aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

a densidade sonora da Siléste

O vocalista Everton Luiz Cidade fala um pouco sobre a mistura noise-poética da Siléste - banda de São Leopoldo [RS] que conta com ex-integrantes da Viana Moog.


siléste mário arruda.jpg Crédito: Mario Arruda

A Siléste é uma banda que definitivamente não tem medo de assumir riscos. Com referências tanto ao guitar-rock noventista quanto ao pós-punk de bandas como The Fall e Joy Division e uma preocupação especial com o caráter poético das composições, a banda pode tanto soar francamente estranha quanto proporcionar uma experiência semi religiosa (ou algo que o valha). As batidas primais de Mádger Moreira Barte em um kit mínimo de bateria são acompanhadas por guitarras ao mesmo tempo estrondosas e melancólicas de Leonardo Serafini e Cris Siléste (no hay contrabaixo) e, dessa bruma, surgem os vocais de Everton Luiz Cidade.

Tentei desvendar (ou criar novas dúvidas sobre) o som da Siléste em uma conversa com o citado vocalista:

O que é a Siléste? Quem são e como começaram?

A palavra me apareceu como uma espécie de cisne, mas é a palavra celeste adulterada. Eu,Cris Spaniol,Leonardo Serafini e Madger Barte. Eu, o Cris e o Léo tocávamos na Viana Moog e estávamos compondo juntos. A Viana deu um tempo e nós continuamos. O Madger chegou um pouco depois, mas sempre esteve ali.

Como tu descreveria a (peculiar) sonoridade da Siléste? De onde ela surgiu?

Do cansaço.Do fazer automático.Urgente e natural.Sem pavonismo.

Ouvindo os materiais da Siléste, fica claro que há uma preocupação especial com as letras.

A palavra é usada como complemento sonoro num todo. É como um comentário casual feito numa sala de ruídos. Como um chiste bíblico. Um slogan desconexo.

Algumas delas têm características do concretismo, que, usualmente, é bastante visual. De que maneira tu formata essa composição visual em som?

O concretismo trabalha o som da palavra por ela mesma. E funciona em música por isso.Há muito texto auto explicativo nas canções brasileiras. As músicas duram pouco pra textos muito longos.O meu trabalho como letrista é achar a palavra certa.A palavra que condensa o maior número de significados pra que a letra faça uma liga com o eu do ouvinte. Daí o uso de imagens.Mas é tudo instintivo. A lógica é um empecilho.

Na Siléste, menos é mais – vide o kit mínimo de bateria e a ausência de contrabaixo. Esse primitivismo (se é que pode ser chamado assim) é intencional? Há algo a ser expressado através disso?

Sim, primitivismo: quando o vocabulário era mínimo pra dizer muito e o ruído era também comunicação. Apenas ser o mais natural possível. Sem enfados .

As performances de vocês são dosadas com fragilidade e brutalidade nas guitarras. Como tu descreveria a experiência de estar se apresentando com a Siléste?

Pra mim é calmaria no meio de estáticas.

Da mesma forma, às vezes parece existir um certo caos na forma como vocês tocam ao vivo, mas vocês acabam sempre se “reencontrando”. Essa sintonia se deve ao entrosamento ou é instintiva?

Instintos entrosados.

E como foi o trabalho de gravar/produzir/lançar o primeiro disco da banda?

Simples e agradável. O Andrio Maquenzi nos deixou muito a vontade, assim como o Daniel Rosemberg também,que produziu a faixa AGULHAS DE CANAVAL. Simples, agradável e rápido.

siléste-capa.jpg Arte de capa do disco de estreia da Siléste. Crédito: Felipe Oliveira

Como tem sido a recepção dele?

Muito boa. Vários blogs nos colocaram entre os melhores de 2012. A capa feita pelo Felipe Oliveira também. E duas músicas serviram de trilha sonora pra peça AVE GENET do ator e diretor Thiago Silva. Fiquei lisonjeado. As pessoas sacaram o lance por ser simples.

Vocês têm um público bastante fiel que os acompanha onde quer que toquem. Como é o convívio com esses fãs que também são amigos?

Não penso nisso. Pensar nisso é se colocar numa posição diferenciada. Eu bebo,com eles. Me irrito. Me divirto. Sou naturalmente tímido e um pouquinho antipático, então, só posso agir naturalmente. Não amo mais uma pessoa por ela gostar do que faço. Mas amo. Não sei


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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