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Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

Fratura exposta - música instrumental pra dançar torto

Expoente da música instrumental do RS, a Fratura Exposta oferece apresentações impressionantes nas quais técnica, intensidade e até mesmo esforço físico andam juntos entre guitarra e bateria.


1505473_541921965876700_532014126_n.jpg Ps: roubei a foto - que é da Luísa Chini - do Facebook deles na cara dura...vai procurar "fratura exposta" no Google Images pra tu ver o que aparece

Assistir a uma apresentação da Fratura Exposta, essa dupla de guitarra (Daniel Roitman) e bateria (Theo Storchi), é sempre uma experiência e tanto. Ao vê-los pela primeira vez, lembro de observar as pessoas ao meu lado e notar que todas estavam boquiabertas, logo descobri que eu também me encontrava com a mesma expressão facial. Com arranjos que variam entre Black Sabbath, MC5, King Crimson e até Black Rio, a Fratura Exposta causa torcicolos naqueles mais corajosos que se atrevem a dançar. A guitarra cheia de efeitos e a bateria transloucada dialogam em melodias inusitadas e nunca se sabe o que se está por vir.

Recentemente a banda teve a oportunidade de tocar na Virada Cultural, um dos eventos mais tradicionais de São Paulo e do Brasil. Além disso, a dupla está trabalhando em seu segundo registro, cujas músicas já vêm sendo tocadas em suas apresentações.

Ouça os sons da Fratura Exposta enquanto lê essa entrevista clicando aqui

- Quem são essas duas pessoas que formam a Fratura Exposta? Como surgiu a banda?

Daniel: Nós nos conhecemos na faculdade de psicologia, e ainda no primeiro ano que nos conhecemos começamos a tocar junto com o Theo no teclado e eu na guitarra. Logo disso surgiu nossa primeira banda - guitarra, voz , bateria/cajon e teclados -, tocávamos covers e algumas composições próprias - principalmente Doors. Três anos depois surge a Fratura Exposta, logo quando o Theo começa a tocar bateria e eu começo a tocar numa nova afinação na guitarra, fruto de uma escola guitarrística chamada Guitar Circle ou Guitar Craft, e dirigida pelo guitarrista Robert Fripp, do King Crimson. A gente morava junto já há alguns meses, e acho que isso facilitou bastante pra relação que a gente mantém na banda e fora dela, como algo que aconteceu de forma espontânea e despretensiosa.

- O som de vocês tem passagens pelo soul, pelo stoner metal 70’s e por um lado mais refinado do hardcore, entre outros. O que inspira as composições da Fratura Exposta?

Daniel: acho que de um modo geral as nossas composições acompanharam nosso percurso musical, em termos de gostos, técnica e influências. No início era uma banda punk, e logo depois dos primeiros ensaios eu fui no curso da tal escola guitarrística, que me fez mudar muita coisa, e foi quando começaram a surgir as músicas com estruturas mais bizarras e complexas. Como a gente tem que se aturar todos dias, acaba que muito do que influencia um acaba influenciando o outro também. Theo: acho difícil citar influências sem pensar numa vasta rede de bandas e estilos, mas acho que tem uma banda que sempre foi muito querida por nós, que nos deu novas perspectivas de som e de fazer música independente. Em 2011, num festival de rock, conhecemos um trio instrumental de Buenos Aires chamado Falsos Conejos. Eles eram ótimos, quem não os conhece, sugiro que dê uma ouvida no som dos caras. Vale a pena!

- Ao longo das composições, tu passa por uma vasta gama de efeitos de guitarra. Qual o papel deles no som da Fratura Exposta e no teu modo de tocar?

Daniel: logo no início eu não usava nenhum pedal - plugava ela no ampli de baixo e era isso, daí um dia comprei um pedal e depois comecei a brincar com os pedais de um amigo nosso do coletivo - casulamente o Marcel, que é quem grava e mixa nossas músicas - bem no dia em que estávamos gravando algumas músicas, e achei aquilo muito foda. Desde então tenho experimentado alguns pedais novos e aprendendo a usar nas músicas e improvisos, considero algo indispensável pra música da Fratura Exposta hoje, embora não use na outra banda que eu toco, a Sapo Jones e Coiote Bill. O que os pedais fazem é me permitir chegar em sons diferentes, explorar profundidade, mudanças bruscas, dissonâncias, ruídos - eles me oportunizam uma variedade infinita de timbres e sons.

Fratura Exposta no programa Radar TVE

- Os shows de vocês são bastante físicos. A ponto de, em certos momentos, envolver esforço físico de fato (principalmente por parte do baterista Theo Storchi). Como essa dinâmica é trabalhada?

