aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

5 perguntas e 5 quadrinhos com Chico Felix

5 perguntas e 5 quadrinhos com o quadrinista, músico caótico e adepto da cultura trash Chico Felix.


chico felix - cowa fuckin bunga.jpg

Adepto da cultura trash e da música alta (e segundo o próprio,quando jovem, da cola de sapateiro e da escrotice), Chico Felix traduz essas duas linguagens - que não são alheias uma a outra - em seus quadrinhos. Com um traço que remete tanto aos Hot-Rod monsters de Ed "Big Daddy" Roth quanto às manifestações escatológicas do brasileiro Marcatti, o curitibano vem se destacando em publicações diversas, como Mad, Prego (que já apareceu por aqui) e seu trabalho próprio, Gente Feia na Tv.

Falei com Felix sobre quadrinhos, cultura trash e ser um roqueiro punk. De quebra, ainda rolou uma lista com cinco quadrinhos marcantes pra ele:

Como a música suja influencia teus quadrinhos? Chico Felix: É tudo parte do mesmo pacote: música, quadrinhos, desenho animado, vida ruim e historia pra contar.

chico félix - batmoto.jpgO Cavaleiro das Trevas na visão de Felix

E como eles complementam e são complementados pelo som que tu faz com a Evil Idols. Existe um diálogo entre ambos?

C.F.: O Evil Idols existia há uns 9 anos antes de eu entrar, desde o começo tocamos juntos com outras bandas que eu tinha: Pluto, Morte Asceta, Jesus Mongolóide, etc, eles pararam por um tempo, e quando voltaram me chamaram pra uns shows de reunião, fui efetivado num show com o Muzzarelas em Campinas e a banda voltou definitivamente, fizemos umas musicas novas e temos tocado nos últimos anos. A gente vive todo dia essa parada de musica suja, cerveja e cultura B, até quando não tá fazendo nada. Apesar de uma banda ser um lance coletivo, o resultado final, seja por papel ou por amplificador vem da mesma experiência. Também toco em outra banda punk rock chamada Vida Ruim.

chico felix - vida ruim.jpgArte de Chico Felix para sua banda Vida Ruim

O que veio antes pra ti, o rock n’roll ou os quadrinhos? C.F.: Eu desenho desde criança, quando comecei a ler meus pais não censuravam nada, então lia Chiclete com Banana, Animal, e essas revistas já tinham uma pegada punk/rock n’roll. Através dessas revistas conheci Crumb, Marcatti, William Burroughs, etc. Aí saí do subúrbio do Rio pra Curitiba, cheguei aqui falando MERRRMO, aí fudeu! Era treta todo dia, ia mal no colégio. Fui ficando revoltado, no começo era aquele negocio de chutar lixo, cheirar cola e ser escroto, comecei a ouvir um som e aí veio a parte cultural, que caiu como uma luva com o que eu já gostava. Nessa época eu nem desenhava mais, mas me liguei que a música que eu mais gostava era parecida com os quadrinhos que eu mais gostava: era esculhambada, irritava os caretas, e apesar de parecer estúpida, era mais inteligente que o monte de porcaria que fazia sucesso na tv e rádio. Então foi como ter juntado duas partes da mesma coisa. Do envolvimento com bandas e shows, veio uma demanda por cartazes, capas de disco, fita, e acabei voltando a desenhar por conta disso e comecei a fazer zines juntando musica e quadrinhos. E ainda sigo esse mesmo molde.

Thumbnail image for chico félix - screamin' jay hawkins.jpgScreamin' Jay Hawkins

Tu faz uso de várias figuras marcantes da cultura trash, como esse meio surgiu em sua formação?

C.F.: Toda essa cultura b não foi uma coisa de uma hora pra outra, desde ir ver a Monga - a mulher gorila - no Tivoli Park quando eu era moleque, passando pelos desenhos do Droopy toda tarde na tv, são anos indo na mesma direção, absorvendo e participando nisso que é considerado lixo, só que entendendo o valor dessas manifestações, seja uma banda de hardcore que só tem um compacto, mas que tu sabe que é melhor do que TUDO que já tocou na rádio, até um filme feito sem grandes recursos, mas que tem mais tesão e diversão que tudo que tem concorrido ao Oscar. Na verdade o que chamam de trash, é na maioria das vezes muito mais inteligente que o mainstream, só que com uma ironia canalhocrata que afasta os otários e pedantes.

Thumbnail image for chico félix - trashcan records.jpgChico Felix na lixeira

Aonde tu vem tendo trabalhos publicados atualmente?

C.F.: Gente Feia na TV, que é minha própria revista, está com uma nova edição pronta pra ser lançada. Também publico na PORK, Mad e na Prego, que participo desde o número um, essas são as mais constantes. Agora acabou de sair um zine espanhol do Dr. Chainsaw, chamado Rattenkönig, e há pouco tempo saiu o Peruano Godzilla. Fora isso tem um monte de coisas com ilustrações e artes diferentes: acabei de terminar uma arte pra banda Electric Frankenstein, uns cartazes pros shows do Hey Tonight de Milwalkee, e uma camiseta pras Baratas de São Paulo.

[Chico Felix também é responsável pela capa do novo EP da banda Ornitorrincos, que também já passou por aqui]

Chico-Felix-Gente-feia-na-TV.jpgCapa de Gente Feia na TV

5 quadrinhos que servem de referência para Chico Félix Wallaye, Jano: comprei na banca quando saiu porque conhecia o traço do Jano pela Animal, esse quadrinho se passa na Africa, e ele esteve lá por um tempo. Jano tem a manha de passar os detalhes, a personalidade desses lugares, como ele fez no album do Rio.

glaucomix_2.jpgArte de GlaucoMix

GlaucoMix, Glauco Mattoso e Marcatti: li esse album ainda moleque, Já conhecia uma das historias que saiu pela Chiclete, mas ler todas assim juntas, foi um soco na cara, ainda mais naquela época, mais conservadora que hoje em dia.

Don Martin Dá seus Pulinhos, Don Martin: é um livro de bolso com várias historias do mestre, o ritmo e a maluquice me marcaram muito. Especialmente na historia da cabeça mais dura do mundo, que tem um clima Hollywood valeta.

elektra_assassin_03.jpgArte de Elektra Assassina

Elektra Assassina, Frank Miller e Bill Sienkiewicz: mais uma que li quando saiu na banca, e tive que ler mais de uma vez pra entender. Tem muita coisa ali, e a arte vai mudando o tempo todo, bem diferente de tudo que existia, o Sienkiewicz ripava as paginas usando tudo o que estivesse ao alcance dele pra trazer o clima de paranóia e conspiração da historia.

Popeye, Elzie Segar: saiu pelo brasil um livro compilando essas tiras há muito tempo. É bem diferente do Popeye do desenho. As historias tem sacanagem, porradaria, romance, ação, aventura e criticas a sociedade. O Popeye original é a base do que o Crumb e cia fizeram depois nos quadrinhos underground. Mais um exemplo de entretenimento besta rico em vitaminas e sais minerais.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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