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Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

As várias faces de Matheus Walter

Com o disco 11 Songs, o músico porto-alegrense explora sua própria identidade em diferentes gêneros musicais.


Matheus Capa 11 Vale.jpg

O músico Matheus Walter parece se divertir com a ideia de ser um personagem de si mesmo. Com experiências cinematográficas paralelas à música, o cantor e guitarrista que já fez parte de bandas como Tomate Maravilha parece cercar sua persona com ares ficcionais. Isso permite, entre outros, que em seu recém lançado disco Eleven Songs, o músico passe por sonoridades diversas – reggae, soul, country, entre outros – sem perder a identidade ou criar algum Frankenstein sonoro. Não, a presença do “personagem” Matheus Walter é forte o bastante para evitar isso.

Conversei com ele sobre o disco novo, cinema, música em inglês e outras coisas mais (para ler ouvindo o disco, clique aqui):

Ao longo das 11 canções que compõem o disco, tu passa pelo soul, pelo reggae, pelo iê-iê-iê e pelo blues – entre outros. É quase como se cada faixa fosse de um gênero diferente. Essa variedade foi calculada?

Ao mesmo tempo que eu busco uma variedade de estilos sempre, esse trabalho se baseia em um ciclo de canções escritas e gravadas em um período de uns cinco anos, é um trabalho que foi se criando e consolidando aos poucos. Mas de modo geral gosto de explorar ritmos e estilos diferentes – e são tantos a serem explorados! Jazz, samba, valsa, merengue, tango, diferentes estilos de baladas orquestradas... só pra começar. Felizmente não há limite.

Ao mesmo tempo, há uma certa coesão entre as faixas. Algo que vem da tua interpretação, quase como se fosse um personagem Matheus Walter cujos trejeitos se fazem presentes no eixo central das canções. Isso tem a ver com a tua experiência como ator? É consciente ou surge de forma espontânea?

Realmente, por trás da pessoa existe o artista, e em cada o projeto distinto o artista pode se manifestar através de diversas personas. Pensando a partir dessa pergunta creio que o “personagem Matheus Walter” tenha essa visão crítica, quase irônica em relação à sociedade, ao mesmo tempo que evoca uma atmosfera nostálgica sonora e visualmente. E com a questão da interpretação eu fui criando uma certa presença de palco que não existia no começo, eu era muito tímido pra encarar o público e tinha um certo nojo da minha voz.

E como a experiência com cinema influi no teu modo de compor, existe um ponto onde as artes se envolvem?

Algumas das canções que venho criando surgiram originalmente para Trilhas Sonoras: ainda em 2006, “1 Paranormal” foi trilha do longa do Otto Guerra “Wood & Stock – Sexo, orégano e Rock’n’roll”, nesse filme também compus a trilha incidental ao lado do FLU; três músicas do Eleven Songs foram compostas e gravadas para um seriado do Frederico Ruas que no fim acabou não rolando... Outras músicas minhas também sofreram o mesmo processo, e acho que sim, as artes influenciam e são influenciadas pela música. Se completam.

Matheus Walter Foto Virginia Simone 13.jpg Crédito: Virginia Simone

De fato, tu tem uma preocupação especial com materiais em vídeo. Tuas peças parecem extrapolar a ideia de um audiovisual promocional e ir em direções mais ambiciosas. Explique essa relação.

Em parceria com a Virginia Simone crio filmes, fotografias, obras de arte e afins. O clipe de Goin’ to Japan foi realizado por nós dois, e além da imagem ter um tratamento diferenciado, o processo também conta. As imagens em super-8 foram filmadas e reveladas por nós mesmos. Somos apaixonados pela estética de videoclipes feitos em película, ou quando os recursos de vídeo ainda eram limitados, aquela imagem suja e forte. Mas que isso não seja entendido como uma restrição à filmar digitalmente, nem usar recursos contemporâneos: a ideia é misturar tudo, sem concessões. E indo na mesma direção de artistas internacionais como Jack White ou Beck, buscamos sim esse requinte visual, a construção da imagem sendo vinculada ao cinema ou às artes visuais.

Goin` to Japan – Dir. Virginia Simone e Matheus Walter

Tu formou uma banda cujas performances são bastante potentes. Os shows são realizados com o mesmo grupo que tocou no disco? Quem são as pessoas que te acompanham?

