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Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

5 perguntas e 5 quadrinhos com Diego Gerlach

O quadrinista gaúcho Diego Gerlach fala de seus quadrinhos e destaca as cinco HQ's que marcaram sua vida.


gerlax - 01.jpg

Em seus quadrinhos, Diego Gerlach aborda relatos viscerais (tanto em forma como conteúdo) da decadência boemia da vida na cidade acompanhando o safári urbano de drogas, violência e prostituição com um fascínio tanto grosseiro quanto sofisticado. Ao mesmo tempo, homenageia personagens sagrados dos quadrinhos sem deixar de subvertê-los quando os insere em seu universo próprio.

Enchida toda essa linguiça, há de se dizer que os quadrinhos de Gerlach estão entre os mais interessantes e intrigantes produzidos no Brasil atualmente.

Falei com o gaúcho atualmente alocado na cidade de São Leopoldo, que respondeu cinco perguntas e ainda listou cinco quadrinhos essenciais para sua formação.

gerlax - frita tudo.jpg "Frita tudo".

- Teus trabalhos abordam temas tipicamente urbanos. De que forma esse espaço ganha vazão criativa nos teus quadrinhos?

Diego Gerlach: São interpretações dos espaços/cidades em que vivi a maior parte da minha vida. Agora, por exemplo, vivo numa cidade onde o limite entre boemia e marginalidade não é lá muito claro, e acabo tendo interações muito interessantes, com pessoas que levam vidas bem diversas da minha. Isso me inspira.

gerlach1.jpgIlustra de Diego Gerlach

- Tu costuma usar referências dos quadrinhos mainstream situando-os em cenários decadentes. Como essa “degeneração” serve ao teu processo criativo?

D.G.: Tem a ver com o que eu disse antes, e com como isso acaba filtrado pelas minhas influências no cartum e nos quadrinhos. Cresci lendo gibis que jamais seriam confundidos com “quadrinho de autor”, e uma das coisas mais divertidas era ver como diferentes artistas interpretavam o mesmo ícone. O meu estilo, atualmente, pende para essa estética do desgaste, da degeneração, e aplico isso como uma variação daquilo que sempre me trouxe satisfação, como leitor.

gerlax - fantasma.jpg "Vocês se foderam na minha".

- Ainda nessa linha, tu mantém um apego especial pelo personagem Fantasma – como surgiu essa afinidade?

D.G.: Quando voltei a desenhar, ali por 2007, encontrei um monte de gibis do Fantasma num sebo em São Leopoldo, e me afeiçoei a eles. Tinha lido na infância a primeira história do personagem, desenhada por Ray Moore, e algumas poucas outras, mas não tinha me apegado tanto. A ingenuidade das histórias me cativou, além do design ultrabásico do uniforme do personagem, da atmosfera pulp, do traço dos principais artistas que ilustravam os roteiros de Lee Falk, etc. Sentia que várias facetas da mitologia do personagem eram subdesenvolvidas, e ofereciam terreno fértil pra alguma intervenção.

gerlax - jamais vu.jpg Capa de Jamais Vu.

- O que te influencia em outros setores da arte?

D.G.: Música, cinema, design, artes visuais em geral... Quadrinhos não são necessariamente a interação entre ‘texto e imagens’, como é rotineiro dizer, mas sim a relação de ritmo que se estabelece entre um conjunto de imagens (o texto na verdade sendo opcional) a fim de criar arte seqüencial. Ritmo é a palavra chave aqui, e a edição de um filme, o andamento e a pegada específicas de uma música, o uso da gestalt em uma peça de design.... todas essas coisas impregnam minhas HQs, mesmo que para o leitor isso seja irrelevante.

gerlax - briga.jpg Briga feia.

– Impresso e/ou online, onde tu vem publicando atualmente?

D.G.:Atualmente publico uma tira online no site da Revista Prego, “RUTÊRA”. O mote da tira é “punk rock blefoso” e variações sobre o tema. Tem uma série de histórias no prelo, mas algumas dessas publicações ainda estão no ar (não sei ao certo se ocorrerão de fato), então não vou listar. De qualquer forma, a maioria das histórias que produzo se passa dentro de um mesmo universo compartilhado, e eventualmente serão compiladas em algum álbum só meu. O primeiro volume de “Pinacoderal”, esse projeto no qual trabalho há alguns anos, está programado para 2014.

gerlax - fantasma2.jpgDuas linhagens do Fantasma - Gerlach à esquerda.

As cinco histórias em quadrinhos essenciais para Diego Gerlach.

D.G.:(Esses não são necessariamente meus favoritos – não sei se tenho favoritos - são gibis que me marcaram muito e que por algum motivo sempre releio.)

gerlax - antropomorfos-capa.jpg Arte de "Música Para Antropomorfos", hq/álbum da banda Mechanics.

- Música Para Antropomorfos”, Fabio Zimbres: Tem a distinção de ser um dos únicos trabalhos longos do Zimbres - influência-mor para nove entre dez dos quadrinistas brasileiros atuais. Insurreição, robôs gigantes e amor inter-espécies no traço implosivo de um mestre.

- Superaventuras Marvel # 92, Vários. Essa edição tem um mesmo episódio envolvendo Justiceiro e Demolidor, contada dos pontos de vistas dos dois personagens - com roteiros de Mike Baron e Ann Nocenti, respectivamente. Foi a primeira vez que tive contanto com heróis sombrios, um contato que não pode ser subestimado, em se tratando do meu próprio trabalho como quadrinista.

- “Aparecida Blues”, Biu e Stêvz. Uma das grandes histórias da leva recente de quadrinhos nacionais. Reflexões tão melancólicas quanto viscerais sobre vida, morte e música, com um senso de ritmo e design matadores. Sinto inveja.

- Eightball # 23 (“The Death Ray”), Daniel Clowes. A primeira história do Clowes que me pegou de verdade, embora já tivesse lido “Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro”. Uma história de (de)formação disfarçada de narrativa super-heróica. Absolutamente desconcertante e impecável, do delineamento dos personagens ao formato à variedade de recursos gráficos.

- “Powr Mastrs”, Christopher Forgues. Essa história ainda não foi inteiramente publicada (ao que parece o quarto volume ainda está no prelo), mas “Powr Mstrs” já é uma das minhas prediletas. O traço a lápis vagamente infantilizado, o uso de espaço negativo , os flertes com a abstração, a atmosfera de fantasia bizarrra... Uma das últimas vezes que meu queixo caiu ao ler uma HQ.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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