aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Uma barulheira dos infernos

Uma linha do tempo (condensada) da música noise de John Cage ao Sonic Youth.


goo.jpg

A selvageria do Rock n’Roll em seus primeiros anos escandalizou a sociedade acima dos 25 nos EUA com sua amalgama dançante de ritmos em uma sonoridade que beirava o primitivo - os gritos de Little Richards, por exemplo. A polêmica em torno do novo som logo ganhou parâmetros mitológicos. Dizia-se que o Rock n’Roll possuía propriedades hipnóticas capazes de desvirtuar os jovens fazendo-os ceder a tentações profanas. (Já era comprovado que isso não era culpa do Rock n’Roll, mas sim dos hormônios, mas isso não vem ao caso).

O surgimento dessa nova sonoridade, contudo, não monopolizou o desgosto por parte dos setores mais conservadores da música. A transgressão era levada ao seu limite em outros níveis. Em 1952, John Cage apresentava sua obra mais conhecida - se não a mais célebre - ao público. Inspirada em “Pinturas Brancas”, obra de um dos fundadores da pop art Robert Rauschenberg, que consistiam em telas brancas nas quais as variações surgiam em aleatoriedades como poeira acumulada ou mesmo a sombra de quem as via, 4’33” consistia em exatos 4 minutos e 33 segundos de silêncio por parte do músico. Esse tempo seria dedicado a ouvir a música do ambiente. Uma pessoa tossindo, um carro passando do lado de fora, o vento, a chuva. E...é claro, o som das pessoas indo embora escandalizadas ainda no decorrer da peça. Diz-se da primeira apresentação de 4’33" que a própria mãe de John Cage questionara se dessa vez seu filho não houvera ido longe demais.

rauschenberg-white-painting (1).jpg Rauschenberg e suas Pinturas Brancas

Admirador da obra de Marcel Duchamp, a quem dedicou a composição “Music For Marcel Duchamp” (1947), Cage inspirou-se em vários elementos da obra do dadaísta francês ao compor suas músicas. Além de inserir sons inusitados em suas canções (cães latindo, rádios ligados, água corrente), o compositor valorizava o imprevisível; o que não podia ser controlado no processo de leitura de uma obra. Para Cage, o que os outros consideravam ruído uma verdade parte fundamental da música.

John-Cage-Paris-1981.jpgJohn Cage em Paris - 1981

Célebre entre admiradores de arte contemporânea (até mais do que no círculo musical), Cage sempre dialogou com outras artes. Suas performances eram normalmente acompanhadas por espetáculos de dança e projeções cinematográficas.

Em meados dos anos 1960, a busca pelo ruído de Cage finalmente se encontrou com os acordes do Rock n’Roll quando o multi-instrumentista John Cale, que havia participado de uma das peças do francês, encontrou o guitarrista e entusiasta de Chuck Berry Lou Reed em uma das sessões musicais do minimalista norte-americano La Monte Young. Adicionando-se ao grupo a baterista (totalmente primal) Maureen Tucker e o guitarrista Sterling Morrison, surgiu o Velvet Underground. Misturando riffs blueseiros acelerados típicos do autor de “Roll Over Beethoven” e melodias doces entrelaçadas por microfonias e atonalidades, o Velvet criou um novo nicho no Rock n’Roll. Seguindo o ideário de ruídos circunstanciais como musicalidade, a banda passou a usar as próprias microfonias causadas por seus equipamentos precários como uma forma de enriquecer as canções.

tumblr_mw456v2kHA1qz5nl8o1_500.pngLou Reed e John Cale nas ruas de NY

A excentricidade do grupo logo chamou a atenção de Andy Warhol, que os uniu (de forma não totalmente consentida) com sua musa, a cantora e atriz alemã Nico e adotou-os como obra de arte cativa de sua Factory. Assim como Cage, o Velvet preenchia suas apresentações com projeções de filmes de Warhol e com o grupo de dança BDSM The Exploding Plastic Inevitable de Gerard Malanga. O primeiro disco do Velvet, com a famosa capa da banana, idealizada por Warhol, é até hoje considerado um das mais importantes na história do pop. Tanto em relação às letras quanto aos arranjos, canções como “Heroin”, “Venus in Furs” e “The Black Angels’s Death Song” não encontram precedentes. Essa ousadia seria levada ainda mais longe em “White Light, White Heat”, o segundo do Velvet, que contém faixas como “The Gift”, na qual a leitura de um conto é sobreposta a uma massa sonora por mais de oito minutos e “Sister Ray”, que vai mais longe ainda, consistindo em 17 minutos de microfonia, atonalidade e melodia intercaladas.

