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Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

5 perguntas e 5 quadrinhos com Dr. Insekto

5 perguntas e 5 quadrinhos com o artista gaúcho Luiz Gustavo Vargas da Silva - o Dr. Insekto.


desconexões neurais.jpg Capa do Zine Desconexões Neurais

Veterano no underground brasileiro, Luiz Gustavo Vargas da Silva , o Dr. Insekto, atua como poeta, músico (em bandas como a Ornitorrincos - que já passou por aqui - e Change Your Life), participa de projetos cinematográficos e ainda arranja tempo para ser quadrinista.

Esse caráter multifacetado do gaúcho de Santo Antônio da Patrulha que atualmente vive em Porto Alegre é visível em seus quadrinhos. Neles, o artista caminha por diferentes temáticas e estéticas, variando entre viagens psicodélicas e monólogos nos quais ele mesmo é o protagonista.

Após diversas tentativas, o Aleatoriedades finalmente conseguiu conversar com Dr. Insekto, esse ser meio Robert Crumb, meio Ed Wood.

003 _sacos divertidos copy_letreiro_RGB_72DPI_WEB.jpg "A vida é um saco"

De que metamorfose surgiu o Dr. Insekto?

Insekto: Sou o pai do Cassiano Gustavo. Venho do Planeta INSECKTHOX, de INSEKTRON, perto de Insektópolis e Insektolândia, mas sobre minhas andanças terrestres tudo que faço até hoje vem da infância, desenhava direto e tenho muita influência do meu pai, que, além de escritor, fazia quadrinhos e do meu tio Nélson Osíris que lançou um livro de tirinhas “As Macacadas”. Então fazia quadrinhos, porém não levava a sério (ainda) como escritor. Aos 8 anos de idade comecei a escrever meu primeiro livro de poesias, Minha Primeira Vida, publicado em 1988 quando eu tinha 10 anos. Desde então não parei mais de escrever. Em 1996 comecei a fazer fanzines, sendo Feitisífilisaria di Gnomonorréia e Insektron Comix de histórias em quadrinhos.

Bom, e músicas caóticas... Atualmente toco (baixo) na banda Onitorrincos e guitarra na Change Your Life. Em 1997 montamos a Scream Noise que eu tocava guitarra. Também fui vocalista da Facão 3 Listras [para saber sobre a Scream Noise e a Facão 3 Listras, clique aqui].

MOTEL BATES _COR_72DPI.jpgBates Motel

Tu é o protagonista de vários dos teus quadrinhos, como tu trabalha essa realidade sobreposta à ficção?

Insekto: Tenho vários personagens, mas muitas vezes eu mesmo que queria ter dito aquilo, não ele. Outras vezes é uma ideia exagerada e até radical, aí uso um personagem; por mais que eu escreva, o personagem tira um pouco da minha responsabilidade de ter dito algo... Mas acabei fazendo várias coisas já que eu mesmo apareço nos hqs, as primeiras não tinham humor... (bom, mas mau humor também é humor). Eram mais uns desabafos, umas até hoje nunca publiquei. Sei lá, como e quando realmente comecei a me desenhar, mas foi uma forma de reclamar as coisas, mesmo as mais depressivas ou situações constrangedoras ficassem com uma cara de humor, tira um pouco o peso da carga da culpa e do ridículo de se expor estando desenhado... O quadrinho chamado “Entrevista com Dr. Insekto” realmente é um resumo do que eu sou... heh. Na última Revista Prego, lá estou eu de novo falando sobre bebidas... Mas é claro, entre realidade e ficção, é uma realidade mal contada...

entrevista.jpgO artista entrevista o artista

Além de quadrinista, tu é ainda músico e poeta. Como essas incursões criativas interligam-se e complementam-se?

Insekto: Não sei o que sou realmente, por isso esta metamorfose, não me considero músico, apenas toco nas minhas bandas, é aquela necessidade de se comunicar, mas nem todas as vezes consigo dizer o que quero em um quadrinho, música ou conto, aí faço um filme. Mas tudo vem junto no mesmo pacote. Cada coisa que faço, tento separar das outras, em cada momento parece que sou outra pessoa, com outra função... Posso parecer um pouco truculento num quadrinho e maldito em um conto, mas em poemas, tento não ser jamais aquele cara que escreveu aquele conto sujo, no poema procuro um outro refinamento. Diferente de uma letra punk. Acho que é um reflexo e autoproteção de uma certa timidez vinda da infância, e tento dizer o que sinto da forma que tiver em mãos, sabendo ou não fazer, aí sai estas coisas...

medonho e jesus WEB.jpgJesus nunca existiu

Tu faz quadrinhos independentes há um bom tempo. O que evoluiu ou retrocedeu desde quando tu começou até hoje?

