aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

[entrevista] a catarse coletiva do Rakta

Entrevista com Maria Paula Aurora, tecladista e vocalista da banda paulista Rakta.


rakta divulgaçao mateus mondini.jpg Créditos: Mateus Mondini

1)"O Rakta circula entre paredes de som noise e ambientações psicodélicas, criando um som denso e repleto de intensidade". 2) "A banda apresenta uma sonoridade bastante urbana que é quebrada por elementos de bucolismo e/ou referências pagãs". 03) "Em um primeiro momento, a massa sonoroa do Rakta sugere uma coletividade total, mas, ao que se ouve com mais atenção, descobre-se nuances pessoais de cada uma das integrantes".

Essas foram três tentativas fracassadas de definir o som das paulistas do Rakta para a abertura dessa publicação. Desisti. É muito melhor simplesmente ouvir e criar a própria viagem com o som dessa banda que, em Dezembro de 2013, lançou seu primeiro disco (auto intitulado).

Conversei com a vocalista e tecladista Maria Paula Aurora (e, ao final, com todas integrantes) acerca de som, videoclipe, arte e outras coisas mais:

- O que é a Rakta? Quem são seus membros?

Rakta é uma viagem musicósmica ao redor do mundo, interno e externo! É uma catarse coletiva e individual, é uma família cheia de amor, com espírito jovem e velho. Rakta vai além de ser apenas uma banda! Os membros sou eu Paula, Carla, Natha e Laura. Eu conheço a Natha já faz uns 7 anos, de outras épocas! Conheci a Carla e a Laura através da Natha e pessoas conhecidas. Elas também foram se conhecendo por pessoas em comum. Fazemos da vida nossa aliada!

- A Rakta possui uma sonoridade bastante peculiar. Como chegaram a essa estética musical característica da banda?

Putz, tudo aconteceu de forma muito espontânea. Nunca pensamos “vamos fazer um som nessa pegada, com influências disso e daquilo”. Tanto que, vire e mexe, as pessoas nos falam “ah, o som de vocês lembra isso, lembra aquilo.” O legal é que cada um enxerga e sente de uma forma e nós nunca soubemos rotular nosso som, o que pra mim sempre foi massa. Acredito que para elas também. Todas têm gostos musicais em comum, mas também, todas têm suas preferências e referências mais assíduas. Nessa mistureba louca nasceu o nosso som, com um pouco da paixão musical de cada uma. A parada é o mundão livre, leve e solto.

rakta arte.jpgArte de capa do primeiro disco

- Como foi o processo de gravação do primeiro registro da Rakta?

Gravamos em dois dias. O primeiro dia foi semi ao vivo, no estúdio Quadrophenia do Sandro Dias, ficamos 6 horas trancadas no estúdio e gravamos baixo, guitarra e bateria. Vocal e efeitos foram gravados separados na casa do Pedro Carvalho, que nos ajudou muito também. Foi um processo novo para todas. Nos divertimos, erramos, ousamos, piramos enfim, foi tudo massa.

- O show de lançamento do disco foi realizado na rua, a céu aberto e sem cobrança de ingressos. Por que vocês optaram por esse formato?

Cara, não conseguimos visualizar o show de lançamento em algum lugar fechado. Já fazia tempo que a gente queria tocar na rua e rolou na melhor ocasião. A rua é um espaço público onde transita todos os tipos de pessoas, e compartilhar a sua arte com a aleatoriedade e o mistério da mesma é uma experiência incrível! Queríamos estar ali, lançando nosso primeiro LP, fazendo o que amamos e podendo compartilhar isso tanto com os amigos quanto com as pessoas desconhecidas. Foi um dia muito especial, e só aconteceu porque muitas pessoas estiveram envolvidas ajudando, dançando e dando aquela força!

- Na ocasião, foi vendida uma edição especial do disco que continha diversos itens gráficos extra. Qual a preocupação da banda com o projeto artístico de elementos promocionais?

O disco foi lançado pelo Nada Nada do Mateus e pelo selo da Carla e da Laura, o Dama da Noite. Para quem conhece esses “elementos” raros, já é de se imaginar que o disco não seria “apenas mais um disco”. A preocupação em poder materializar a essência do Rakta de forma original sempre esteve presente. Nós não encaramos o que fizemos como elementos promocionais, mas sim enxergamos essas coisas como complementares, partes de um grande todo, que faz nascer muitos sentidos e liberdade para aprofundar em caminhos diversos e infinitos. A arte foi feita pelo Lucas Cabu, as fotos são do Mateus. Dois caras sem palavras. A Talita também ajudou a gente pra caramba. Costurou todas as capas do disco! A todo momento a gente olhava as paradas, decidia em coletivo qual usar, opinava aqui e ali... Todos participaram ativamente, uns mais pra lá, outros mais pra cá. Queríamos fazer algo bom, bonito, delicado e forte ao mesmo tempo; queríamos que as pessoas pudessem se abrir para essas sensações também. Eu fico imaginando fulano acendendo aquele palo santo, ou outra coisa, e escutando nosso disco. Velho, que sensação boa.

rakta divulgação mateus mondini.jpgCréditos: Mateus Mondini

- Outro aspecto inerente à banda diz respeito ao caráter performático dos shows. Como tu definiria uma apresentação da Rakta?

Hmmm, cada show é um show. Depende muito do lugar, das pessoas, de como nós estamos individualmente... Como já nos disseram uma vez e eu concordo, é mais um acontecimento do que uma apresentação. Uma coisa é fato, a gente entra de um jeito e sai de outro. É muito flexível e a real é que nem a gente sabe o que pode acontecer. Eu mesma não sei o que vou fazer, eu só fecho o olho e me entrego, assim como todas. É lindo! Uma definição (que guarda mistérios): auuuuuu!