Já em carreira solo, e bastante descontente tanto com a indústria musical quanto com o que sua gravadora tentava impor a ele, Lou Reed, após dois discos de certo sucesso – cujo último, “Sally Cant’ Dance”, o músico detestara – resolveu desafiar os executivos de sua gravadora com “Metal Machine Music”. Até hoje não se sabe se Lou Reed tinha pretensões artísticas ou se tudo não se tratou de uma grande piada. Brincadeira ou não, o disco duplo composto apenas por feedbacks – Lester Bangs, o lendário crítico musical, considerou-o “o melhor disco de todos os tempos”, pois qualquer um seria capaz de tocar algo como aquilo – foi um dos precursores do que se pode chamar de noise-music, influenciando diversos movimentos experimentais vindouros.

Mas Lou Reed e os Velvets não são figuras exclusivas entre as primeiras experiências com feedbacks e outros ruídos dentro da cultura pop. Desde o final dos anos 60 um grupo canadense vinha gerando delírios sônicos em instrumentos criados pelos próprios integrantes que faziam jus ao nome adotado pela banda. Assim como os trabalhos de John Cage, a música do grupo encontrou maior receptibilidade em instalações artísticas do que no ambiente natural de seu gênero.

Glenn Branca foi ainda mais longe ao apropriar-se de elementos do pop e do erudito. Enquanto o grupo nova-iorquino usava elementos da música de vanguarda dentro de uma roupagem pop, o músico conterrâneo explorava ambos os cenários sem necessariamente estar inserido em algum deles. A exploração das possibilidades sonoras da guitarra feita por Glenn Branca trabalhava com demasiadas características do universo pop para ser descrito como erudito, porém, não se adequava ao pop.

A peça mais famosa de Glenn Branca é certamente “Glenn Branca’s Electric Guitar Ensemble”, uma espécie de orquestra composta por guitarras amplificadas. A obra não agradou a John Cage, que afirmou ter percebido noções de fascismo nela, mas serviu de inspiração/escola para diversos músicos que viriam a expandir a experimentação do ruído dentro da esfera pop. Dentre seus pupilos encontravam-se, por exemplo, Page Hamilton – o grande guitarrista do igualmente relevante Helmet -, Michael Gira – Idealizador e líder do Swans, cujos concertos ensurdecedores reúnem desde estudiosos da música até headbangers vestindo camisetas do Megadeth (e também estudiosos da música que são headbangers vestindo camisetas do Megadeth) - e dois músicos que circulavam os becos da sonoridade disruptora do no-wave, movimento de ruptura formado por músicos/artistas que conseguia ser mais radical que o próprio punk campitaneado por Lydia Lunch, Arto Lindsay e James Chance que chegou a chamar a atenção de Brian Ano, logo viriam a formar o grupo pop experimental definitivo do Sec. XX. Após se conhecerem em uma das sessões de “Ensemble”, Thurston Moore e Lee Ranaldo juntaram-se a Kim Gordon (baixo) e Richard Edson (bateria), formando o Sonic Youth.

Poucos nomes de banda fazem tanto sentido quanto esse. “Juventude Sônica” sempre foi a melhor forma de se definir o som do grupo. Seja na performance totalmente pirada de “I Wanna Be Your Dog”, a já naturalmente pirada canção de Iggy Pop and The Stooges, no programa Live Night em 1989 ou com os integrantes já beirando os 60 anos de idade durante o último concerto da banda no SWU de 2011, a banda sempre transparece um certo devir juvenil de testar os limites tanto de seus instrumentos quanto do próprio público (alguns shows do Sonic Youth começavam apenas após vários minutos de improvisação noise; “Diamond Sea”, uma das canções com potencial pop dos músicos é bruscamente interrompida por 13 minutos de “ruído”).

O Sonic Youth foi o momento derradeiro de qualquer ideia experimental de ruído aplicado à música pop, foi o grupo que rompeu o caráter pretensamente hermético dos feedbacks de “Metal Machine Music” e aplicou o ideário dentro de melodias pop semiestruturadas. O quarteto nova-iorquino foi bem sucedido ao fundir estruturas usuais ao punk rock com momentos de pura abstração ou experimentação acerca de timbres e texturas sonoras, fluindo assim entre melodias grudentas e criações mais próximas à música de câmara de compositores como o próprio John Cage.

As incursões noise foram postas em prática em diferentes intensidades a partir do início da década de 80. Grupos britânicos como Spacemen 3, My Bloody Valentine e Jesus And Mary Chain dosaram melodias clássicas do rock n’roll com diferentes níveis de experimentações ruidosas. Já grupos como os japoneses do The Boredoms e os norte-americanos do Lightning Bolt foram mais longe, deixando até mesmo uma dúvida no ar em relação a serem de fato bandas que se enquadrariam no rock n’roll. Seja com uma afinidade maior ou menor, hoje o ruído encontra lugar dentro da cultura pop. Nada de incomum, visto que ele é considerado elemento inerente a qualquer forma de comunicação.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @obvious //Henrique Fernandes Coradini