Theo: Hahaha, eu não diria que ela é trabalhada, diria que ela simplesmente é. Quando eu e o Daniel começamos a ensaiar juntos no formato guitarra e bateria, marcávamos apenas uma hora de ensaio, por questões tanto físicas quanto financeiras. Acho que foi assim que aprendemos a tocar juntos, já que começamos a banda logo no meu primeiro mês de aprendizado na percussão. Mesmo assim, não enxergo nosso som como música que está sempre lá em cima. As variações, que propiciam zonas calmas e espaçadas na música, também possibilitam que o corpo tome seu tempo, antes de voltar a um momento catártico. Talvez sejam esses momentos de calma que possibilitam as passagens intensas de som que sejam tão intensas, porque se dependesse só do físico, como fumantes, estaríamos bem limitados, o que não vejo como sendo o caso.

- Vocês estão trabalhando no segundo registro da banda. O que há de diferente entre esse material e o lançado anteriormente?

Daniel: o nome do próximo álbum ainda não tá definido, mas vão ser duas coisas bem diferentes, agora a gente tem um estúdio coletivo, temos músicas melhor trabalhadas que na época que gravamos os outros sons, e estamos ralando pra fazer um álbum melhor acabado, e lancá-lo físico também. Acho que os momentos são bem diferentes, e agora a gente percebe a possibilidade de levar adiante o projeto, pra fora da região, inclusive.

Mais um som no Radar TVE

Theo: Nosso primeiro album foi gravado numa correria, dois dias “ao vivão”, numa sala só. Estamos desprendendo mais esforço, mais atenção e cuidado aos detalhes agora. Acho que o que dá a diferença é que estamos em um momento diferente frente a banda. Quando gravamos “O Quadro da Dor”, queríamos muito um album, e queríamos que fosse feito da maneira mais espontânea possível. Poucos overdubs, erros aqui e ali, e assim por diante. Acho que hoje já temos a maturidade de ver que um lance mais trabalhado não perde em espontaneidade. Seguimos gravando ao vivo, mas temos experimentado um sentimento maior de preocupação com os timbres que acabamos captando, uma construção mais lenta do som que acaba ficando registrado. No primeiro album, tinhamos seis meses de banda (e eu, sete de bateria). Hoje, temos quase dois anos. Estamos um pouco mais calejados (talvez?).

- O disco está sendo produzido em conjunto com o Coletivo Música da Casa Verde, como se dá essa parceria?

Daniel: nós somos parte do coletivo, que tem sede em esteio - onde fica nosso estúdio. o coletivo é um meio que nós e outros músicos achamos de se independizar em termos de produção, gravação - ou de só tocar junto e beber cerveja. em 2011 começamos a montar palco livre alguns domingos no centro de vivências do campus do vale, daí montamos um estúdio temporário no cafofo - os fundos de uma casa comercial em canoas e começamos a gravar. depois de algum tempo resolvemos que deveríamos ter uma casa própria - pra gravar, fazer festas e trabalhar junto.

Theo: Acho que o Coletivo foi uma ótima maneira – talvez a melhor – de se dedicar a música. Temos em torno de 12 músicos, formando algo entre 7 e 8 bandas entre si. A união possibilita não só uma maior força musical como também política. Quando tem alguma banda gravando, todo mundo opina, dá sua sugestão. Tudo é decidido coletivamente entre nós. Ter esse apoio – e apoiar – tantos amigos e colegas, valoriza e muda a relação com a própria música.

Tomara que Caia

- E a oportunidade de tocar na Virada Cultura em São Paulo como surgiu? O que vocês esperam encontrar por lá?

Daniel: fomos chamados por um amigo nosso que está na ocupação Ouvidor 63 - Nicolas Collar, fotógrafo - onde ficamos durante a virada e tivemos uma experiência muito foda. lá a gente tocou no palco do estúdio lâmina - um estúdio que também abriga diversos artistas. chegamos lá meio no anonimato, embora conhecêssemos várias pessoas que estavam ocupando o prédio. a impressão que ficamos é que muita gente gostou bastante da fratura, e algumas oportunidades estão surgindo no nosso horizonte, fazendo parte dessa cena independente que habita a ponte entre são paulo e porto alegre. fomos de surpresa, decidindo alguns dias antes, e foi uma viagem em que conhecemos muita gente muito foda, artistas geniais e gente interessada no nosso trabalho, e nossa ideia é voltar pra lá assim que terminarmos nosso próximo álbum.

Theo: foi muito engraçado ter tocado em São Paulo como primeira experiência fora de Porto Alegre e região metropolitana. Acho que nosso som tem muito a ver com a capital paulista, pelo menos pela forma como eu experimentei a cidade. A Virada Cultural, como descobrimos, é, assim como São Paulo, um evento descomunalmente caótico. É genial ter um evento desses numa cidade tão grande: é uma vivência urbana muito intensa. O som que tocamos acabou se encaixando, pra mim, na megalópole: um excesso desconfortável de estímulos e uma imposição de vastas diversidades.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
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