- Vocês recentemente lançaram um videoclipe de “Ganex + Blackmob” que realmente agrega valor à música, fundindo noções psicodélicas a ataques noise. Como foi a produção do vídeo, vocês participaram ativamente?

A gravação e edição foram feitas pelo Carlos Dias e pelo Lucas Cabu. Nos juntamos na casa da Carla, cada uma levou uma porrada de tralhas. Lembro dela dizer: “Cada uma leva coisas que representem a si mesmas” ou algo do tipo. Foi engraçado. Eu cheguei e logo vi uma jaca encima da mesa. Era dela. Tinha papel queimado na banheira, jaca boiando, palhaços macabros, túnicas transparentes, coroas, cartas, fotos, chapéu mexicano, plantas... Foi engraçado! O Cabu e o Carlinhos ficaram livres para criar e editar em parceria e individualmente, da maneira deles. Vimos o resultado final e já logo piramos. Foi tudo incrível, eles são foda, botaram fé na gente e mandaram ver. No fim, acabou em um rango árabe delicioso, com direito a uns 5 parabéns aleatórios. (ninguém tava fazendo aniversário mas a galera do restaurante, que provavelmente achou que a gente era um bando de gêmeos bizarros, cantou junto todas as vezes).

RAKTA - Ganex + Blackmob from lucas Valente on Vimeo.

- Na opinião de vocês, uma banda formada apenas por mulheres ainda é uma manifestação política dentro de um cenário machista no Rock n’Roll ou isso já é visto com naturalidade?

Natha: Vou confessar que essa ultima pergunta foi bem intrigante para todo mundo da banda, a gente simplesmente não conseguiu chegar a 1 resposta unica pois se tratava de algo bem pessoal, achamos melhor todo mundo expor suas ideias em individual por mais que as ideias de complementam entre elas, acho que isso é bem Rakta!

Carla: Como a sua pergunta se refere ao cenário rock´n roll, Eu acredito que nem sempre uma banda formada por mulheres no rock´n´roll seja uma manifestação política. No caso do Rakta, é muito pessoal de cada integrante como encaramos o "agir politicamente". Na minha visão o lado politico do Rakta está dito de outra forma, é através da experiência e das nossas profundezas, de fortalecermos isso pra poder continuar com o que acreditamos no mundo externo, WELCOME TO THE FOREST WOMAN, RUN WITH ME , é um hino de sororidade, mas não só de sororidade, TO DIE FOR WHAT YOUR WERE, DISCOVER WHAT YOU REALLY ARE, é uma preparação para "There is no authority, but yourself", é assim que começamos nossa apresentação.

Paula: Faço das palavras da Carla as minhas. Acrescento que, para qualquer tipo de transformação externa, é necessária antes uma interna. Essas coisas coexistem. Estamos continuamente errando, aprendendo e mudando... Para mim o Rakta aborda profundezas, viscerais e sutis, que despertam conteúdos conhecidos e desconhecidos, mas de uma forma diferente. Prezo por mais aceitação e compreensão de si mesmo e menos auto-martirização. Acredito que por esse caminho se faz uma revolução interna que transparece ao mundo e, assim, ajudamos uns aos outros a crescer, transformar e viver a vida de uma forma mais plena.

Natha: O machismo no rock n’roll para mim passou a ser algo bem relativo, depende muito de onde voce vai, com quem voce conversa e do meio onde você vive. O que pode ser natural para mim, pode não ser natural para outros. Infelizmente ninguém esta livre do machismo geral, do dia a dia e nesse caso tomar a frente pode ser uma manifestação politica. A cho que o Rakta é um misto de muitas coisas, são 4 garotas que se aproximaram por um motivo x, mexem com sensações visuais e auditivas. Pode ser uma manifestação politica ou não, depende de quem ouve ou vê, é livre interpretação...

Laura: Acredito que a reação contra o machismo deve ser cansativa, repetitiva e ofensiva. A postura feminista no Rakta existe em muitos sentidos. Simplesmente de nos reunirmos e fazermos da nossa vontade a potência para impulsionarmos nossas querências contra o estigma de que mulher não sabe tocar, somando com as nossas posturas em relação ao nosso dia-a-dia. Por mais que temos uma banda de formação 100% feminina, não creio que possamos dizer que temos uma postura política implicada na música. Pra mim música política é aquela que informa algo para o público e tenta mirar algum assunto e trabalhar em cima dele para gerar um conflito com as suas insatisfações pessoais que possam refletir de alguma forma no seu cotidiano ou do seu redor. Não posso afirmar que o posicionamento político do Rakta seja explícito uma vez que tudo é muito subjetivo e relativo ao que cada um experiencia quando vê nossa apresentação. E existe outro problema, nossas músicas são em inglês, e para um público que é formado, praticamente, por pessoas que não falam essa língua, acho um pouco difícil transmitir uma mensagem informativa de efeito.

Não excluo que somos feministas de coração e de amor, que sabemos, acreditamos, apoiamos e depositamos confiança nas mulheres, que temos nossas crenças políticas, que nossas atividades são recheadas de liberdade e também da independência feminina, mas dizer que abordamos esse assunto na música que fazemos, não é verdade.

Política é dura e triste, é uma borrada de merda na nossa cara que faz a nossa vida ser esse desgosto constante. Impossível tratar de política de forma etérea. Mas não critico, enveredamos para esse lado e o que temos de registro são essas músicas lindas, fortes, viscerais e emocionantes.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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