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Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Entrevista/galeria - os seres antropomórficos de Gerson Corrêa

As feras antropomórficas invadem o cenário urbano nas obras de Gerson Corrêa. Saiba o que o autor das peças tem a dizer sobre elas.


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Em "Natureza Selvagem", o artista gaúcho Gerson Corrêa explora o diálogo entre figuras antropomórficas e a ambientação urbana. Baseando-se em material coletado nas páginas de bestiários, no imaginário folclórico/supersticioso do Brasil (e de fora) e nos próprios produtos da cultura de massa, Gerson criou feras humanoides que refletem a própria vida na cidade. Uma fábula contemporânea coerente com seu cenário.

Falei com Gerson sobre a produção criativa e técnica de "Natureza Selvagem":

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Descreva o processo de criação das peças de “Natureza Selvagem”.

Gérson Côrrea: Ao elaborar as figuras, procuro inspiração nas lendas, no folclore, nas mitologias e até na cultura de massa. Tudo isso diz respeito àquilo que somos e ajuda a contar parte da nossa história. Mitos que ajudam a perpetuar culturas, fábulas e suas lições de moral, etc. E depois é cruzar isso com aspectos da sociedade contemporânea, a presença dos animais nas grandes cidades e seu convívio com os humanos. Os desenhos são produzidos em guache lavado, que é uma técnica relativamente simples e de aspecto bem rústico. Resumindo seria produzir imagens através da mistura entre o guache e o nanquim, sobre um suporte de papel bem resistente. Porém, os efeitos e detalhes não são alcançados apenas com pinceladas, mas também da habilidade em controlar as manchas causadas pelo impacto da água corrente sobre a tinta. Depois os desenhos são cortados e ficam prontos para serem colados. É um processo longo e trabalhoso que exige bastante tempo e espaço. Por fim vem o momento de sair às ruas pesquisando lugares para fixar as imagens e fotografá-las.

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Porque criaturas antropomórficas?

GC: Primeiro porque a principal questão abordada é a relação do ser humano com os animais, o conflito interior dele com seus instintos, a negação de sua natureza, como isso afeta seu modo de vida e o leva a transformar significativamente o mundo ao seu redor. Criaturas antropomórifcas se encaixam muito bem nesse perfil. Depois tem o fato de que encontrei uma grande referência nos bestiários da antiguidade. Bestiários são aqueles livros que reuniam uma série de criaturas (reais ou imaginárias) e descreviam suas características. Através delas os autores refletiam sobre o comportamento humano, a cultura de uma determinada região do mundo ou então criavam alegorias religiosas. Há um material bem vasto disponível na web e as referências apontam para inúmeras culturas bem diferentes entre si. Pretendia criar algo semelhante a estes livros, mesclando com características da arte urbana e as demais referências que apontei antes. É um trabalho em evolução, ainda pode ser melhor desenvolvido e aprofundado.

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Nos conte um pouco sobre a escolha das cores que compõem as peças.

GC: As imagens foram todas feitas em preto e branco, como nos bestiários mais tradicionais e primitivos. Gosto de trabalhar com alto-contraste e focar mais nas formas e texturas. Isso também ajuda a destacar bastante os desenhos.

Como a ambientação urbana o influenciou na criação dessa versão distorcida da natureza?

GC: No momento em que decidi que a pesquisa seria realizada nas ruas, todos os elementos característicos do meio foram levados em consideração e acabaram por influenciar e transformar o trabalho. Todas as figuras tem alguma relação específica com a localidade onde foram dispostas. Em alguns momentos o local é escolhido em função de sua arquitetura, pois isso ajuda a dar uma sensação de movimento e tridimensionalidade aos desenhos. Em outros lugares o mais importante está na relação entre as figuras e as mensagens pichadas nas paredes por outras pessoas. Algumas dessas mensagens inclusive influenciaram diretamente na concepção de alguns desenhos, assim como algumas das figuras fixadas nas ruas deram origem à novas mensagens. Esse diálogo com as ruas talvez seja a parte mais interessante do trabalho.

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As peças de “Natureza Selvagem” não foram produzidas originalmente para serem expostas na rua, não? Como se deu essa parte do trabalho?

GC: Não, inicialmente foram pensadas para comportar um espaço que se assemelhasse ao formato de um livro, ou de uma página de livro, mas em escala maior. Isso devido à maioria das minhas influências. Estava sendo planejado para o interior de uma sala, como parte de uma galeria ou museu. Durante algumas experimentações surgiu a idéia de trabalhar as figuras tentando passar a idéia de que se tratavam de criaturas reais e não apenas representações delas. Isso de que elas estão habitando a cidade, se locomovendo pelas ruas e interagindo com as pessoas acabou se tornando algo fundamental.

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Onde é possível encontrar mais de seus trabalhos?

GC: Meus trabalhos estão disponíveis apenas no meu portfólio virtual e o melhor meio de contato é pelo Facebook.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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