Esses shows que tu viu foram bem legais, me acompanharam o Lufe Bollini na bateria, Gustavo Foppa na guitarra, Anderson Penha no baixo, Zé do Trompete, o Rafa Ferretti no teclado e participação do Bino Malmann na gaita. Um deles foi inclusive filmado em Super 8 preto e branco e deve virar mais um clipe brevemente. Não se sabe ao certo se os próximos compromissos terão essa exata formação. Desse grupo apenas o Lufe tocou no disco, fazendo os baixos. O Foppa fez a mixagem geral e a máster, e daí foi o momento em que o disco ficou pronto. Tem participações de alguns músicos que nunca tocaram em shows comigo também, como Márcio e Pedro Petracco, Jerônimo Bocudo, Lucas Hanke e o Jeremy Hindmarsh (Austrália). O 11 também conta com o Luciano Bolobang, tocando bateria na maior parte das faixas, o Bolo costuma participar de shows também. A Virginia Simone canta uma faixa, sua estreia nos vocais de uma canção, com ótimo resultado. Outro músico que já tocou junto, e produziu a faixa Some Fashion Shows é o americano Whit Evans. E posso citar mais duas feras que fazem shows comigo mas ainda não gravaram nesse projeto solo: o baixista Pedro Marini e o guitarrista Gabriel Guedes. Acho que seria massa ter todos esses e talvez mais alguns, todos juntos no palco, como uma orquestra incrível.

Matheus Walter Foto Virginia Simone 01.jpg Crédito: Virginia Simone

O disco foi lançado pela Punch Drunk discos e foi disponibilizado online. Como vem sendo o início da divulgação do material? Há algum objetivo definido para um futuro próximo?

A produção do disco foi feita pela Avalanche, edição da Humaitá do Rio de Janeiro, e agora o Daniel da Punch Drunk vai ajudar na divulgação de internet, e talvez umas cópias em cd apenas promocionais. O álbum está sendo colocado nas principais plataformas na web, e creio que se algum formato físico for lançado vai ser em vinil, o CD vem perdendo força, e infelizmente a maioria das pessoas não usa mais K7. Devo fazer mais uns shows em Porto Alegre, e quero me apresentar em outras cidades. Tenho um segundo álbum composto, que pretendo gravar ainda esse ano. Dele farão parte pelo menos três músicas que venho tocando nos shows: Wish i Was Back, Pretending e Surf & Sk8 Adventure.

Wish I Was Back ao vivo no Programa Radar

Das 11 canções, apenas uma foi composta em português. Apesar de clichê, não posso deixar de perguntar o porquê dessa opção. Principalmente tendo que a maioria das bandas independentes brasileiras vêm investindo no português.

Desde que comecei a compor, sempre me interessou a estética minimalista das figuras na língua inglesa. A língua portuguesa, por sua vez, possui na poesia um aspecto rebuscado, o que também me agrada muito. O fato é que ao longo dos últimos anos houve uma certa divisão: as letras em inglês formaram a maior parte do trabalho solo, e as em português geralmente são usadas na Walter & Reys, dupla que tenho com o Carlos Dias (Againe, Caxabaxa, Polara). Mas, repito, o disco vem fechando um ciclo. O próximo será diferente.

Matheus Walter foto Virginia Simone 02.jpg Crédito: Virginia Simone

O que tu faria se, por um dia, tu fosse irmão de Rainer Fassbinder e Daniel Pinchbeck?

Hehe, essa é boa. Do Fassbinder eu carrego muita influência, estética e comportamental. Além disso dividimos uma paixão: a America. Já o Pintchbeck, esse guru psicodélico da nova era, frequenta (e convida para) as grandes rodas intelectuais e burguesas de Nova Iorque, mítico altar da sociedade mundial. Juntar essas duas personalidades é acreditar em um mundo mais livre, colorido, sarcástico e lisérgico. Porém, a humanidade parece andar no caminho oposto. Sendo portanto, um irmão espiritual desses dois, faço minha a luta deles. Em resumo: um dia seria pouco, mas supondo que minha realidade fosse ser irmão desses dois, eu não faria nada, ia só ficar ouvindo os dois – que devem falar muito, o Fassbinder mesmo morto...

Para finalizar, que outras bandas/músicos tu indicaria no atual cenário porto-alegrense?

Sou fã do Tony da Gatorra, na realidade ele é de Cachoeira do Sul... A Mary O & The Pink Flamingos fazem um ótimo show, ela tem uma presença incrível de palco e as músicas são boas. O último show dos Bambinos Selvagens que vi foi muito bom. Adoro as festas dos Chimi Churris, Big Bandaid, Garage Monsters e afins... Existe um cenário, mas faltam canções, e as bandas não tem nem equipamento, a mesma coisa de sempre. Se de alguma maneira alguém chamar pra si a responsa de produzir esse material todo pode se dar bem...


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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