfileira críticas à postura de entidades militares e governamentais, todas implicitamente encaixadas na narrativa. Todos os órgãos que Oesterheld considerava corruptos têm um lugar na história desempenhando papéis análogos aos que possuíam na vida real. Por outro lado, “O Eternauta” valoriza a união entre as pessoas “normais”, prega que o homem comum, sozinho, não chega a lugar algum, mas, unindo-se aos outros a sua volta, ganha força. O personagem principal é um sujeito sem nada de extraordinário a não ser sua coragem e sua capacidade de trabalhar em grupo, admirar as diferenças entre uns e outros e saber que cada um é capaz de desempenhar um diferente tipo de tarefa. A importância da união, do trabalho em grupo e da solidariedade como ferramentas para se chegar a objetivos é algo constantemente destacado na história. O trágico fim de Oesterheld e a adoção do autor como símbolo Oesterheld seguiu cada vez mais engajado, chegando a lançar, em 1968, uma biografia em quadrinhos de Ernesto Che Guevara e, em 1969, uma nova versão de “O Eternauta” na qual fazia críticas ainda mais explícitas à atuação dos militares e dos políticos da direita argentina e, em 1976, começou a escrever uma sequência ainda mais agressiva para a história. Desnecessário declarar que virou figura non grata entre os que circulavam nesses meios.

Após novo golpe militar na Argentina, os quadrinhos de Oesterheld foram sumariamente proibidos no país. Porém, assim como o personagem principal de “O Eternauta”, Juan Salvo, vagavam pelas ruas na clandestinidade.

eternauta3.jpg

Em 1977, o quadrinista juntou-se aos milhares de argentinos que sumiram durante o período ditatorial do país. Assim como ele, suas quatro filhas – duas delas grávidas na época – também foram “apagadas” pelo regime. O paradeiro deles é um mistério até hoje.

O sumiço repetino, porém, só serviu para elevar a imagem do Eternauta, fundindo o personagem ao seu próprio autor, a símbolo da luta contra a ditadura. O personagem é até hoje visto como um representante daqueles que desapareceram (ou melhor, “foram desaparecidos”) sem deixar pistas. Stencils de Juan Salvo usando seu uniforme enquanto caminha podem ser vistos nas paredes por toda a capital argentina (imortalizando também a memória do ilustrador Solano López, que viera a falecer em Agosto de 2011). São como espectros daqueles que não estão mais aqui fisicamente, mas continuam vagando pelo imaginário e pelas lembranças sem jamais serem esquecidos.

Em 14 de Março de 2013 a justiça argentina ratificou a prisão perpétua de Reynaldo Bignone, o último ditador do regime militar. Por outro lado, Jorge Mario Bergoglio, acusado de ter colaborado em ações da ditadura contra ativistas de esquerda, foi eleito Papa. A caminhada do Eternauta está longe de cessar. De fato, o herói finalmente conseguiu atravessar uma fronteira sempre fechada à cultura de seus países vizinhos (enquanto atenta ao que é produzido em um certo país da América mais acima). Em 2011, a editora Martins Fontes lançou uma edição de luxo da primeira versão de ”O Eternauta”. Um herói que não pode levantar um carro com a força dos seus próprios punhos, mas que tem o poder de carregar o fardo de nossas lembranças. Um herói tipicamente latino.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// @destaque, @obvious //Henrique Fernandes Coradini