aleatoriedades

Cultura não factual.

Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]

A guitarreira "encharcante" da Catavento

Em uma dinâmica ambivalente de estéticas sonoras, a banda caxiense Catavento tanto traz um sopro de lisergia ao Guitar Rock quanto dá novo gás guitarreiro ao psicodelismo.


catav.jpg

Em uma dinâmica ambivalente de estéticas sonoras, a banda caxiense Catavento tanto traz um sopro de lisergia ao Guitar Rock quanto dá novo gás guitarreiro ao psicodelismo. As diversas menções hippongas ("o caos é lindo", disse o guitarrista em uma apresentação da banda em Porto Alegre) dividem espaço com explosões energéticas que podem linkar a Detroit setentista de Stooges e MC5 ao rock altamente baseado em guitarras de Nova Iorque (Sonic Youth) e Seattle (preencha aqui com sua banda Seattle 90's predileta) na década de 90. Porém, o som da banda passa longe de soar genérico ou derivativo, pelo contrário, em seu primeiro disco - Lost Youth Against the Rush - a Catavento impressiona pela maturidade e pela fuga do óbvio ("mal dá pra acreditar que as composições são deles mesmos", disse um amigo meu em um surto simultâneo de admiração e menosprezo ao ouvir o disco).

Conversei com o guitarrista Léo Lucena acerca de questões diversas que circundam a banda, confira!

Quem são os membros da Catavento? Como a banda foi formada?

A banda é: Léo Rech (guitarra/vocais), Du Panozzo (baixo/vocais), Leo Lucena (guitarra/vocais), Johnny Boaventura (teclas/vocais) e Luquinhas Bustince (bateria). Começou em 2012 quando Leo Lucena se juntou a Leo Rech e Du e acabaram compondo algumas melodias, logo após, Luquinhas assumiu a batera e no meio das gravações do primeiro disco (Lost Youth Against The Rush) no fim do mesmo ano, Johnny entrou na banda como tecladista.

O som de vocês segue uma estética com pés fincados no guitar rock dos anos 80 e 90, mas dando espaço para lisergia. Como funciona essa dinâmica?

Acho que da mesma forma que funcionava com essas mesmas guitar bands de 80 e 90. Esses caras eram completamente abertos a qualquer tipo de som que os atingisse de alguma forma positiva, a gente tenta fazer isso também, mesmo que inconscientemente as vezes. Então eles vêm das sobras humildes das pesadeiras setentistas com distorção na mente e ao mesmo tempo super embalados com as dançadeiras mais antigas. Isso é muito massa, fica tipo uma gosma sonora que envolve e enxarca qualquer um, hahah…

As variações rítmicas e dinâmicas melódicas das canções da Catavento são bastante versáteis, como funciona o processo de composição da banda?

Acabam vindo do que a gente tem escutado em determinada época, varia bastante. Eu, o outro Léo, o Du e o Johnny gostamos de compor então vem tudo que é tipo de ideia, do que cada um escuta mais. Mas assim, são sempre só ideias, quando chega pra toda galera que vira essa massaroca, rola um complemento aqui, um barulhinho ali, uma vozinha acolá, e aí vai tudo ficando cada vez mais diferente e estranho. E legal. Ou não.

Como foi o processo de gravação do primeiro disco da banda, Lost Youth Against the Rush?

A contar das composições começou lá por 2011 ainda, acreditoeu. com alguma coisa de Seesaw talvez, lembro que um dia o Léo chegou pra mim e disse “o meu, fiz um som meio ska grunge, haha, se liga..” era a própria. Fiquei maluco de empolgação e naquele mesmo momento a gente percebeu que a gravação era necessária. Começamos a ensaiar bastante, ainda sem o Johnny, e depois de um tempo marcamos com o Maffei (produtor do disco) de ir captar a bateria e o baixo na praia, em Curumim, na casa dele. A partir daí foi rolando, as guitarras, as vozes, mais tarde os teclados, vozes e nóias, mas demorou mais do que a gente imaginava pra ficar pronto, entre alguns shows e clipes só em Janeiro de 2014 conseguimos lançar o álbum na internet e um mês depois em formato físico (CD). De qualquer forma valeu muito a espera e superou demais nossas expectativas.

As composições do disco parecem girar em torno dos temas “liberdade” e “devir” dentro de um certo quadro social. Há uma preocupação política em relação à mensagem?

Que legal tua interpretação, haha. É basicamente isso cara, é meio que a nossa filosofia de vida mesmo, essa coisa de fazer o que quiser desde que seja de verdade, com amor. Isso é o GLIMB, esse estado de espírito que não faz mas faz todo o sentido, essa energia de liberdade, a gente vive isso. E reflete no nosso som, nas letras, em tudo. A nossa preocupação é mais com manter a nossa mensagem sincera e verdadeira em relação a isso, ao que sentimos de fato. Se isso for uma preocupação política então pode ser sim.

Vocês já vêm apresentando algumas canções novas nos shows da banda. Em que sentido elas variam em relação às do primeiro disco?

Quando compusemos o LYATR, ouvíamos bastante Foo Fighters, Cage The Elephant, umas paradas mais pesadas. Agora tá mais suave, talvez. Mais abrangente eu acho. No primeiro disco só tem umas 2 músicas que eu compus uma boa parte, o resto é tudo do Léo, neste novo que estamos gravando agora, tá super dividido, dentre todas as ideias que surgiram tem no mínimo umas 4 diferentes de cada um que compõe, tá uma doideira!! Talvez seja por isso. Eu tô louco pra conhecer esses sons gravados.

Quais as condições encontradas por uma banda independente no interior do Rio Grande do Sul – Caxias, especificamente?

Cara, as condições que nós encontramos quando começamos a correr atrás de tocar e espalhar nosso som, foram mínimas. Tivemos que meio que fazer a cena, apesar de que sempre foi um pouco assim. A gente se juntou com bandas de brothers que se viam tão perdidos como nós e montou o selo, o Honey Bomb Records, que é quase que um coletivo de bandas mesmo. É do selo que saem os vídeos, os contatos, os shows, os materiais e tal, foi muito bom pra nós. Hoje o Honey Bomb Records ta começando a trabalhar com bandas que os envolvidos não fazem parte, mas bem aos poucos.

Aqui tem pouco bar, tem pouco público interessado em coisas diferentes, enfim. Hoje o que rola é bem underground, tudo por conta, se não morre. Por não ser autentico ou por falta de suporte. A gente tenta se manter assim, fazendo a nossa. Tá sendo muito bom tocar e poder conhecer galera dos lugares mais diferentes. Sempre tem alguém que vem trocar uma ideia depois do show e o mais louco é que cada pessoa tem uma visão diferente sobre o Catavento, chama a atenção de pessoas com personalidades bem aleatórias. Isso tudo dá muita vontade de continuar produzindo e espalhando material por aí. É prazeroso e nos deixa muito feliz.


Henrique Fernandes Coradini

Tenho um apego especial por artistas que tenham criado rumos para uns e ofendido vários. Do hip hop ao psicodélico, qualquer produção cultural que soe legítima e original dentro de seu tempo desperta meu interesse. Sou mais um jornalista perdido em Porto Alegre. [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Henrique Fernandes Coradini