Insekto: Eu acabo publicando pouco. Ainda faço a mesma coisa, revistas, jornais independentes e zines, e agora internet... Mas tem surgido muita gente boa, muitos editores, com fases de publicação entre altos e baixos... Como nos 80, lia MAD, Chiclete com Banana, Animal e a Kamikase de Porto alegre, etc... Sou de ler repetidamente as mesmas coisas do passado... Falei recentemente no “segundo Faça Você MesmX” que parece que virou moderno ler e fazer zine de papel e fazer blog virou Vintage, Retrô... Este Boom editorial que falam, desconheço.

insekto vietnam _72 DPI.jpgUm retrato de autor e obra

A Ornitorrincos tem “Insektomania”, a Change Your Life tem “Invasão Insektoriana”, seria Dr. Insekto a maior musa do punk gaúcho?

Insekto: (Hahah) As duas são brincadeiras, os Ornitorrincos fizeram Insektomania, mas o Daniel iria chamá-la de “A Cidade ainda está morta”, mas o Zé Ulisses disse que seria “Insektomania”, a letra fala da volta da banda naquela época, das nossas nostalgias, ainda líamos fanzines e eu ainda não sabia tocar, (era a fase de retomar a banda e nada tinha mudado, fazíamos a mesma coisa, ainda fazemos) como fala na letra. Na Change Your Life aquela música surgiu em uma gravação no ensaio de duas músicas da Change misturadas, uma instrumental “I shot the Sheriff” e “Change Your Life”. Na época eu estava escutando muito músicas de surf music anos 50 e até tenho vontade de montar uma banda assim, e começamos a tocar as músicas como surf, com a guitarra com reverb no talo... Aí o Jonas Dalacorte levou pra casa, mexeu na música e colocou uma intro do filme “Beginning Of the End” (1957) e colocou o nome de “Invasão Insektoriana”.

indústria do entretenimento.jpgIndústria do entretenimento

5 quadrinhos que marcaram Dr. Insekto:

Bob e Harv - Robert Crumb e Harvey Pekar – Alguns até podem dizer, “Ei, mas este não é o mais significativo, ou o mais importante livro do Crumb. Não é, mas o Crumb é o Crumb. Cito este livro “principalmente” pelo Harvey Pekar. Um simples arquivista de hospital e um tarado compulsivo por colecionar discos de Jazz, que do nada resolve parar de colecionar e guardar seu dinheiro para fazer o seu próprio Gibi, o “American Splendor” e contar suas próprias histórias. (Neste livro ele conta isso!) – Isso serve para eu acabar com aquelas frases do tipo : “Todos os seus sonhos serão realizados, basta querer”, quem só sonha não faz. O Pekar fez!

bob_harv_miolo-015a050-35.jpgBob & Harv

Chiclete com Banana – Angeli – De todas as revistas, esta foi a que pirei, além dos quadrinhos dele, o estilo, os personagens, tinha Laerte, Glauco, Zimbres, etc., e Resenhas sobre zines. Até hoje releio minhas Chicletes.

As Aventuras de Glaucomix - Marcatti – Além de ter desenhado as capas de discos do Ratos de Porão, o seu estilo me lembra o Crumb, só que 1000 graus no escatológico. Este foi o primeiro do Marcatti que li. Opa, tinha que ter mais um tópico pra citar o Mutarelli. heh

glaucomix.jpgPout porri de Glaucomix

Valentina de Botas – Guido Crepax – O que falar de Guido Crepax¿ Gênio... A extrema sutileza no bico de pena, a forma de fazer os quadros, a delicadeza dos traços. O surrealismo nas histórias. Tenho vários do Crepax. Mestre.

Rango – Edgar Vasques – Outro mestre do bico de pena e aquarela. Na infância pirei nos livros do Rango, tentava copiar mas não conseguia. Anos depois fiz uma oficina de ilustração com ele. Hoje frequento a GRAFAR (Grafistas associados do Rio Grande do Sul) e ele sempre esta lá junto com tantos outros mestres como o Santiago e Joaquim da Fonseca.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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