aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Ornitorrincos - entrevista e faixa-à-faixa

Uma das bandas mais importantes do underground brasileiro, a Ornitorrincos se prepara para lançar um EP em vinil que será distribuído no Brasil, na Argentina e na Europa - tudo no velho esquema "faça você mesmo". Falei com o vocalista Daniel Villaverde sobre o novo disco, as raízes interioranas e outras coisas mais. De quebra, Villa ainda comentou as faixas do EP que está para sair.


orni.jpg Capa do EP "Ornitorrincos" - arte de Chico Felix

Assim como o animal que dá nome à banda, a Ornitorrincos causa tanto estranhamento quanto empatia em um primeiro olhar. Ao contrário da maioria das bandas do círculo punk/hardcore brasileiro, o conjunto radicado em Porto Alegre não tenta soar metropolitano, pelo contrário, dá grande vazão à criação interiorana no processo criativo. A leitura moderna de arranjos hardcore feita pelos Ornitorrincos - tanto reciclando quanto fugindo de clichês do gênero - destoa da imagem dos integrantes do grupo, ao invés de uma piazada entre 17 e 20 anos, vê-se pais de família e contribuintes entre os 30 e os 40. Esses são apenas dois elementos entre todos que poderiam ser listados pra explicar porque a Ornitorrincos é hoje uma das bandas mais interessantes do Brasil.

Conversei com a lenda viva do underground brasileiro Daniel Villaverde (entrevista-lo com uma pauta definida, sem poder desviar o assunto, é um desafio para qualquer jornalista) sobre o novo registro da banda, um EP em vinil que leva o nome “Ornitorrincos”:

O que se pode esperar desse novo registro da Ornitorrincos?

Desde 2008 não fazíamos musicas novas, a banda teve essa parada logo depois do show de lançamento da coletânea “Conspiração Coração ao Contrário” (junto com Estudantes, Homem Elefante, Renegades of Punk e Velho), que foi no finado e saudoso Dr Jekyll. Resolvamos voltar a tocar e recrutamos para a guitarra o nosso velho amigo Guilherme Gonçalves, que deu um gás na banda. Fizemos rapidão esses 5 sons que sairão no disco. Acho que não muda muito da nossa sonoridade inicial, a proposta é a mesma punk hardcore sem firulas, influenciado por MDC, Fear, Dead Kennedys, Germs, Circle Jerks e afins.

- Como ocorreu o processo de gravação e produção do disco?

Gravamos ele em fevereiro desse ano, no estúdio Hurricane, com o Sebastian Carsin. Foi um clima muito descontraído, e foi ótimo gravar com ele. O Sebastian vem da cena metal, e tem muito conhecimento da sonoridade que a gente queria. Ele tocou em bandas de metal no Uruguai nos anos 90, também é musico e conhecedor de bandas dos mais variados estilos, dentre eles o punk/hardcore.

ornitorrincos.jpg Ornitorrincos em ação. Foto de Victor Balde

Por que optaram pelo formato vinil/EP?

Optamos pelo formato em EP 7” em vinil primeiro porque é um antigo sonho, e depois porque hoje em dia é mais barato comercializar o vinil do que o CD. Vamos fazer 300 copias. Vai sair no Brasil pelo meu selo, o Punch Drunk discos, na argentina pelo selo Ideas Venenosas e na Europa pelo selo francês Crapoulet Records. A arte ficou a cargo do nosso camarada curitibano Chico Felix colaborador de revistas como Mad e Prego, além de baixista do Vida Ruim e Evil Idols. Multitalentos o cara!

- Assim como em “Criminales y Sus Premios” (2006), em “Ornitorrincos” tu optou por escrever/cantar em espanhol. Pergunto: a troco de quê?

Sempre gostamos de bandas espanholas como Eskorbuto, Las Vulpes, assim como bandas argentinas, Massacre Palestina, Los Violadores, entre outras. Na realidade cantamos em um espanhol tosco que mais é um portunhol. Acho que a língua espanhola é muito forte e soa muito bem no punk rock. Além disso, temos uma proximidade muito próxima e forte com as cenas do Uruguai, Argentina e Chile, temos muito amigos lá.

daniel.jpg Daniel Villaverde em momento Descendents - foto: acervo Punch Drunk Discos

- O sotaque interiorano é parte importante da Ornitorrincos. As raízes patrulhenses [Villa e Insekto, baixista da banda, são naturais de Santo Antônio da Patrulha - RS] da banda continuam audíveis nesse novo EP?

Com certeza! Todos da banda são do interior, apesar de morarmos em Porto Alegre já há alguns anos. Eu e inseto (baixo) somos de Santo Antônio da Patrulha, Lucas (bateria) é de Santa Cruz do Sul e Guilherme (guitarra) é de Lajeado. Somos piás do interior perdidos na capital!

- A Ornitorrincos vai um dia lançar uma música com mais de três minutos?

Temos planos de fazer uma musica de uns 45 minutos com um só acorde repetindo uma só palavra, mas como têm acordes e palavras demais para decidirmos, ficamos em musicas de 1 minuto e pouco mesmo.

“Ornitorrincos” (2013) - Faixa-à-faixa

Seguridad vs. Insecuridad: A musica é do Insekto. Eu fiz a letra na época que eu tava escutando o “My War” do Black Flag, ela fala de mania de perseguição e coisas assim. É também sobre preferir que as coisas da vida continuem como estão, a insegurança é as vezes melhor que a segurança, porque daí o tombo não é tão grande. A vida nos ensina isso, os tombos tropeços que ela nos dá, também.

20 de Septiembre: Uma critica daquela arrogância típica do gaúcho, que beira a xenofobia muitas vezes, que nos da vergonha alheia. “porque aqui no sul é melhor e blá blá blá” aquela ladainha toda de sempre. Não temos fronteiras e somos cosmopolitas.

Volvi a Patinar: Uma pequena homenagem a todos que depois de velhos voltaram a andar de skate. Escrevi ela logo depois de um passeio de skate na pista do IAPI. O skate esta presente em muitas canções do punk: bandas como Fraction, Agression, Big Boys, JFA e nacionais como Grinders, cantam sobre a emoção e energia de embalar a tabua com quatro rodas.

Ca(hos)pital: É um poema na linha do concretismo, do Insekto. Uma critica ao sistema de saúde, onde o dinheiro decide quem vive e quem morre. Também uma homenagem ao poeta Decio Pignatari.

Diarios, Tele y Internet: o acesso de informação e o fácil acesso a ela não é sinônimo de verdade. Quantas noticias falsas vemos por aí. Quantas vezes mataram o Chavez? Essa é uma piada interna “quantas vezes mataram o Chavez”.

PS: As duas últimas músicas do EP ainda não foram disponibilizadas no Bandcamp da banda.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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